ALFREDO VICENTE SCHERER

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Nome: SCHERER, Vicente
Nome Completo: ALFREDO VICENTE SCHERER

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
SCHERER, VICENTE

SCHERER, Vicente

*religioso; arceb. Porto Alegre 1946-1981.

 

Alfredo Vicente Scherer nasceu em Bom Princípio, município de São Sebastião do Caí (RS), em 5 de fevereiro de 1903, filho de Pedro Scherer e de Ana Offermann Scherer.

Fez os estudos preliminares no Colégio Paroquial de Bom Princípio. Aos 11 anos ingressou no Seminário Provincial de São Leopoldo (RS), onde concluiu o curso secundário e iniciou seus estudos teológicos. Em 1924 ingressou na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, onde se doutorou em teologia. Recebeu a sua ordenação sacerdotal em abril de 1926.

No ano seguinte retornou ao Brasil e, em janeiro de 1928, foi nomeado secretário particular do arcebispo de Porto Alegre, dom João Becker. Como secretário, atuou na paróquia de Guaíba dirigida por seu irmão, o cônego Estanislau Scherer, e organizou as paróquias de Barra do Ribeiro e de Tapes, no interior do estado.

Com o início da Revolução de Outubro de 1930, liderada por Getúlio Vargas, valendo-se de sua condição de secretário particular de dom João Becker, convenceu o arcebispo a enviá-lo para Itararé (SP), onde estavam as forças gaúchas, para atuar como capelão militar das tropas revolucionárias, as quais acompanhou até o Rio de Janeiro.

Após a vitória do movimento, retornou a Porto Alegre e reassumiu suas funções de secretário, que desempenhou até 1934. Em março de 1935 tornou-se vigário da paróquia de São Geraldo, bairro de Porto Alegre de grande concentração operária, o que lhe possibilitou travar contato com os problemas vividos pelos trabalhadores. Permaneceu à frente dessa paróquia até 1945.

Eleito bispo, foi nomeado em junho de 1946 bispo-auxiliar da arquidiocese de Porto Alegre. Com a morte de dom João Becker, ocorrida naquele mesmo mês, assumiu provisoriamente a direção da arquidiocese por eleição do Cabido Metropolitano. Em dezembro desse mesmo ano foi nomeado pelo papa Pio XII arcebispo de Porto Alegre, sendo confirmado definitivamente no cargo em fevereiro de 1947, quando dom Carlos Chiarlo, núncio apostólico no Brasil, lhe conferiu a ordenação episcopal. Dois anos mais tarde planejou e dirigiu os trabalhos do 5º Congresso Eucarístico Nacional, em Porto Alegre.

Em 1952 integrou a comissão central para a criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e, após sua fundação em outubro daquele ano, foi eleito para dirigir um dos seus organismos, o Secretariado Nacional do Apostolado dos Leigos.

À frente da arquidiocese de Porto Alegre, criou em 1957 o Secretariado de Ação Social, que edificou e dirigiu a Cidade de Deus, constituída de casas para populações carentes. Em fevereiro de 1961 instituiu a Sociedade Fraterno Auxílio, destinada a proporcionar assistência aos sacerdotes diocesanos inválidos por enfermidade ou velhice. Construiu, nas localidades de Bom Princípio e Arroio do Meio, dois seminários para menores e organizou o seminário de maiores na localidade de Viamão. Erigiu a Escola Normal Rural Estrela da Manhã, destinada à formação de professores rurais, e reformou o antigo prédio do seminário de Porto Alegre, adaptando-o às funções de residência episcopal e sede da Cúria Metropolitana.

Em junho de 1961 iniciou o programa radiofônico semanal A voz do pastor, em que se dirigia à população gaúcha, e que era transmitido todas as segundas-feiras pela Rádio Difusora de Porto Alegre. Em seu primeiro pronunciamento nesse programa, abordou o problema social do menor abandonado, afirmando que “a causa verdadeira e última do abandono e da delinqüência da infância e da juventude está na desorganização da família”.

Com a renúncia do presidente Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961 e o veto dos principais chefes militares a que o seu substituto constitucional, o vice-presidente João Goulart, fosse empossado na presidência da República, desencadeou-se uma grave crise política no país. No Rio Grande do Sul, o governador Leonel Brizola, cunhado de João Goulart e fiel à Constituição, organizou um movimento de resistência à oposição militar lançando a “campanha da legalidade”, com o objetivo de assegurar a posse do vice-presidente. O general José Machado Lopes, comandante do III Exército, sediado em Porto Alegre, recebeu ordens do ministro da Guerra, general Odílio Denis, para atacar o palácio do governo estadual e terminar com a campanha.

Atendendo ao pedido de Neusa Brizola, esposa do governador, dom Vicente Scherer compareceu ao palácio, afirmando que “seria capaz de sentar em frente ao palácio se houvesse o ataque”. A partir desse momento, o arcebispo se ofereceu para atuar como mediador entre as duas partes. Sua participação contribuiu decisivamente para que o clima de guerra reinante na capital gaúcha fosse desfeito. O general Machado Lopes integrou-se ao movimento em favor da posse de Goulart, declarando que não cumpriria as ordens ministeriais. Com isso, o III Exército colocava-se em confronto com o poder central. No início de setembro de 1961, como forma de contornar a ameaça de guerra civil, foi adotado, pelo Congresso, o regime parlamentarista, garantindo-se, com isso, a posse de João Goulart na presidência da República, no dia 7 daquele mês.

No fim de 1961, com o apoio do governador Brizola, crescia no Rio Grande do Sul o movimento de agricultores sem terra visando a uma reforma agrária. Contrapondo-se a esse movimento, dom Vicente Scherer fundou a Frente Agrária Gaúcha (FAG), para organizar os trabalhadores do campo contrários à reforma agrária. Mais tarde, essa frente congregaria todos os sindicatos rurais do estado, dando origem à Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag) do Rio Grande do Sul.

Em outubro de 1962, foi designado membro da Comissão Doutrinária para a Fé e os Costumes, que trabalhou na preparação de importantes documentos para o Concílio Ecumênico Vaticano II, aberto pelo papa João XXIII. Nesse mesmo mês, quando do início do concílio, foi eleito pelos padres conciliares para integrar a Comissão Teológica.

Em 1966, dois anos após a eclosão do movimento político-militar de 31 de março de 1964, que depôs o presidente João Goulart, ocorriam no país lutas generalizadas do movimento estudantil contra a política do governo. Nessa época, em julho, quando dom Vicente Scherer ainda se encontrava à frente do Secretariado Nacional do Apostolado dos Leigos da CNBB, realizou-se o XIV Conselho Nacional da Juventude Universitária Católica (JUC). Nesse encontro, os congressistas, aprofundando tendências esboçadas em 1962, quando boa parte de seus membros havia criado a Ação Popular (AP) — organização política que tinha como objetivo a transformação radical da sociedade brasileira num sentido socialista —, aprovaram resolução definitiva de ruptura com a hierarquia da Igreja. Pela nova resolução, não mais se reconheciam como Ação Católica ou qualquer forma de organização que se definisse como extensão do apostolado hierárquico. Após o rompimento, o prelado gaúcho divulgou documento aos arcebispos do Brasil assinalando a inconformidade das aspirações da Ação Popular com a linha pastoral da Igreja.

Ainda em 1966 dom Vicente desagradou ao regime militar ao ler sua palestra no programa A voz do pastor na missa pelas vítimas da Intentona Comunista, na qual advertia: “Não é só com armas que se vence o comunismo, é preciso organização social, é preciso pão na mesa.”

Em 1967, participou do sínodo dos bispos em Roma, como um dos representantes brasileiros, e, em fevereiro de 1968, foi nomeado, pelo papa Paulo VI, membro da Sagrada Congregação para os Bispos. Cardeal em abril de 1969, no mês seguinte, por nomeação do papa Paulo VI, passou a integrar a Sagrada Congregação para a Evangelização dos Povos. Nesse mesmo ano tornou-se secretário da CNBB para a região Sul-3.

No fim de 1970, com a nomeação de dom Agnelo Rossi, presidente em exercício da CNBB, para o cargo de prefeito da Sagrada Congregação para Evangelização dos Povos, com sede no Vaticano, dom Vicente Scherer, vice-presidente da entidade, ocupou interinamente a presidência, permanecendo no cargo até fevereiro de 1971, quando então foram convocadas eleições para o preenchimento dos cargos titulares. Nessas eleições, concorreu, com o apoio dos conservadores, à presidência da CNBB, obtendo no pleito apenas 65 votos, contra os 105 dados a dom Aluísio Lorscheider. Para secretário-geral foi eleito dom Ivo Lorscheiter, bispo-auxiliar da arquidiocese de Porto Alegre e primo de dom Aluísio.

Por ocasião do I Encontro Nacional de Comunidades de Base, realizado sob o lema “Igreja que nasce do povo pelo Espírito Santo”, em janeiro de 1975, em Vitória, dom Vicente condenou as teses defendidas no encontro pelas suas características “antieclesiais e anticristãs”. Segundo o cardeal, essas teses se afastavam “cada vez mais da genuína doutrina cristã e católica e evidenciam sua identificação com as diretrizes fundamentais do sistema ideológico do marxismo”. Em uma alocução radiofônica feita no programa A voz do pastor em dezembro de 1976, criticou o documento divulgado pela Comissão Representativa da CNBB sob o título Comunicado pastoral ao povo de Deus, no qual se denunciavam os assassinatos dos padres Rodolfo Lunkenbein — em meio a um conflito entre fazendeiros e índios em julho em Mato Grosso — e João Penido Burnier — morto numa delegacia do povoado de Ribeirão Bonito, em Barra do Garças (MT), ao reclamar contra a prisão e a tortura sofridas por duas mulheres — e o seqüestro do bispo de Nova Iguaçu, dom Adriano Hipólito. Nessa ocasião, o prelado gaúcho afirmou que o documento “procurava fomentar uma crise entre a Igreja e o governo no Brasil, através de uma campanha apaixonada e caluniosa”.

Em 31 de dezembro de 1979, quando saía dos estúdios da Rádio Difusora, onde acabara de gravar seu programa, foi seqüestrado no centro de Porto Alegre por dois homens. Golpeado a faca várias vezes, foi humilhado pelos assaltantes que o obrigaram a se despir completamente e o abandonaram em lugar ermo. O episódio teve enorme repercussão e mereceu condenação por parte de várias personalidades e autoridades no país. O próprio ministro da Justiça, Petrônio Portela, afirmou ter sido o cardeal “alvo de um ato de terror, sem contudo poder concluir pela conotação política de grupos radicais de direita ou de esquerda”. Essa dúvida deveu-se à onda de violência reinante no país, praticada por grupos armados de extrema direita contra autoridades eclesiásticas, que já haviam atacado os bispos dom Adriano Hipólito, dom Luciano Mendes de Almeida e dom Estêvão Avelar.

Depois do seqüestro, declarou que “reagiria a bala contra os assaltantes se tivesse uma arma”. A declaração gerou muita polêmica na imprensa, pela possibilidade de vir a ser interpretada como uma recomendação para que as pessoas andassem armadas. Tal fato provocou a intervenção de dom Ivo Lorscheiter, então presidente da CNBB, que, em favor do religioso, observou: “Deus põe a pessoa no mundo com vida, e o ser humano deve defender essa vida.”

No início de janeiro de 1980 foi divulgado em Madri, pelo jornal El País, um documento secreto da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, sediada em Roma, pelo qual se concluía que dom Vicente Scherer e dom Umberto Mozzoni, na época núncio apostólico no Brasil, tinham sido os responsáveis, em 1972, pelo pedido de avaliação, por aquela congregação, do livro Jesus Cristo libertador, de Leonardo Boff, padre e teólogo brasileiro idealizador da Teologia da Libertação, publicado naquele ano e considerado pouco ortodoxo. Após a avaliação, a Congregação para a Doutrina da Fé recomendara a Boff mais prudência em relação às suas futuras publicações.

De visita ao Brasil, o cardeal Agnelo Rossi, prefeito da Sagrada Congregação para a Evangelização dos Povos, em Roma, advertiu, em entrevista em abril de 1981, que estava sendo gravado na Europa, em fitas cassete, por alguns teólogos da libertação, um programa de evangelização de conteúdo marxista destinado à politização das comunidades eclesiais de base (CEBs) no Brasil. Em seguida, em comunicado de Roma, dom Agnelo Rossi confirmou e documentou a advertência. No mês seguinte, no Brasil, depois de ouvir as gravações no Vaticano, dom Vicente Scherer corroborou a denúncia afirmando que considerava o programa “uma grosseira blasfêmia, deturpação de tudo quanto existe de sagrado nos Evangelhos” e que, portanto, “não permitiria a divulgação das fitas nas comunidades eclesiais de base do Rio Grande do Sul”.

Sempre fiel ao lema “Sou enviado para evangelizar”, inscrito em seu escudo episcopal, voltou a repudiar o envolvimento de padres e bispos com a atividade política. Assim, quando, em julho de 1981, aproximadamente seiscentas famílias de agricultores sem terras, acampadas desde fevereiro em Ronda Alta (RS), decidiram não aceitar propostas do governo de transferência para outras regiões, criticou a participação, nesse movimento, do bispo de São Félix do Araguaia, dom Pedro Casaldáliga, e de outros religiosos ligados à Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Aos 75 anos, conforme orientação seguida pela Igreja Católica, encaminhou ao papa Paulo VI seu pedido de renúncia à direção do arcebispado de Porto Alegre. Entretanto, esperou três anos para que fosse aceito seu afastamento, que só ocorreu em 16 de setembro de 1981, quando foi substituído por dom Cláudio Colling, bispo de Passo Fundo (RS), o primeiro bispo que ordenou.

Em seguida retirou-se para trabalhar como auxiliar do capelão do Hospital Divina Providência, em Porto Alegre, e como padre de uma vila de operários nas imediações do hospital. Em janeiro de 1982 assumiu o cargo de provedor da Santa Casa de Misericórdia, único hospital de indigentes do estado, com a missão de resolver os graves problemas financeiros da instituição.

Através de seu programa radiofônico continuou se manifestando publicamente diante dos acontecimentos. Assim, durante o governo militar do general Figueiredo (1979-1985), em janeiro de 1983 condenou as “mordomias e as dispendiosas viagens ao exterior de membros do governo” que não eram “entendidas pelo povo”. Em contrapartida observou que o exemplo deveria partir do governo, que declarara que aquele ano seria de “graves dificuldades e pesados sacrifícios”.

Dois meses mais tarde, ao comentar a “despolitização” da Igreja em conseqüência da abertura, anunciada pelo presidente da CNBB, dom Ivo Lorscheiter, considerou que a democratização seria “apenas uma referência à fase nacional em que entramos; as circunstâncias mudam, mas o norte, os princípios da Igreja, ficam sempre os mesmos. Nós não temos e não teremos soluções para oferecer em matéria de política e de economia, mas temos a obrigação de defender a justiça e os direitos humanos em qualquer circunstância, sem partidarismos”.

Em abril, lembrando a aproximação do Dia do Trabalho e o centenário da morte de Karl Marx, reconheceu neste “a tomada de consciência que seus escritos despertaram na classe trabalhadora contra as injustiças intoleráveis e as explorações de que eram vítimas indefesas no início da era industrial e o são infelizmente ainda hoje em grande escala”. Como um dos expoentes da corrente conservadora da Igreja, condenou, contudo, o sistema ideológico marxista, porque “submete o homem incondicionalmente ao partido e ao Estado, que dele dispõem soberanamente para o êxito e o triunfo da causa comunista”.

Em julho de 1985, apoiou o protesto da Conferência Episcopal da Nicarágua, formalizado à CNBB, denunciando a ingerência religiosa brasileira em assuntos internos do país. Quanto às referências feitas no documento à atuação de dom Pedro Casaldáliga e de dom Paulo Evaristo Arns, condenou a interferência de padres brasileiros em questões estritamente peculiares de uma determinada nação, se recusando contudo a julgar as atitudes dos dois religiosos.

Por ocasião da comemoração dos duzentos anos da Revolução Francesa, em março de 1989, no seu programa de rádio definiu os líderes daquela revolução como “desvairados e delirantes”, observando que os donos do poder deveriam se “prevenir para evitar iniciativas violentas e injustas de multidões desesperadas e revoltadas” como aquela.

Faleceu em 9 de março de 1996, de insuficiência respiratória, na capital gaúcha. Seu corpo foi enterrado na nave lateral da Catedral Metropolitana de Porto Alegre.

 

FONTES: BALEM, J. Bispos; CONFERÊNCIA NAC. BISPOS DO BRASIL; COUTINHO, A. Brasil; Encic. Mirador; Estado de S. Paulo (3/4 e 28/12/76, 8/2/77, 5/10 e 16/12/80, 13/5, 16/6, 24/7, 9/8, 3, 16 e 17/9, 6, 9 e 13/12/81); GARDEL, L. Armoiries; Globo (8/2/77, 2/1/80, 16/6, 24/7 e 16/9/81 e 3/1/82); Grande encic. Delta.

 

 

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