EDMUNDO DE MACEDO SOARES E SILVA

Ajuda
Busca

Acervos
Tipo
Verbete

Detalhes

Nome: SOARES, Edmundo de Macedo
Nome Completo: EDMUNDO DE MACEDO SOARES E SILVA

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
SOARES, EDMUNDO DE MACEDO

SOARES, Edmundo de Macedo

*militar; min. Viação 1946; gov. RJ 1947-1951; pres. CNI 1964-1968; min. Ind. e Com. 1967-1969.

 

Edmundo de Macedo Soares e Silva nasceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, no dia 9 de junho de 1901, filho do médico Sebastião Edmundo Mariano da Silva e de Elisa Macedo Soares e Silva. Sua família teve atuação importante na vida política e cultural do país. Seu avô materno, Antônio Joaquim de Macedo Soares, foi magistrado, jurisconsulto, lexicógrafo e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), e seu irmão, Hélio de Macedo Soares e Silva, foi deputado federal de 1951 a 1955. Entre seus primos destacaram-se José Carlos de Macedo Soares, constituinte de 1934, ministro das Relações Exteriores de 1934 a 1937 e de 1955 a 1958, ministro da Justiça em 1937 e interventor federal em São Paulo de 1945 a 1947; José Roberto de Macedo Soares, embaixador no Uruguai entre 1945 e 1951; José Cássio de Macedo Soares, deputado federal de 1935 a 1937, e José Eduardo de Macedo Soares, jornalista, deputado federal de 1915 a 1923, constituinte de 1934 e senador pelo Rio de Janeiro de 1935 a 1937.

Fez o curso primário entre 1907 e 1911 no Colégio Ronanet e no Externato Pitanga, ambos no Rio de Janeiro. Ingressando no Colégio Militar em 1912, aí completou o curso secundário em 1917. Sentou praça no ano seguinte, tornando-se aluno da Escola Militar do Realengo, de onde saiu aspirante-a-oficial da arma de engenharia em janeiro de 1921. Serviu em seguida na 1ª Companhia Ferroviária em Deodoro e em maio de 1921, foi promovido a segundo-tenente, sendo designado instrutor do curso de engenharia da Escola Militar do Realengo.

Tomou parte na Revolta de 5 de Julho de 1922, movimento que iniciou o ciclo de revoltas tenentistas da década de 1920 e que irrompeu simultaneamente no Rio de Janeiro e em Mato Grosso em protesto contra a eleição de Artur Bernardes à presidência da República e as punições impostas pelo governo Epitácio Pessoa (1919-1922) aos militares, com o fechamento do Clube Militar e a prisão do marechal Hermes da Fonseca. A revolta envolveu a Escola Militar, o forte de Copacabana e efetivos da Vila Militar no Rio, e o contingente do Exército de Mato Grosso. Macedo Soares foi preso, mas apesar disso foi promovido a primeiro-tenente em setembro de 1922. Em março de 1925 evadiu-se do presídio da ilha Grande, embarcando logo em seguida para a Europa.

Durante os anos que passou no exílio, fez inicialmente o curso de engenharia metalúrgica no Conservatoire National des Arts et Métieres em Paris. Em 1928 ingressou na École de Chauffage Industriel e em fevereiro desse mesmo ano foi condenado à revelia a um ano e quatro meses de prisão por seu envolvimento na Revolta de 1922. No ano seguinte concluiu o curso da École Supérieure de Fonderie de Paris. Completando sua formação em metalurgia, estagiou nas usinas francesas de Choisy-le-Roi e de Chambéry e na usina Breda, na Itália.

 

De 1930 a 1945: atuação no debate siderúrgico

Com a vitória da Revolução de 1930 e a instalação do Governo Provisório de Getúlio Vargas, Macedo Soares voltou ao Brasil, beneficiado pela anistia, e ainda em novembro foi promovido a capitão.

Os revolucionários de 1930 tinham a proposta de impulsionar a utilização dos recursos nacionais para um maior desenvolvimento da indústria brasileira. A exploração das jazidas de ferro e a instalação de uma indústria siderúrgica de grande porte eram fundamentais para a intensificação do processo de industrialização e passaram a ser uma das metas do Governo Provisório. Durante os anos passados na Europa, Macedo Soares tornou-se um especialista em metalurgia, o que fez com que, ao retornar ao Brasil, fosse solicitado a participar de debates e comissões, a dar pareceres e elaborar projetos sobre o problema siderúrgico brasileiro. Já em 1930 encontrou um grande debate em torno das concessões feitas à Itabira Iron Ore Company, empresa de capital predominantemente inglês que em 1911 havia adquirido as maiores jazidas de ferro do país. Essa empresa, dispondo de técnicas e de capital e mantendo o controle acionário da Companhia Estrada de Ferro Vitória-Minas, firmou em 1920, um contrato com o governo federal pelo qual se comprometia a construir uma usina siderúrgica para a produção de aço e laminados em troca do direito de exportar grandes quantidades de minério de ferro. O projeto Itabira provocou uma grande campanha de oposição contra a exploração de riquezas naturais por grupos estrangeiros.

Em janeiro de 1931, Macedo Soares foi nomeado para integrar a Comissão Militar de Estudos Metalúrgicos, destinada a avaliar a capacidade de mobilização da indústria metalúrgica nacional, juntamente com os capitães Sílvio Raulino de Oliveira e Franklin Emílio Rodrigues. A comissão procurou estudar a solução do problema da fabricação de armamento e de munição. Ainda em 1931, trabalhando no serviço de engenharia da 2ª Região Militar (2ª RM), sediada em São Paulo, participou da organização do projeto de abastecimento de água de Quitaúna, no município de Osasco. Em agosto desse mesmo ano, tornou-se membro da Comissão Nacional de Siderurgia, criada no Ministério da Guerra pelo chefe do Governo Provisório. Essa comissão tinha a incumbência de estudar o aproveitamento dos minérios de ferro nacionais, tanto com o objetivo de promover sua exportação como o de implantar a indústria siderúrgica em larga escala no país. Ao lado de Macedo Soares, secretário e relator da comissão, encontravam-se Sílvio Raulino de Oliveira, também representante do Ministério da Guerra, Ernesto da Fonseca Costa, Eusébio Paulo de Oliveira, o capitão-tenente Raul Alvares de Azevedo Castro, representante do Ministério da Marinha, Luís Betim Pais Leme e Raul Ribeiro da Silva. Os trabalhos foram interrompidos em julho de 1932 ao eclodir a revolução paulista, sendo reiniciados somente em março de 1933.

Os estudos realizados levaram os técnicos da Comissão de Siderurgia a defender a construção de uma usina siderúrgica com capacidade de mil toneladas diárias de ferro-gusa e laminados. Indicaram entretanto as dificuldades para a instalação dessa usina no país devido à falta de um agente térmico e de redução barata. O Brasil possuía carvão mineral nos estados sulistas, mas havia problemas para a sua utilização. A comissão admitiu por isso a possibilidade de ser instalada uma usina siderúrgica no vale do rio Doce, com carvão de madeira, dadas as grandes extensões de florestas ali existentes. Outra alternativa seria a instalação de uma usina a coque importado, sendo então necessárias 1.300 toneladas de hulha coqueificável, para uma usina de mil toneladas diárias. Nesse caso era preciso exportar minério de ferro a fim de compensar o ingresso de hulha e evitar o pagamento do frete de retorno vazio. Devido às dificuldades de comercialização, essa solução não se mostrou a mais indicada, levando a comissão a sugerir que num primeiro momento se construísse uma usina para cerca de duzentas mil toneladas anuais, baseada em carvão vegetal e localizada no vale do rio Doce. Paralelamente seria necessário incrementar a exploração dos carvões de Santa Catarina, melhorar suas condições de transporte e embarque e realizar a prospecção e o estudo de outras regiões do país a fim de descobrir novas jazidas de hulha coqueificável. Em uma segunda etapa então seria possível pensar na importação da hulha.

A participação de Macedo Soares na Comissão Nacional de Siderurgia permitiu-lhe um contato maior com o problema siderúrgico brasileiro e um aprofundamento em seu estudo, o que o levaria mais tarde à defesa da construção de uma grande usina siderúrgica, tida como fundamental para o desenvolvimento nacional.

Durante o ano de 1932 foi assistente técnico da delegação brasileira à Conferência do Desarmamento, realizada em Genebra, delegado do Brasil à Conferência Internacional do Trabalho e fez um estágio na empresa Breda, em Milão, Itália, sobre o forno elétrico de aço. Também em 1932 iniciou sua carreira no magistério como professor de metalurgia da Escola de Engenharia do Exército, função que exerceria até 1943. Em 1933 deu um curso de metalurgia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Solicitado nesse mesmo ano a participar da comissão organizadora da Fábrica de Projéteis de Artilharia no bairro do Andaraí, no Rio de Janeiro, integrou também a Comissão de Estudos para a Indústria Militar Brasileira que visitou a Europa. Em outubro de 1934 foi promovido a major e em 1936 tornou-se auxiliar de ensino teórico da Escola Técnica do Exército. Em junho do ano seguinte assumiu o cargo de subchefe do Gabinete do Ministério da Justiça, na gestão de seu primo José Carlos de Macedo Soares, função que desempenhou até o advento do Estado Novo, em novembro de 1937, quando José Carlos deixou a pasta.

O período que se iniciou em 1937 trouxe a solução para as questões que envolviam a criação de uma grande usina siderúrgica no país. Até então só haviam sido construídas pequenas usinas, baseadas no carvão vegetal e com uma produção em grande parte destinada à manufatura de artigos correntes como ferramentas, cutelaria etc. A produção dessas usinas, além de pequena e cara, não satisfazia às necessidades do mercado interno, que era obrigado a adquirir os produtos importados por preços bastante elevados. Essa situação tornava-se um obstáculo para o desenvolvimento industrial nacional e, para enfrentá-la, determinados setores militares, industriais e técnicos se uniram ao novo governo com o intuito de formular as novas diretrizes da economia nacional. O interesse de alguns militares pelos problemas básicos da economia decorria de seu desejo de transformar o Brasil numa nação forte econômica e militarmente, como única forma de manter a sua independência e soberania. A siderurgia transformou-se num ponto vital para a manutenção da defesa e da segurança nacional.

Com o objetivo de encaminhar uma solução para o problema siderúrgico, em março de 1938 o presidente Vargas solicitou ao Conselho Técnico de Economia e Finanças um parecer sobre os projetos enviados ao governo acerca da criação de uma grande siderúrgica e da exportação de minério de ferro em larga escala. O conselho, sob a presidência do ministro da Fazenda Artur de Sousa Costa, preparou um relatório sobre o assunto e convidou técnicos e personalidades da vida pública, entre eles Macedo Soares, para debaterem o problema siderúrgico. As opiniões ali emitidas lançaram uma nova visão sobre o encaminhamento do problema, sendo que a exposição feita por Macedo Soares foi fundamental. Apresentou um projeto para a construção de uma usina no país, o qual mais tarde, com algumas modificações, serviu de base para a elaboração do projeto definitivo, isto é, a usina siderúrgica de Volta Redonda. Ao terminar a exposição de suas idéias, foi solicitado pelo ministro Sousa Costa a elaborar um projeto nos moldes que reivindicava, incluindo nele as dimensões da usina de acordo com as possibilidades do mercado brasileiro, os métodos de trabalho, a avaliação dos preços e do custo das matérias-primas etc.

Duas semanas mais tarde o projeto foi entregue ao ministro, que o encaminhou ao presidente Vargas com a recomendação de que o examinasse com toda a atenção. As teses propostas por Macedo Soares recomendavam, em resumo, que a exportação de minério de ferro e a construção da usina fossem tratadas separadamente, pois constituíam problemas distintos. A decisão de construir uma grande usina vinha sendo impedida devido à questão da exportação de minério, o que, segundo Macedo Soares, era um simples negócio comercial. A exportação de minério de ferro poderia ser feita em larga escala sem o menor inconveniente, tal era o volume das jazidas brasileiras. O único obstáculo era o transporte do interior do país para o litoral, o que poderia ser solucionado com a construção de uma estrada de ferro no vale do rio Doce. Mostrou-se, no entanto, contrário à construção dessa estrada pela empresa Itabira lron Ore Co., o que constituiria um atentado à economia e à soberania nacional. Quanto à instalação de uma usina, considerava que uma pequena indústria siderúrgica a carvão de madeira, localizada no vale do rio Doce, satisfaria as necessidades imediatas do país. No entanto, se o governo desejasse desenvolver os transportes ferroviários, rodoviários, as indústrias mecânicas e a construção naval mediante um plano de grandes realizações, seria necessário aparelhar uma grande usina que produzisse cerca de trezentas mil toneladas de aço por ano, sob a forma de laminados, peças forjadas e aços finos. Essa siderúrgica deveria ser instalada na costa, no Rio de Janeiro, de modo a facilitar a importação de hulha do Sul do Brasil e do exterior. As aquisições no estrangeiro para a montagem inicial orçariam em torno de um milhão e setecentas libras ou 150 mil contos de réis, a serem despendidos em quatro anos. Em funcionamento, a usina gastaria anualmente no estrangeiro 410 mil libras-ouro. Para sua construção, Macedo Soares sugeriu a aliança do capital nacional ao estrangeiro.

O presidente da República encaminhou o problema siderúrgico ao Conselho Federal de Comércio Exterior e enviou Macedo Soares à Europa a fim de que ele avaliasse a possibilidade de o minério de ferro brasileiro ser colocado nos mercados europeus. Também deveria informar-se acerca dos novos processos de obtenção de aço e da viabilidade de financiamentos para a usina siderúrgica. De sua missão na Europa depreendeu que os países que visitara não tinham interesse em aplicar capitais no Brasil, uma vez que se encontravam próximos de uma nova guerra, que de fato viria a eclodir em setembro de 1939. Constatou por outro lado que apenas os mercados ingleses aceitariam o minério de ferro brasileiro. Ao terminar sua viagem, recebeu ordens de seguir para os Estados Unidos e aí continuar as conversações com a empresa United States Steel, iniciadas por Osvaldo Aranha, então ministro das Relações Exteriores.

Em junho de 1939 a United States Steel enviou seus técnicos ao Brasil para estudar a viabilidade de construção de uma grande usina a coque, com capital misto. Constituiu-se então uma comissão conjunta de técnicos brasileiros e norte-americanos, composta por Macedo Soares, Plínio Cantanhede, João Batista da Costa Pinto, Joaquim Arrojado Lisboa e mais sete técnicos norte-americanos. Os trabalhos se iniciaram ainda em junho de 1939 e as conclusões expressas no relatório conjunto de 20 de outubro do mesmo ano rejeitavam o aproveitamento do projeto da Itabira Iron Ore Co. e indicavam que a usina siderúrgica a ser construída deveria ter capacidade inicial de 285 mil toneladas anuais. Projetada para utilizar coque, produziria trilhos e acessórios, perfis, ferros redondos e chatos, chapas, folhas-de-flandres e ferro-gusa. O relatório recomendava ainda que a usina se localizasse perto do Rio de Janeiro, nas proximidades de Santa Cruz, e que fosse servida pela Estrada de Ferro Central do Brasil. Quanto ao carvão a ser utilizado, a comissão concluiu que o de Santa Catarina era coqueificável, podendo ser misturado com o carvão importado até o momento em que fosse possível utilizar somente o carvão nacional.

Em seguida o governo criou a Comissão Preparatória do Plano Siderúrgico e, para integrá-la, o ministro da Viação e Obras Públicas, João de Mendonça Lima, designou os técnicos brasileiros da comissão conjunta. Coube a Macedo Soares presidir a nova comissão, cuja preocupação principal era conciliar os interesses dos grupos internos envolvidos na questão metalúrgica com a criação da usina pela United States Steel. Entretanto, apesar da direção da United States Steel ter aprovado o plano técnico da usina, seu departamento financeiro não recomendou o empreendimento. A 16 de janeiro de 1940 o presidente Vargas foi informado do desinteresse da empresa norte-americana em participar da construção da usina no Brasil, por não desejar estender sua atividade para fora do país.

Após essa recusa, Vargas decidiu dar um rumo definitivo ao problema: a grande usina deveria ser construída por uma empresa nacional com a ajuda de capitais estrangeiros, mas sob a forma de empréstimos. Convocou Macedo Soares e o industrial Guilherme Guinle a traçarem os primeiros esboços para a construção da usina siderúrgica brasileira. Em fevereiro de 1940 o presidente recebeu o resultado desse trabalho, do qual constavam o orçamento, as normas gerais para a organização da usina e as recomendações para a elaboração dos estatutos da nova empresa. Em 4 de março Vargas assinou o decreto-lei que criava a Comissão Executiva do Plano Siderúrgico Nacional com a incumbência de “realizar os estudos finais para a construção de uma usina siderúrgica e de organizar uma companhia nacional para a construção e exploração da usina”. No dia seguinte Macedo Soares foi promovido a tenente-coronel e, no dia 7 do mesmo mês, foi designado pelo presidente para integrar a subcomissão de siderurgia da Comissão Executiva do Plano Siderúrgico Nacional. Em seus trabalhos, a nova comissão admitiu que a produção média da usina seria de trezentas mil toneladas anuais de perfis médios e pesados, trilhos, billets (barras), chapas e folhas-de-flandres. Com relação ao carvão, ficou igualmente estabelecido que a usina funcionaria num primeiro momento com coque obtido da mistura do carvão importado com o de Santa Catarina. Quanto à sua localização, depois de estudadas várias regiões, a comissão deu preferência ao trecho compreendido entre Barra do Piraí e Barra Mansa, no vale do Paraíba, no estado do Rio de Janeiro, sendo escolhida a localidade de Volta Redonda, situada a nove quilômetros de Barra Mansa.

Paralelamente o presidente Vargas iniciou entendimentos junto ao governo norte-americano e ao Export Import Bank (Eximbank) para obter empréstimos financeiros, mas as negociações foram retardadas, pois os Estados Unidos esperavam que o Brasil se definisse ao lado dos países aliados no conflito mundial que se desenrolava. Macedo Soares foi então enviado aos Estados Unidos, juntamente com Guilherme Guinle e Ari Torres, para negociar diretamente com o Eximbank, no que foram bem-sucedidos, obtendo um empréstimo de vinte milhões de dólares.

A 9 de abril de 1941 foi criada a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em Volta Redonda. Nomeado diretor-técnico da nova companhia na assembléia de sua constituição, Macedo Soares acompanhou todas as etapas de construção da usina até junho de 1946, quando entraria em funcionamento. Ao mesmo tempo ocupou diversos cargos ligados ao setor metalúrgico. Em 1942 tornou-se assistente (encarregado do setor de carvão) do coordenador da Mobilização Econômica, órgão criado nesse mesmo ano com o objetivo de assegurar, por parte do Estado, a defesa da economia brasileira diante dos problemas causados pela Segunda Guerra Mundial. Também em 1942 passou a integrar o conselho consultivo da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira e tornou-se presidente do Sindicato Nacional da indústria de Extração de Carvão. Em dezembro de 1944 foi promovido ao posto de coronel.

 

No Ministério da Viação e Obras Públicas

No início do ano de 1945, quando se intensificava a luta pela redemocratização, Vargas tomou as primeiras medidas para que o país voltasse à normalidade. Em 28 de fevereiro promulgou o Ato Adicional, que, por meio de emenda à Constituição de 1937, determinava a realização de eleições para a presidência da República, para o Congresso Federal, e para governos e assembléias legislativas estaduais. Ainda nesse mesmo mês foi lançada a candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes à presidência da República pelos opositores do regime estado-novista e em março foi lançado o nome do ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, apoiado pelas forças favoráveis a Getúlio Vargas. Nessa conjuntura, Macedo Soares foi nomeado membro da Comissão de Planejamento Econômico do Conselho de Segurança Nacional.

Em 29 de outubro de 1945 Vargas foi deposto por um golpe militar liderado pelo general Pedro Aurélio de Góis Monteiro, que substituía Dutra no ministério da Guerra.

Realizadas as eleições em dezembro de 1945, a vitória coube ao general Eurico Dutra, que nomeou Macedo Soares ministro da Viação e Obras Públicas. Sucedendo a Maurício Joppert, Macedo Soares assumiu o cargo no início do governo Dutra, em janeiro de 1946, e procurou estabelecer um programa geral de atividades a serem cumpridas pelo órgão. Nomeou uma comissão para rever o Plano Geral de Viação e iniciou as negociações para a encampação da estrada de ferro São Paulo Railway, depois denominada Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. Em sua gestão foram feitos estudos para a adaptação da Fábrica Nacional de Motores (FNM), criada durante a guerra para produzir e reparar aviões, a fim de que fosse revertida em uma indústria de paz. Em colaboração com o Ministério do Trabalho, dedicou ainda especial atenção ao funcionalismo, procurando reajustar os vencimentos dos portuários e ferroviários e reestruturar os níveis dos funcionários de seu ministério.

 

No governo do estado do Rio

Em outubro de 1946 Macedo Soares passou a pasta para Clóvis Pestana, a fim de lançar sua candidatura ao governo do estado do Rio de Janeiro na legenda da coligação formada pelo Partido Social Democrático (PSD), o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e a União Democrática Nacional (UDN). Foi eleito em janeiro de 1947 com 250.350 votos para um eleitorado votante de 280.384, vencendo os candidatos Artur Lontra Costa, lançado pela Esquerda Democrática, e João de Macedo Pereira, inscrito na legenda do Partido Social Progressista (PSP). Tomou posse no mês seguinte, sucedendo ao interventor Álvaro Rocha Pereira da Silva.

Já no início de sua administração enfrentou a falta de recursos financeiros e o déficit orçamentário, passando a promover rigorosa compressão nas despesas e a aperfeiçoar o sistema arrecadador de taxas e impostos. Durante seu governo ampliou a rede escolar primária, duplicando o número de salas de aula, e ainda em 1947, como forma de agilizar o problema da educação, desdobrou a Secretaria de Educação e Saúde, criando a de Educação e Cultura. Modernizou e ampliou a rede hospitalar do estado, deu ênfase à construção e à conservação de rodovias, abrindo ao tráfego 63km de estradas, e fez a dragagem do porto de Niterói. Construiu ainda duas usinas termelétricas — a de Japuíba, no município de Cachoeiras de Macacu, e outra em Angra dos Reis — e ampliou o sistema de abastecimento de água do estado. Outro problema que recebeu atenção de seu governo foi o da utilização das terras fluminenses, através do estabelecimento de diretrizes para o incremento da produção agropecuária.

 

De volta à questão siderúrgica

O término de seu mandato, em 31 de janeiro de 1951, coincidiu com a volta de Getúlio Vargas à presidência da República, para a qual havia sido eleito em outubro do ano anterior. Substituído no governo fluminense por Ernâni Amaral Peixoto, também eleito em outubro de 1950, foi designado em seguida para o quadro permanente da Escola Superior de Guerra (ESG). Ao mesmo tempo recebeu a incumbência de estudar a reorganização da Companhia Aços Especiais Itabira (Acesita).

Em abril de 1952 foi promovido a general-de-brigada, passando em seguida para a reserva. Nesse mesmo ano, o grupo alemão Mannesmann iniciou negociações para construir uma usina siderúrgica no Brasil. O assunto foi levado pelo engenheiro de minas Glycon de Paiva, então integrante da Assessoria Econômica da Presidência da República, ao Conselho Nacional de Minas e Metalurgia, órgão do Ministério da Viação e Obras Públicas. A empresa, que pretendia fabricar principalmente tubos sem costura, deveria ser organizada com capitais alemães e brasileiros. Como membro do Conselho Nacional de Minas e Metalurgia, Macedo Soares foi favorável ao projeto e recomendou que a instalação da usina fosse em Belo Horizonte, onde havia abundância de energia, o que efetivamente ocorreu.

Devido a seu interesse pelos problemas metalúrgicos, em 1953 foi convidado a integrar o corpo docente da Escola Politécnica da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, como professor de metalurgia. No ano seguinte, enquanto presidente executivo da Comissão de Desenvolvimento Industrial, foi convidado pela Organização das Nações Unidas (ONU) a dar seu parecer sobre a construção de uma usina siderúrgica na Venezuela.

Ainda em 1954 uma grave crise política levou o presidente Vargas ao suicídio em agosto, assumindo seu lugar o vice-presidente João Café Filho. Macedo Soares, então presidente da Acesita, foi convidado pelo general Juarez Távora, chefe do Gabinete Militar do novo governo, a ocupar a presidência da CSN. Assumindo o cargo, empenhou-se em obter novos financiamentos nos Estados Unidos para ampliar a usina, pois o rápido desenvolvimento industrial brasileiro exigia cada vez maior produção de aço. Em 1955 foi aos Estados Unidos com o objetivo de obter um crédito da ordem de 35 milhões de dólares, que só foi concedido em junho do ano seguinte, permitindo então um considerável aumento na produção de aço e laminados. Em 1959 foi eleito para a presidência do conselho consultivo da Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa), a qual viria a dirigir, e ainda nesse ano foi escolhido primeiro presidente do Instituto Latino-Americano do Ferro e do Aço.

Ao deixar a presidência da CSN em 1960, passou a lecionar na Escola Politécnica de São Paulo. Em outubro desse mesmo ano tornou-se vice-presidente da empresa Mercedes-Benz do Brasil e, a partir de 1961, acumulou essas funções com a de membro do conselho consultivo da Comissão do Plano do Carvão, que deixaria em 1967. Em 1963 foi eleito vice-presidente da primeira diretoria do Instituto Brasileiro de Siderurgia, sociedade civil criada no mesmo ano com o objetivo de participar do planejamento e ampliar os conhecimentos na área siderúrgica. Apoiou o movimento político-militar de março de 1964 que depôs o presidente João Goulart (1961-1964) e levou ao poder o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco (1964-1967). Em dezembro desse ano foi eleito vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), cargo para o qual seria reeleito em 1966. Ainda em 1964 tornou-se presidente da diretoria do Instituto Brasileiro de Siderurgia.

O governo Castelo Branco, na tentativa de resolver os problemas que afetavam o parque siderúrgico brasileiro, entregou em 1966 o estudo do assunto à firma Booz, Allen & Hamilton, por acordo do Banco Mundial com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE). Macedo Soares foi encarregado pelo presidente da República de acompanhar os trabalhos desenvolvidos pela empresa norte-americana, que tinha a orientação do ministro do Planejamento Roberto Campos. As recomendações apresentadas por essa equipe foram implementadas pelo sucessor de Castelo Branco, o general Artur da Costa e Silva, que assumiu a presidência da República em março de 1967.

 

No Ministério da Indústria e Comércio

Durante a composição do novo ministério, Macedo Soares foi convidado a ocupar a pasta da Indústria e Comércio, que assumiu ainda em março de 1967, sucedendo a Paulo Egídio Martins. Em sua gestão deu ênfase ao encaminhamento do problema siderúrgico, criando o Grupo Consultivo da Indústria Siderúrgica, encarregado de sugerir um programa para a expansão dessa indústria. Presidido por Macedo Soares, o grupo reunia representantes do Ministério do Planejamento e presidentes do BNDE, do Banco do Brasil, da CSN, da Companhia Vale do Rio Doce e do Plano do Carvão Nacional. De seus trabalhos resultou um plano siderúrgico que visava modernizar e aumentar a produção de laminados das usinas estatais, de acordo com o aumento do mercado brasileiro. Para a implantação desse plano e para obedecer aos princípios que norteavam a administração de grandes usinas, toda a política siderúrgica foi enfeixada no Conselho Consultivo da Siderurgia (Consider), criado em março de 1968 e presidido pelo ministro da Indústria e Comércio. O Plano Siderúrgico Nacional recomendou também a organização de uma holding das empresas governamentais, que seria denominada Brassider, com a função de fazer executar, como órgão de cúpula, as decisões do Consider e de obter e distribuir os financiamentos destinados à expansão e à criação de usinas. Essa holding só seria criada em 1973, com a denominação de Siderbrás.

No exercício de seu cargo, procurou ainda incentivar a indústria do café solúvel, aprovando normas e dando prioridade de financiamento aos projetos localizados em zonas cafeeiras. Em maio de 1968 acertou com o presidente Costa e Silva os termos da venda da FNM à empresa italiana Alfa Romeo. Essa decisão provocou muitas críticas e foi considerada um indicador de desnacionalização da indústria brasileira, acusação que vinha sendo dirigida aos governos oriundos do movimento de 1964. Ainda em maio, Macedo Soares foi convidado a prestar depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que se dedicava a estudar o problema da desnacionalização das empresas. Nessa ocasião declarou que não havia qualquer indício que comprovasse a desnacionalização global, embora reconhecesse que havia problemas setoriais. Afirmou que existiam dificuldades de crédito devido à inflação e que o primordial não era impedir a entrada de capitais estrangeiros, mas sim intensificar as soluções de política econômica interna. Declarou ainda que, apesar de o município de Duque de Caxias (RJ), onde se situava a fábrica, ser área de segurança nacional, a venda da FNM a grupos estrangeiros não feria o preceito constitucional de garantir a predominância de empresas estatais nessas áreas. Voltou a depor nessa CPI em agosto de 1968, quando afirmou que as fábricas de veículos automotores não podiam se manter sem a associação com capitais estrangeiros, justificando assim a venda da FNM.

Para Macedo Soares, o desenvolvimento brasileiro e a sobrevivência da indústria nacional dependiam da incorporação ao mercado de produtos industriais de cerca de 90% da população que ainda estavam marginalizados e que não produziam, não vendiam e nem compravam. Considerava também indispensável que os empresários desenvolvessem um processo contínuo de expansão para fortalecer sua capacidade de modernização. Na qualidade de ministro de Estado, foi um dos signatários do Ato Institucional nº 5, editado em 13 de dezembro de 1968, que inaugurou um ciclo de grande cerceamento das liberdades públicas e da atividade política, coroando um período de aguçamento de conflitos entre diversos grupos da sociedade e o regime instituído em 1964.

Com o objetivo de estimular a iniciativa privada, em agosto de 1969 assinou um decreto consolidando a legislação de incentivos fiscais para a importação de máquinas e equipamentos. O decreto previa um crescimento do produto industrial na base de 7% a 8% ao ano, substituía a antiga Comissão de Desenvolvimento Industrial (CDI) por um conselho e reestruturava toda forma de atuação dos grupos executivos que promoviam projetos industriais. Com esse decreto o governo objetivava acelerar a taxa de crescimento do emprego da mão-de-obra, defender a tecnologia nacional e absorver tecnologia do exterior, e implantar novos setores de produção e uma tecnologia mais avançada.

Em 26 de agosto de 1969 o presidente Costa e Silva foi acometido de uma trombose cerebral. Os ministros militares que assumiram a presidência no dia 31 indicaram como sucessor o general Emílio Garrastazu Médici, que tomou posse em 30 de outubro. Nesse mesmo dia Macedo Soares deixou o Ministério da Indústria e Comércio, sendo substituído por Fábio Yassuda. Ao deixar o cargo, passou a se dedicar à empresa privada. De outubro de 1969 a dezembro de 1970 dirigiu a Mercedes-Benz do Brasil e em 1972 assumiu a presidência dos conselhos consultivos da Companhia Siderúrgica Mannesmann e da empresa M. Dedini Metalurgia. Neste último ano integrou ainda o conselho consultivo da III Conferência Nacional das Classes Produtoras, realizada no Rio de Janeiro. Foi também diretor-presidente da Parmet — Participações Metalúrgicas, presidente da Rheem Metalurgia, membro dos conselhos consultivos da APEC Editora e da Standard Electric e responsável pela reorganização da fábrica de alumínio Rochedo. Na década de 1980, dirigiu a Polimetal.

Integrou os quadros do Conselho Consultivo do Planejamento (Consplan), do Clube de Engenharia e do conselho de administração da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV). Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e membro honorário da Academia Fluminense de Letras e da Associação Brasileira de Metais de São Paulo, filiou-se ainda à American Association of Mining, Metallurgical and Petroleum Engineers de Nova Iorque, à Academia Brasileira de Finanças e à Association of Iron and Steel Engineers de Pittsburgh, nos Estados Unidos. Obteve os títulos de doutor honoris causa pela Escola de Minas de Ouro Preto e pela Escola de Engenharia da Universidade de São Paulo e foi sócio-honorário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Faleceu no Rio de Janeiro no dia 9 de agosto de 1989.

Foi casado em primeiras núpcias com Maria José Muniz de Macedo Soares e Silva, com quem teve uma filha. Após a morte de sua esposa em 1937, casou-se com Alcina Fonseca de Macedo Soares e Silva, com quem teve três filhos.

Publicou, além de conferências e de diversos artigos para jornais e revistas sobre metalurgia, economia, engenharia e problemas brasileiros, La viscosité de l’aluminium des alliages légers et du nickel (em colaboração com Jean Gournot, 1927), Memória para a organização de uma usina siderúrgica no Brasil (1940), Falando aos fluminenses (1948), Discurso aos fluminenses (1960), O momento e a missão da indústria (1964), A engenharia e o desenvolvimento industrial (1965), O ferro na história e na economia do Brasil (1972), As instituições de indústria e comércio no Brasil (1972) e Um construtor do nosso tempo: depoimento ao Cpdoc (1998).

O arquivo de Edmundo de Macedo Soares encontra-se depositado no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (Cpdoc) da FGV.

Alzira Alves de Abreu

 

FONTES: ABREU, A. Siderurgia; ARQ. GETÚLIO VARGAS: ARQ. NAC. Relação; CARONE, E. Terceira; COMIS. ESTUDO CAPACIDADE IND. MIL. METALURGIA NAC. Relatório; CONF. NAC. COMÉRCIO. 20; CONF. NAC. IND.; CONFERÊNCIA NAC. CLASSES PRODUTORAS. Carta; CONSULT. MAGALHÃES, B.; CORRESP. CONF. NAC. COMÉRCIO; CORRESP. GOV. EST. RJ; CORRESP. MIN. IND. COMÉRCIO; COUTINHO, A. Brasil; Encic. Mirador; Estado de S. Paulo (11/8/89); FICHÁRIO PESQ. M. AMORIM; Folha de S. Paulo (28/8/77); Globo (11/8/89); Grande encic. Delta; HIRSCHOWICZ, E. Contemporâneos; Jornal do Brasil (7/11/75, 7/7/76, 13/3/77 e 11/8/89); LACOMBE, L. Chefes; LEITE, A. Páginas; MAGALHÃES, I. Segundo; MIN. VIAÇÃO. Dados; MORAIS, A. Introdução; Opinião (13/12/74); RIBEIRO FILHO, J. Dic.; Siderurgia, Rio (9/71); SILVA, H. 1922; SOARES, E. Ferro; SOARES, E. Instituições; SOARES, E. Introdução; Súmulas; Veja (16/8/89); Who’s who in Brazil.

 

 

Para enviar uma colaboração ou guardar este conteúdo em suas pesquisas clique aqui para fazer o login.

CPDOC | FGV • Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil
Praia de Botafogo, 190, Rio de Janeiro - RJ - 22253-900 • Tels. (21) 3799.5676 / 3799.5677
Horário da sala de consulta: de segunda a sexta, de 9h às 16h30
© Copyright Fundação Getulio Vargas 2009. Todos os direitos reservados