BUCHER, GIOVANNI ENRICO

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Nome: BUCHER, Giovanni Enrico
Nome Completo: BUCHER, GIOVANNI ENRICO

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
BUCHER, GIOVANNI ENRICO

BUCHER, Giovanni Enrico

*diplomata suíço; emb. Suíça no Brasil 1966-1971.

 

Giovanni Enrico Bucher nasceu em Kerns (Suíça) em 1913. Fez seus estudos nas universidades de Paris e de Zurique, onde diplomou-se em direito em 1942.

Ingressou no serviço diplomático no ano seguinte, servindo no Departamento Político do Ministério das Relações Exteriores helvético. Posteriormente foi transferido para Nova Délhi, na Índia, e mais tarde para Paris, retornando a Berna, Suíça, em 1951, onde serviu na Divisão de Assuntos Políticos. Entre 1955 e 1959 dirigiu interinamente a legação suíça em Bagdá, no Iraque, exercendo a função de encarregado de negócios. Em março deste último ano foi novamente deslocado para a Suíça, assumindo o cargo de chefe de seção no Ministério das Relações Exteriores.

Em 1961 participou das negociações secretas entre os representantes do governo francês Charles De Gaulle (1958-1969) e da Frente Nacional de Libertação (FNL) da Argélia. A seguir foi nomeado embaixador na Nigéria e em Camarões, com residência em Lagos (Nigéria), sendo removido em 1963 para a legação suíça na República do Chade. Três anos depois foi transferido, como embaixador, para o Brasil. Em outubro de 1969, no exercício de suas funções diplomáticas, intercedeu junto ao governo brasileiro em favor do universitário Jean Marc van der Weid, então presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), quando de sua prisão pelas autoridades militares, alegando a dupla nacionalidade do detido para pedir sua expatriação para a Suíça. Nessa ocasião teria criticado o governo brasileiro por não coibir a tortura de presos políticos que denunciou existir nos órgãos repressivos.

No dia 7 de dezembro do ano seguinte foi seqüestrado no Rio de Janeiro por um comando da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização surgida em 1967 da fusão dos remanescentes do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) e de um grupo dissidente da Política Operária (Polop), de origem universitária, o Comando de Libertação Nacional (Colina). O seqüestro foi realizado sob o comando de Carlos Lamarca, resultando na morte, dias depois, de um agente de segurança do embaixador, baleado ao tentar reagir. Segundo os seqüestradores, Giovanni Bucher foi escolhido devido às altas taxas de capitais suíços investidos na economia nacional e em represália à expulsão de dois exilados brasileiros da Suíça, após terem acusado o governo brasileiro de violar os direitos humanos.

Imediatamente após o seqüestro, as autoridades governamentais brasileiras desencadearam uma gigantesca operação de busca e de localização do embaixador suíço por toda a cidade, principalmente nos bairros vizinhos ao local do seqüestro. Não conseguiram, contudo, encontrar vestígios dos seqüestradores, que já se haviam escondido numa casa em Honório Gurgel, subúrbio do Rio. Os meios de comunicação censurados não divulgaram a mensagem dos seqüestradores, distribuída durante a ação, que exigia a troca do embaixador por 70 presos políticos, a gratuidade das passagens ferroviárias suburbanas até a chegada dos presos no Chile e a divulgação de quatro em quatro horas de comunicados revolucionários, enquanto durassem as negociações. As autoridades governamentais, alterando a posição adotada nos seqüestros dos embaixadores americano e alemão e do cônsul japonês, quando, rapidamente, sujeitaram-se às exigências dos seqüestradores, dessa vez retardaram a abertura das negociações, enquanto os órgãos policial-militares continuavam a tentar encontrar o local onde o embaixador estava prisioneiro.

No dia 9 de dezembro, o governo admitiu ter recebido um comunicado dos terroristas e manifestou-se disposto a salvaguardar a integridade de Giovanni Bucher, sem entretanto se submeter a todas as exigências. Fixou como limite das negociações a libertação dos 70 presos políticos dos quais pediu os nomes. Os seqüestradores divulgaram então uma lista cuja autenticidade foi negada pelo ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, apesar de ter sido acompanhada por um bilhete assinado pelo embaixador para o chanceler suíço, do qual era amigo pessoal. Durante as buscas policiais, um casal e um rapaz foram mortos em Santa Teresa, confundidos com os seqüestradores. Um terceiro comunicado dos terroristas com a lista dos presos não pôde ser divulgado pelos meios de comunicação, que já faziam prognósticos pessimistas quanto ao desfecho do caso. Para furar o bloqueio de informações, os seqüestradores enviaram a lista à agência France Presse (AFP) que a divulgou. Esse fato resultou na prisão do jornalista François Pelou, diretor dessa agência, pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e, a seguir, na sua expulsão do país. Depois disso, porém, o ministro Alfredo Buzaid precisou as condições para o reconhecimento oficial da lista com o nome dos 70 prisioneiros a serem deportados, o que levou os meios de comunicação a apontar pela primeira vez uma solução favorável para o caso. Somente no dia 21 de dezembro, o governo anunciou o recebimento da lista, vetando 13 nomes, devido à gravidade das acusações existentes contra eles ou a recusa manifestada por eles em sair do país. Nos dias seguintes aumentou em mais sete o número de nomes proibidos. Todavia, o governo aceitou substituir todos os vinte vetados por outros, em virtude de um ultimato dos seqüestradores ameaçando executar o embaixador se 70 presos não fossem libertados.

No dia 13 de janeiro de 1971, como resultado final das demoradas negociações, 70 presos políticos foram embarcados em um avião com destino ao Chile, após o governo ter condicionado sua ida à emissão de um comunicado dos seqüestradores, comprometendo-se a soltar o diplomata logo após o desembarque dos banidos em Santiago. Como uma nova operação de busca foi acionada em quase todos os bairros da cidade, os seqüestradores, alegando falta de condições de segurança, adiaram a libertação do embaixador suíço, cujo retrato chegara a ser distribuído às viaturas policiais. Diante dessa situação, o encarregado de negócios suíço protestou formalmente contra o modo como o governo brasileiro conduzia as negociações, afirmando que a operação repressiva punha em risco a vida do embaixador. Finalmente, às cinco horas da manhã do dia 16 de janeiro, Bucher foi solto nas imediações da igreja da Penha, com a orientação de seguir, primeiramente, para a casa do encarregado de negócios suíço, pois os seqüestradores temiam que grupos da “linha dura” do regime brasileiro o assassinassem, para atribuir o crime a eles. Assim, ainda na manhã daquele dia, retornou num carro do corpo diplomático da Suíça à sede da embaixada, acompanhado pelo encarregado de negócios.

Segundo Alfredo Syrkis em seu livro Os carbonários, durante os 42 dias em que permaneceu prisioneiro, Giovanni Bucher manteve relações cordiais com os terroristas, discutindo com eles os problemas econômicos, sociais e políticos do país. Chegou a reconhecer que uma forma de socialismo poderia ser a solução para o Brasil, mas repudiou o seqüestro e as formas de luta adotadas pelos terroristas por serem violentas e por não terem o apoio do povo. Nesse período de convívio com os terroristas criticou várias vezes a forma como o governo brasileiro conduziu o caso, por considerar que punha em risco a sua vida.

Ainda em 1971 foi transferido como embaixador para o Japão e para a República da Coréia, com residência em Tóquio. Em 1975 tornou-se embaixador da Suíça em Portugal, aí permanecendo até maio de 1978, quando se aposentou.

A partir do ano seguinte, instalou-se na cidade italiana de Belaggio, em companhia de dois irmãos, onde passou a se dedicar à leitura de clássicos e aos concertos da boa música. Chegou a confessar a um de seus irmãos que, de todos os países em que viveu, o Brasil era o que recordava sempre como o mais fascinante, aquele do qual falava com satisfação, principalmente por ter, indiretamente, contribuído para a libertação de 70 jovens vítimas dos cárceres da ditadura militar.

Faleceu em Bellagio no dia 21 de agosto de 1992.

 

FONTES: CORRESP. CONSUL. SUÍÇA; Estado de S. Paulo (28/8/92); Globo (29/8/92); Jornal do Brasil (14/1/79 e 29/8/92); SYRKIS, A. Carbonários; Veja (16, 23, e 30/12/70; 6,13 e 20/1/71).

 

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