CARPEAUX, OTTO MARIA

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Nome: CARPEAUX, Otto Maria
Nome Completo: CARPEAUX, OTTO MARIA

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
CARPEAUX, OTTO MARIA

Carpeaux, Otto Maria

*jornalista.

 

Otto Maria Carpeaux nasceu em Viena, Áustria, no dia 9 de março de 1900, filho do advogado Max Karpfen e de Gisela Karpfen.

Seus primeiros estudos foram feitos parte em sua cidade natal e parte na Alemanha. Em atenção a seu pai ingressou na Faculdade de Ciências Jurídicas, onde estudou história e direito romano, mas logo em seguida abandonou esse curso para formar-se em física. Redefiniu a seguir sua vocação, inclinando-se para o estudo das então chamadas “ciências do espírito”, e formou-se em filosofia e letras pela Universidade de Viena em 1925. Nessa mesma escola também obteve posteriormente o título de doutor em matemática, física e química. Paralelamente à educação curricular formal, dedicou-se a estudos de música, de história e de sociologia. O ambiente efervescente da Viena dos anos 1920, com seu multiculturalismo, sem dúvida favoreceu sua ampla e erudita formação intelectual.

Logo depois de formado, iniciou sua carreira profissional como jornalista e trabalhou em várias capitais européias, dedicando-se também aos estudos literários. Ainda na Europa, publicou cinco livros que mais tarde iria considerar superados, simples textos de juventude. Aos 30 anos casou-se com Helena, com quem viveria até o fim de seus dias.

Como jornalista empenhou-se na luta contra o nazismo, mas, em março de 1938, com o Anschluss (anexação da Áustria à Alemanha), viu-se forçado a buscar refúgio em Antuérpia, na Bélgica. Durante o exílio, encontrou abrigo e trabalho no Gaset Van Antwerpen, o principal jornal belga de língua holandesa, e recebeu insistentes convites de amigos para se instalar no Brasil, mas deles declinou reiteradamente. Estava cansado de fugir, escreveu então a Álvaro Lins. No entanto, diante da ameaça de invasão da Bélgica pelas forças alemãs, foi mais uma vez obrigado a alterar seus planos. A Segunda Guerra Mundial eclodiu, em 1939, enquanto atravessava o Atlântico, a bordo do navio Copacabana.

O exílio brasileiro fora organizado por intermédio de uma congregação católica de auxílio a refugiados de guerra, que tentou acomodá-lo em um sítio próximo a Curitiba, o que frustrou suas expectativas. Furioso, enviou a Alceu Amoroso Lima, o principal líder do laicato católico brasileiro, uma carta manifestando sua indignação. Recém-chegado ao país, sem trabalho e sem falar ou entender o português, transferiu-se para São Paulo e lá permaneceu por pouco mais de um ano. Nesse período esgotou seus recursos financeiros, passando a vender os últimos pertences que trouxera consigo. Ao mesmo tempo, com extrema determinação e por um método árduo e solitário, aplicou-se no aprendizado da língua portuguesa pela leitura da literatura brasileira. De São Paulo, escreveu a Álvaro Lins, então crítico literário do Correio da Manhã, narrando-lhe suas desventuras e pedindo trabalho no jornal carioca. Os primeiros ensaios críticos que enviou ao Correio da Manhã ainda foram manuscritos em francês e traduzidos para publicação no jornal. Logo depois fixou residência no Rio de Janeiro e se estabeleceu como colaborador permanente do Correio da Manhã. Após tantas dificuldades, finalmente deu início a uma bem-sucedida carreira de homem de letras, crítico da cultura e jornalista político.

Em 1942, San Tiago Dantas, então diretor da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, o convidou para ser diretor da biblioteca da faculdade, onde permaneceria até 1944. Ainda em 1942, já demonstrando pleno domínio do português, publicou o livro de ensaios A cinza do purgatório. Em 1944, quando se tornou cidadão brasileiro, alterando seu registro civil para adotar o nome Carpeaux, passou a dirigir a biblioteca da Fundação Getulio Vargas, onde permaneceria até 1949. Neste último ano publicou a Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira, livro que se tornaria referência obrigatória para todos os que estudam literatura no Brasil. Ao amadurecer seu estilo crítico, propôs uma nova periodização para a história literária brasileira e forneceu um enquadramento interpretativo inédito da produção ficcional nacional.

Em 1950, tornou-se redator-editorialista do Correio da Manhã e passou a responder pelo editorial político que acompanhava os “artigos de fundo” assinados por Álvaro Lins. Desde então, sua coluna “Livros na mesa” foi freqüentemente transcrita para o Diário Carioca, o Jornal do Brasil, O Jornal e O Estado de Minas. Com menor assiduidade, também colaborou nos suplementos literários de vários outros jornais do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Belo Horizonte e de Porto Alegre. No governo de Juscelino Kubitschek, convidado por Paulo Bittencourt, proprietário do Correio da Manhã, a substituir Álvaro Lins na redação do jornal, tornou-se o principal redator político do Correio da Manhã. Paralelamente a suas atividades na imprensa diária, em 1958 publicou Uma nova história da música e no ano seguinte deu início à publicação dos oito volumes de sua História da literatura ocidental. Nessa obra de fôlego, que viria a público entre 1959 e 1966, manifestou total desenvoltura em seu estilo crítico e pleno domínio do método compreensivo, característico da tradição intelectual à qual se filiava, buscando interpretar o sentido dos fenômenos da cultura e das manifestações do espírito pela historicidade de seus respectivos contextos sociais.

Oposicionista de primeira hora, suas crônicas a partir de março de 1964 não dissimulavam sua independência, revelando-o como um dos mais francos e lúcidos adversários do regime que se instalava no Brasil. O próprio Correio da Manhã tornou-se, entre 1964 e 1965, um importante veículo de denúncia das arbitrariedades cometidas pelo regime militar. Mas a represália não tardou: o jornal foi vítima de pressões econômicas e perseguição política, e vários dos seus jornalistas foram censurados. Carpeaux, um dos mais respeitados editorialistas e comentaristas da vida política brasileira, viu sua seção de política internacional ser suprimida em 1966 e ficou impedido de publicar qualquer matéria assinada no jornal. Seus artigos sobre relações internacionais foram reunidos e publicados nos volumes O Brasil no espelho do mundo (1964) e A batalha da América Latina (1965) e lhe valeram perseguição, censura e também um inquérito policial-militar, sob a alegação de que havia infringido o artigo nº 3 da Lei de Segurança Nacional, relativo à subversão da ordem pública.

Com a morte de Paulo Bittencourt em 1969, e findo o período áureo do Correio da Manhã, Carpeaux afastou-se do jornalismo diário, passando a dedicar-se, junto com Antônio Houaiss, à confecção das enciclopédias Delta Larousse e Mirador.

Morreu de infarto, no Rio de Janeiro, em 3 de fevereiro de 1978.

Até morrer, manteve intensa atividade literária e publicou vários estudos críticos e livros de ensaios, sendo reconhecido e festejado pela intelectualidade brasileira pelo humanismo com que buscou animar sua atividade crítica e sua conduta pública. Além dos livros já citados, sua obra é composta pelos títulos que se seguem: Origens e fins (1943), Respostas e perguntas e Retratos e leituras (1953), Presenças (1958), Livros na mesa e Estudos de crítica (1960), A literatura alemã (1964), Vinte e cinco anos de literatura (1968), Hemingway; tempo, vida e obra (1971), Reflexo e realidade e Alceu Amoroso Lima por Otto Maria Carpeaux (1978), e Sobre artes e letras (1992). Dela também fazem parte inúmeros artigos, prefácios e apresentações.

A bibliografia a respeito de Otto Maria Carpeaux é bastante extensa porém desigual, já que é composta de pequenos artigos para a imprensa diária, de orelhas de livros, de comentários esparsos e também de estudos críticos mais elaborados. A edição póstuma dos ensaios Sobre artes e letras, organizada por Alfredo Bosi, fornece uma lista de aproximadamente 60 referências bibliográficas sobre sua vida e obra.

Norma Côrtes

 

FONTES: ABREU, A. A. Suplementos; ANDRADE, J. Jornal; BOSI, A. Sobre; CARPEAUX, O. M. Introdução; CARPEAUX, O. M. Batalha; Grande encic. Delta; Jornal do Brasil (4/2/78); LIMA. A. A. Alceu; SODRÉ, N. História da imprensa.

 

 

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