FARIAS, PAULO CESAR

Ajuda
Busca

Acervos
Tipo
Verbete

Detalhes

Nome: FARIAS, Paulo César
Nome Completo: FARIAS, PAULO CESAR

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
FARIAS, PAULO CÉSAR

FARIAS, Paulo César

*empresário.

 

Paulo César Farias nasceu no estado de Alagoas em 1946, filho de Gilberto Lopes Farias e Joselita Holanda Cavalcanti Farias. Era o mais velho de oito irmãos, entre os quais Luís Romero Farias, que foi secretário-executivo do Ministério da Saúde durante o governo de Fernando Collor de Melo (1990-1992), e Augusto Farias, deputado federal por Alagoas a partir de 1991.

Estudou no Seminário Metropolitano de Maceió e no Colégio Estadual de Alagoas. Deu aulas de latim e francês e trabalhou como locutor da Rádio Palmares, vinculada à Igreja Católica.

Estudava direito em Maceió quando se tornou secretário particular de Antônio Lamenha Filho, governador de Alagoas de 1966 a 1971. Trabalhou como vendedor de linhas telefônicas e de carros usados. Possuiu também plantações de coco e um posto de gasolina, o que lhe rendeu o apelido de “Paulinho Gasolina”. Na década de 1980, firmou-se como grande distribuidor de tratores e implementos agrícolas e tornou-se proprietário das empresas Planal — Planejamento e Assessoria de Alagoas e Terral — Terraplenagem de Alagoas. As duas seriam fundidas em 1986 para formar a EPC — Empresa de Participações e Construções. Devido a suas atividades comerciais, Paulo César Farias viajou por muitos países.

Através do usineiro e político alagoano João Lira, com quem trabalhava, conheceu Fernando Collor de Melo, então candidato ao governo de Alagoas, tornando-se responsável pela parte financeira de sua campanha. Nesta época, já era conhecido pelo apelido de PC. Com a vitória de Collor, não ocupou cargos no governo alagoano, mas, segundo afirma Pedro Collor, no livro Passando a limpo — a trajetória de um farsante, teria participado de transações financeiras irregulares do governador, já empenhado em constituir um fundo para a sua campanha à sucessão do presidente José Sarney (1986-1990).

P.C. Farias foi tesoureiro da campanha de Fernando Collor para a presidência da República. Candidato do Partido de Reconstrução Nacional (PRN), Collor venceu a eleição no segundo turno, em 17 de dezembro, numa disputa com o candidato do PT, Luís Inácio Lula da Silva, e PC teve participação expressiva na organização de sua campanha. Segundo revelou em entrevista à revista Veja, na edição de 3 de julho de 1996, na disputa eleitoral teria sido testemunha do pânico que o candidato do PT causava ao empresariado, que procurava seu escritório em São Paulo para fazer doações para a campanha de Collor no valor de muitos milhares de dólares. Ainda segundo sua entrevista, uma das maiores contribuições motivadas pelo medo teria sido feita pelo banqueiro Joseph Safra, no valor de dois milhões de dólares em letras de câmbio, posteriormente negociadas no exterior.

Eleito Collor, P. C. Farias mais uma vez não assumiu qualquer cargo no novo governo, empossado em 15 de março de 1990. Permaneceu atuando nos bastidores até setembro de 1991, quando anunciou o lançamento de um jornal em Alagoas, em sociedade com Fernando Collor. Pedro Collor, irmão do presidente e diretor do jornal da família, Gazeta de Alagoas, sentindo-se ameaçado pela concorrência, acusou P. C. Farias publicamente de enriquecimento ilícito e evasão de divisas. A partir de então, PC foi alvo de ampla investigação policial. Em abril, a Receita Federal concluiu que uma de suas empresas, a Brasil Jet, praticara sonegação fiscal. No mês seguinte, Pedro Collor voltou à carga, relacionando PC ao presidente, de quem seria sócio e testa-de-ferro numa rede de negócios ilícitos e em tráfico de influência.

Em conseqüência das denúncias, a Câmara dos Deputados instituiu uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para apurar as atividades de PC junto ao governo. A CPI do caso PC, como ficou conhecida, inovou os métodos de combate à corrupção no Brasil. Pela primeira vez foi utilizada a quebra do sigilo bancário de suspeitos, o que permitiu a descoberta de uma rede de contas bancárias em nomes fictícios, alimentada por grandes empresas interessadas em favores do governo federal. Segundo a Polícia Federal, os “cheques-fantasmas” movimentados pela rede somariam cem milhões de dólares.

Essas evidências comprometeram o presidente, levando a CPI, em agosto, a acusá-lo de se beneficiar dos atos de corrupção. Em fins do mês seguinte, depois de um amplo processo de mobilização da opinião pública contra a corrupção e pelo afastamento do presidente, a Câmara dos Deputados autorizou a abertura do processo de impeachment de Collor, solicitado formalmente por um grupo de juristas e advogados. Substituído provisoriamente pelo vice Itamar Franco, Collor renunciou ao cargo em 29 de dezembro de 1992, quando ficou claro que seu impeachment seria aprovado poucas horas mais tarde pelo Senado.

Um dia depois, PC e outros denunciados por corrupção tiveram sua prisão preventiva solicitada pela Procuradoria Geral da República, mas o Superior Tribunal Federal (STF) indeferiu o pedido, por entender que os acusados não perturbavam o andamento do processo. Em abril de 1993, novo pedido teve igual resposta. Mas, em 30 de junho, a Justiça Federal de Brasília expediu um mandado de prisão preventiva contra P. C. Farias e outros acusados, entre os quais seu sócio Jorge Bandeira de Melo, por sonegação de impostos na empresa Brasil Jet.

Na véspera, porém, aproveitando a ausência de vigilância policial, PC fugiu com Jorge Bandeira. Os dois seguiram por terra para uma fazenda na divisa da Bahia com Pernambuco, onde permaneceram por duas semanas, enquanto providenciavam a saída do país. Usando serviços de contrabandistas paraguaios, foram para Assunção e de lá para a Argentina, onde ingressaram com seus nomes verdadeiros e não foram molestados pela polícia, desinformada quanto à sua condição de fugitivos. Três meses depois, PC viajou para a Inglaterra, onde chegou a ser entrevistado por uma emissora de televisão brasileira. O governo do Brasil solicitou sua extradição, mas a inexistência de acordo nesse sentido entre os dois países impediu que a medida fosse tomada.

Depois de quase quatro meses foragido, PC foi preso na Tailândia em 29 de novembro de 1993, por estar com seu passaporte vencido. Deportado para o Brasil, foi condenado, no dia 7 de janeiro de 1994, a quatro anos de prisão por crime de sonegação fiscal. Enquanto cumpria pena, em março de 1994 a polícia italiana encontrou seu nome como titular de contas bancárias na Holanda movimentadas pela Máfia para lavagem de dinheiro obtido ilegalmente. No mês seguinte, a Justiça federal decretou o seqüestro de seus bens. Em julho, sua esposa, Elma Farias, com quem teve dois filhos, morreu aos 44 anos, vitimada por um infarto.

Paulo César Farias cumpriu pena de dezembro de 1994 a dezembro de 1995 no Corpo de Bombeiros de Alagoas, onde distribuía dinheiro para os carcereiros e chegou a doar um jet-ski ao Grupamento de Busca e Salvamento da corporação. Neste ínterim, conheceu Susana Marcolino da Silva, que o visitou na cadeia, levada por uma funcionária da Tratoral, empresa de sua propriedade. O relacionamento amoroso aí surgido continuaria após a passagem de PC ao regime de prisão aberta, concedida em junho de 1995, sob a condição de que ele prestasse assistência jurídica a presos comuns na Secretaria de Justiça de Alagoas.

Em 28 de dezembro de 1995, o STF acolheu tese da defesa de PC, segundo a qual o dinheiro por ele recebido era destinado a campanhas eleitorais, prática que então não era passível de punição penal. Como sua pena era por falsidade ideológica e sonegação fiscal e não por corrupção, o Supremo concedeu-lhe liberdade condicional, pois, dos sete anos a que tinha sido condenado, dois já haviam sido cumpridos. O STF manteve, na ocasião, para PC a obrigação de seguir prestando serviços de assistência jurídica a presos.

Em liberdade, PC retomou as atividades de empresário no comércio de automóveis, que lhe valiam, segundo declarou à revista IstoÉ de 17 de abril de 1996, cerca de cem mil reais mensais, dos quais, ainda segundo a mesma entrevista, gastava de 15 mil a 20 mil com a educação de seus filhos na Suíça. Voltou, também, a investir na Tribuna de Alagoas, mantendo o propósito de concorrer com a Gazeta de Alagoas, o maior jornal do estado.

Na época em que acertava os detalhes do lançamento da candidatura de seu irmão Augusto à prefeitura de Maceió, Paulo César Farias foi assassinado. Seu corpo foi encontrado no dia 23 de junho de 1996, juntamente com o de Susana Marcolino, ambos baleados, em sua casa na praia de Guaxuma, no litoral norte de Maceió. Imediatamente, sua família e a polícia de Alagoas informaram que Susana, movida por uma crise de ciúme, o assassinara, matando-se em seguida. Essa versão foi confirmada no dia 9 de agosto por um laudo de peritos de São Paulo que analisaram o caso. Mais tarde, outras hipóteses levantadas por outros legistas para explicar o crime reabriram as investigações. Augusto Farias, seu irmão foi incluído na lista dos suspeitos devido às contradições em suas declarações sobre as circunstâncias nas quais os corpos foram encontrados, à destruição de objetos da cena do crime, que poderiam transformar-se em provas, e também à sua tentativa de impedir a exumação do corpo para a realização de exames técnicos que ajudariam na elucidação das mortes.

Renato Lemos

 

 

FONTES: Enciclopédia Mirador (1993-1997); IstoÉ (17/4 e 3/7/96, 9 e 19/3/97); MELO, P. & KRAMER, D. Passando; Veja (7/7/93, 3/1, 26/6, 3 e 10/7 e 14/8/96, 19/3 e 21/5/97).

 

Para enviar uma colaboração ou guardar este conteúdo em suas pesquisas clique aqui para fazer o login.

CPDOC | FGV • Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil
Praia de Botafogo, 190, Rio de Janeiro - RJ - 22253-900 • Tels. (21) 3799.5676 / 3799.5677
Horário da sala de consulta: de segunda a sexta, de 9h às 16h30
© Copyright Fundação Getulio Vargas 2009. Todos os direitos reservados