FRANCISCO DE ASSIS CHATEAUBRIAND BANDEIRA DE MELO

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Nome: CHATEAUBRIAND, Assis
Nome Completo: FRANCISCO DE ASSIS CHATEAUBRIAND BANDEIRA DE MELO

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
CHATEAUBRIAND, ASSIS

CHATEAUBRIAND, Assis

*jornalista; rev. 1930; rev. 1932; sen. PB 1952-1955; sen. MA 1955-1957; emb. Bras. Inglaterra 1957-1960.

 

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo nasceu em Umbuzeiro (PB) no dia 5 de outubro de 1892, filho de Francisco Chateaubriand Bandeira de Melo e de Carmem Gondim Bandeira de Melo. Seu pai, bacharel em direito, foi funcionário da alfândega. Embora de poucos recursos financeiros, pertencia a tradicional família de senhores de engenho do Nordeste, que remontava ao período da dominação holandesa.

Fez seus primeiros estudos em Campina Grande (PB) e na cidade da Paraíba, hoje João Pessoa, mudando-se, a seguir, para Recife, onde cursou o secundário no Colégio Pernambucano. Em 1906, aos 14 anos, teve sua primeira experiência jornalística escrevendo para O Pernambuco, jornal de propriedade de Pedro Avelino. Ingressou na Faculdade de Direito de Recife em 1908 e, para custear seus estudos, tornou-se redator do Jornal Pequeno (1910-1915), onde escreveu vários artigos criticando o germanismo da Escola de Recife, movimento cultural liderado por Tobias Barreto que pretendia promover a cultura nacional e tinha fortes influências das novas correntes do pensamento europeu. Ainda estudante trabalhou no Jornal de Recife e no Diário de Pernambuco, órgão do Partido Republicano Conservador (PRC) em Recife, no qual foi redator auxiliar, escrevendo artigos sobre política nacional e internacional. Bacharelou-se em 1913, mas continuou a exercer o jornalismo, tornando-se editor e redator-chefe do jornal Estado de Pernambuco.

Em dezembro de 1915 foi aprovado no concurso da Faculdade de Direito de Recife para a cátedra de professor de direito romano e de filosofia do direito, tendo apresentado na ocasião duas dissertações: O conceito de direito e O Interdicto ut possidetis. Viajou depois para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, para tentar obter uma nomeação naquela cidade junto ao presidente Venceslau Brás, fazendo na ocasião seus primeiros contatos com figuras destacadas do mundo político e jornalístico da capital da República. Em 1917 transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde se estabeleceu como advogado, tornando-se a seguir consultor jurídico do Ministério das Relações Exteriores a convite do então chanceler Nilo Peçanha, e advogado da Companhia Light and Power, a partir de uma indicação de Alexandre Mackenzie. No entanto, não perdeu o contato com as atividades jornalísticas, colaborando como comentarista de política internacional no Correio da Manhã e sendo mais tarde convidado por Ernesto Pereira Carneiro para redator-chefe do Jornal do Brasil. Nessa mesma época tornou-se também correspondente do jornal argentino La Nación.

Em 1920 viajou pela Europa, percorrendo  Suíça,  Inglaterra,  França,  Holanda,  Bélgica,  Itália e  Alemanha. Acerca deste último país publicou uma série de crônicas no Correio da Manhã e em jornais estrangeiros, destacando-se dentre elas um estudo sobre a marinha alemã e o almirante Alfred von Tirpitz, nacionalista extremado e animador do desenvolvimento naval germânico, publicado em La Nación, e que no ano seguinte transformou-se num livro intitulado Alemanha, dias idos e vindos, editado no Rio de Janeiro.

Após regressar da Europa afastou-se temporariamente do jornalismo, dedicando-se ao exercício da advocacia e à organização de um grupo destinado a levantar capital para a compra de um jornal. Como advogado, teve destacada atuação na defesa dos interesses dos grandes grupos estrangeiros no país, especialmente a Light e a Itabira Iron Ore Co. Isso colocou-o em frontal oposição ao governo de Artur Bernardes (1922-1926), que há muito se opunha à Itabira Iron, por considerar seu contrato de exploração do ferro em Minas Gerais um monopólio prejudicial ao país.

Em 1924, com a ajuda de Alfredo Pujol e Alexandre Mackenzie, comprou no Rio de Janeiro o matutino O Jornal, de propriedade de Renato Lopes e cuja situação financeira era precária. Seis meses mais tarde adquiriu seu segundo jornal, o Diário da Noite, em São Paulo. Com base nesses dois órgãos, iniciou a estruturação de uma grande empresa jornalística, que mais tarde viria a ser conhecida como Diários Associados. Assim, em 1927, fundou a revista O Cruzeiro, semanário que, segundo o próprio Chateaubriand, teria contado em seu lançamento com o auxílio de Getúlio Vargas, então ministro da Fazenda, o qual teria obtido a metade do capital necessário. Nesse mesmo ano, coerente com sua postura de defesa do capital estrangeiro, fez campanha a favor da entrada da companhia Ford na Amazônia para cultivar borracha em larga escala, “como um princípio de redenção econômica”, por estar plenamente convencido de que “sem braços, sem técnicas e sem capital de fora, nem em cem anos o Brasil conseguiria começar a assimilar a Amazônia”.

 

A Aliança Liberal e a Revolução de 1930

Findo o ano de 1928, intensificaram-se as articulações com vistas às eleições presidenciais marcadas para março de 1930. Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, então presidente de Minas Gerais, tinha pretensões de vir a ser indicado candidato à sucessão de Washington Luís, insistindo na observância do acordo tácito entre Minas e São Paulo de revezamento no poder. Os rumores sobre a sucessão apontavam, porém, para a indicação de Júlio Prestes, presidente de São Paulo, continuador seguro da política administrativa financeira e de defesa do café desenvolvida por Washington Luís.

Diante disso, Antônio Carlos iniciou um movimento de aproximação com o Rio Grande do Sul visando boicotar a candidatura de Júlio Prestes. Chateaubriand, que se vinculara ao governo mineiro, desempenhou importante papel nessas articulações, tornando-se o intermediário entre Antônio Carlos e João Neves da Fontoura, representante gaúcho, nos entendimentos para lançar a candidatura de Getúlio Vargas, então presidente do Rio Grande do Sul. Paralelamente a essa atuação de bastidores, desempenhou através de seus jornais um destacado papel na propaganda contra a candidatura de Júlio Prestes, ora elogiando Vargas pela sua atuação à frente do governo gaúcho, ora chamando a atenção para o desprendimento mineiro em relação às negociações sucessórias.

Em junho de 1929, quando os gaúchos mostravam-se desconfiados e Vargas hesitava em aceitar definitivamente sua candidatura, Chateaubriand desencadeou violenta campanha em defesa dos interesses mineiros e de crítica à política rio-grandense, classificando-a de “paroquial e egoísta” e acusando João Neves e todo o Rio Grande de estarem “acovardados diante dos paulistas”. Graças a essa atuação, obteve recursos para ampliar sua cadeia jornalística adquirindo, em julho de 1929, o jornal O Estado de Minas, em Belo Horizonte.

Depois de demoradas negociações, os gaúchos fizeram, com o Partido Republicano Mineiro (PRM), um acordo secreto em torno da candidatura de Getúlio Vargas à presidência da República, acordo esse que deu origem à Aliança Liberal e obteve apoio de outras forças discordantes do governo federal, como o presidente da Paraíba, João Pessoa, que se tornou candidato a vice-presidente.

Em setembro de 1929 foram realizadas as convenções que lançaram os candidatos à presidência: pela situação, Júlio Prestes, e, pela Aliança Liberal, Getúlio Vargas. Aberta a campanha eleitoral, Chateaubriand colocou seus jornais a serviço da causa aliancista e obteve recursos para lançar mais dois órgãos, o Diário de São Paulo, na capital paulista, e o Diário da Noite, no Rio de Janeiro.

Com a realização das eleições presidenciais em março de 1930 e a derrota da Aliança Liberal, engajou sua cadeia jornalística na defesa de uma saída revolucionária para impedir a posse de Júlio Prestes. Essa orientação foi reforçada quando do assassinato de João Pessoa, em julho de 1930, ocasião em que os órgãos dos Diários Associados acusaram formalmente o governo federal de responsável pelo crime. Dentro dessa perspectiva, Chateaubriand participou das articulações preparatórias da revolução e no momento da eclosão do movimento incorporou-se às fileiras revolucionárias, deixando o Distrito Federal com destino a Porto Alegre de avião, no dia 3 de outubro de 1930. Seu avião chegou a ser detido pelas forças legalistas em Florianópolis, mas ele escapou graças ao auxílio de Nereu Ramos e conseguiu alcançar o Rio Grande do Sul, juntando-se às tropas revolucionárias em sua marcha para São Paulo.

 

De 1930 a 1945

Com a vitória da revolução e a instauração do Governo Provisório de Getúlio Vargas, segundo Renato Jardim, Chateaubriand teria recebido inúmeros favores, entre eles a concessão de vultosos empréstimos à cadeia dos Diários Associados, através da Caixa Econômica Federal. Ainda segundo esse autor, Chateaubriand associou-se a Edmundo Navarro de Andrade, secretário de Agricultura da Interventoria de São Paulo, para explorar o invento de uma aparelhagem de beneficiamento de café e vendê-lo ao estado de São Paulo. Chateaubriand teria sido também beneficiado pelo ministro do Trabalho, Indústria e Comércio, Lindolfo Collor, que lhe proporcionou lucrativa viagem à Amazônia, da qual resultaram grandes reportagens para os Diários Associados, além de um contrato jornalístico com a empresa Ford, lá instalada.

Com a ampliação de sua cadeia jornalística e seu envolvimento com proeminentes figuras do governo, Chateaubriand fundou em agosto de 1931 a agência de notícias Meridional, com o objetivo de fornecer informações para seus próprios jornais e, ao mesmo tempo, vendê-las para outros periódicos.

Ao final de 1931 começaram a surgir suas primeiras divergências com o Governo Provisório. Chateaubriand, ligado ao grupo composto por Lindolfo Collor, João Batista Luzardo e Raul Pilla, clamava pela rápida reconstitucionalização do país, temendo o estabelecimento definitivo de um governo ditatorial. Dentro dessa perspectiva, apoiou a Revolução Constitucionalista de São Paulo em 1932, sofrendo, em função disso, o confisco da sede e da maquinaria de O Jornal, órgão líder da cadeia dos Diários Associados, e recebendo uma ordem de deportação. Conseguiu, entretanto, escapar do barco que o conduziria para o exterior, o navio japonês Havai maru, escondendo-se no interior do país durante vários meses.

Reapareceu com a instalação da Assembléia Nacional Constituinte em novembro de 1933, conseguindo reaver seu principal jornal, cuja direção foi entregue a seu sogro, Zózimo Barroso do Amaral. Segundo Austregésilo de Ataíde, Zózimo era governista e sua presença à frente de O Jornal representou uma busca de apaziguamento com Vargas. Reconciliado com o governo, Chateaubriand adquiriu em abril de 1934 a revista A Cigarra, no Rio de Janeiro, comprando também, nesse mesmo ano, sua primeira estação de rádio, a Tupi do Rio. Pouco tempo depois adquiriu a Rádio Tupi de São Paulo e a Educadora do Rio, que passou a se denominar Rádio Tamoio, dando início à constituição de uma cadeia de rádio-emissoras que chegou a ter 25 estações.

Durante o ano de 1935, Chateaubriand, ferrenho anticomunista, desencadeou, através de seus jornais, uma violenta campanha contra a Aliança Nacional Libertadora (ANL), frente de âmbito nacional que lutava contra o fascismo, o imperialismo, o latifúndio e a miséria. Na época foi acusado pelo jornal A Manhã, porta-voz da ANL, de pressionar Getúlio para que aquele movimento fosse reprimido.

Em 1936, Chateaubriand recebeu de Vargas a incumbência de trazer de volta ao governo João Neves e Batista Luzardo, rompidos com o presidente da República há longo tempo. Essa aproximação com Vargas, no entanto, não foi duradoura e, ainda em 1936, Chateaubriand moveu intensa campanha contra o presidente da República e Benedito Valadares, governador de Minas Gerais, denunciando suas tentativas de retirar de Antônio Carlos o cargo de presidente da Câmara dos Deputados. A campanha desenvolvida pelos Diários Associados, aliada à estima de que gozava Antônio Carlos na Câmara, conseguiu sustar, temporariamente, as investidas de seus opositores. Em maio de 1937, entretanto, Vargas e Benedito Valadares conseguiram derrotar definitivamente Antônio Carlos, elegendo Pedro Aleixo como seu sucessor na presidência da Câmara. A partir daí, Chateaubriand reiniciou sua campanha contra Vargas, acusando-o de antiliberal e antidemocrata e denunciando a eleição de Pedro Aleixo como um golpe contra Antônio Carlos e contra a autonomia do Poder Legislativo nacional. Os Diários Associados afirmaram ainda que a substituição de Antônio Carlos na presidência da Câmara havia sido conseqüência de suas pretensões de candidatar-se à presidência da República nas eleições previstas para 1938 e do desejo de Vargas de esvaziar essa candidatura.

Colocando-se na oposição ao governo federal, Chateaubriand apoiou a candidatura de Armando Sales à presidência nas eleições que teriam lugar em janeiro de 1938. Contudo, após o golpe de 10 de novembro de 1937, que instaurou o Estado Novo, aceitou o novo regime, afirmando que era “necessário atravessar um túnel, na esperança de que o futuro abrisse perspectivas para a restauração de um regime democrático”.

Em 1938 Chateaubriand deu início à diversificação de suas atividades, comprando várias fazendas em São Paulo, onde dedicou-se ao cultivo do café e do algodão. Nos anos seguintes adquiriu outras propriedades no Nordeste e no Centro-Sul, onde a pecuária era atividade predominante.

No início da década de 1940, Chateaubriand deu início a uma série de campanhas de âmbito nacional que, no seu entender, contribuiriam para o progresso e o desenvolvimento do país. Assim, em 1941 lançou uma campanha em favor da aviação nacional, visando transformar cada município brasileiro em um centro de treinamento para pilotos civis.

Em 1943 adquiriu o Diário de Notícias de Salvador, incorporando mais esse órgão à sua cadeia rádio-jornalística.

Com a crise do Estado Novo, defendeu o retorno ao regime democrático, denunciando que a promulgação do Código Eleitoral em fevereiro de 1945 nada mais era do que um artifício para a perpetuação do regime. Dentro dessa perspectiva, os Diários Associados fizeram violenta campanha contra Agamenon Magalhães, então ministro da Justiça, acusando-o de responsável pelas regras eleitorais contidas no código.

 

No governo Dutra

Uma vez marcadas as eleições para dezembro de 1945, Chateaubriand apoiou o candidato da União Democrática Nacional (UDN), o brigadeiro Eduardo Gomes, sem deixar contudo de reconhecer os méritos de seu adversário, Eurico Gaspar Dutra, candidato apoiado pela coligação do Partido Social Democrático (PSD) com o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Com a posse do candidato vitorioso, Eurico Gaspar Dutra, Chateaubriand deu seu apoio às principais medidas do novo governo, empenhado, na sua opinião, em promover a conciliação nacional.

Nessa época Chateaubriand lançou mais uma de suas campanhas de âmbito nacional, a Campanha de Redenção da Criança, visando arrecadar fundos para construir postos de puericultura através do Brasil. Em 1947 fundou também o Museu de Arte de São Paulo, que funcionava na sede dos Diários Associados e onde se constituiu um importante acervo artístico.

Dois anos depois, a cadeia dos Diários Associados abriu uma nova frente de atuação inaugurando em São Paulo a TV Tupi, que foi a primeira estação de televisão da América Latina, começando a funcionar em 1950.

Ao se aproximarem as eleições de outubro de 1950, considerando que a situação havia mudado — e que, mais uma vez, Eduardo Gomes não teria condições de se eleger presidente — Chateaubriand deu um discreto apoio à candidatura de Vargas. Segundo depoimento de Austregésilo de Ataíde, na época diretor de O Jornal e do Diário da Noite, no Rio de Janeiro, o próprio Chateaubriand teria sido o promotor da candidatura Vargas, ao enviar o jornalista Samuel Wainer à estância gaúcha onde o ex-presidente se encontrava, com a incumbência de obter dele uma série de entrevistas sensacionalistas, aventando a hipótese de sua volta ao governo. Além disso, ainda segundo a mesma fonte, naquele momento, Chateaubriand não se identificava plenamente com a UDN, considerando-a formada por “um grupo de idealistas pouco afeito à consideração dos problemas econômicos, sociais e políticos da nação em sua realidade”.

 

Na defesa do capital estrangeiro

Entretanto, depois de eleito e empossado Vargas, logo vieram à tona as divergências de Chateaubriand com o governo. Um exemplo foi a política em relação ao petróleo, objeto de acaloradas discussões na época. Chateaubriand, coerente com sua posição de defesa do capital estrangeiro, considerava impossível, do ponto de vista tanto econômico como técnico, a exploração petrolífera no Brasil sem o auxílio externo. A partir desse ponto de vista, moveu violenta campanha através dos Diários Associados contra a tese nacionalista que defendia o monopólio estatal da exploração do petróleo. No seu entender, essa tese era absolutamente defasada, pois, com a libertação da maioria das colônias existentes, a fase do colonialismo havia acabado e “a atuação dos Estados Unidos objetivava apenas auxiliar o desenvolvimento da América Latina”. Argumentava ainda que as chamadas teses nacionalistas para a exploração dos recursos materiais brasileiros eram “coisa de comunistas” e que o lema “O petróleo é nosso” era meramente um “chavão soviético”.

A atuação que desenvolveu através dos órgãos de comunicação de que dispunha não foi o único meio que Chateaubriand utilizou no combate ao movimento nacionalista. Para melhor defender suas propostas e usar de sua influência no combate à lei de criação da Petrobras que tramitava no Congresso, elegeu-se senador na legenda do PSD da Paraíba em outubro de 1952. Para que pudesse ser eleito, conseguiu, naquele ano, a renúncia de Vergniaud Wanderley, senador da UDN por aquele estado, eleito em 1945, e de seu suplente Antônio Pereira Diniz. Aberta dessa forma uma vaga no Senado, foram realizadas eleições suplementares nas quais Chateaubriand foi candidato único.

Como senador, continuou sua pregação antinacionalista, tentando sem êxito impedir a aprovação da lei que criou a Petrobras e instituiu o monopólio estatal do petróleo, sancionada por Vargas em 3 de outubro de 1953. Além da questão do petróleo, durante esse mandato dois temas marcaram sua atuação: a defesa da cultura cafeeira e a luta pela autonomia do Distrito Federal. Em relação ao primeiro, destacou a importância do café para o Brasil e advogou uma atuação mais efetiva do governo como financiador de sua produção. Em relação à segunda questão, que na época suscitava grandes discussões, defendeu a tese da extinção da Câmara de Vereadores do Distrito Federal, dando-se ao Senado e à Câmara dos Deputados poderes para legislar sobre assuntos de interesse da capital federal através de comissões especiais. No seu entender, a Câmara Municipal só servia para criar centenas de empregos inúteis para os apaniguados dos vereadores, malbaratando os recursos públicos. Dizia ainda que a autonomia do Distrito Federal deveria ser reduzida, por ser extremamente perigoso que a capital da República, sede do governo e do Supremo Tribunal Federal, corresse o risco de “vir a ser governada por comunistas”.

Sua postura de oposição ao governo Vargas foi aprofundada ao longo de 1954, quando a cadeia dos Diários Associados engajou-se inteiramente na campanha de denúncias contra o jornal situacionista Última Hora, principal sustentáculo de Vargas na imprensa, encampando ainda as pressões para a deposição do presidente. No entender de Chateaubriand, a crise política por que passava o país era resultado da incapacidade de Getúlio de conviver com um regime constitucional, já que sua trajetória estava intimamente ligada à dissolução das instituições democráticas.

Com o suicídio de Vargas (24/8/1954), Chateaubriand apoiou o governo do vice-presidente João Café Filho, que se cercou de quadros da UDN. A justificativa dada a essa posição foi que “as forças democráticas não deveriam manter um clima divisionista”. Nesse mesmo ano, em outubro, Chateaubriand foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, vindo a ocupar a cadeira número 37, que pertencera a Getúlio Vargas. Seu discurso de posse, conhecido pelo título de Aquarela do Brasil, traçou um retrato da personalidade do ex-presidente que salientava a sua esperteza, inteligência e percepção mas, ao mesmo tempo, caracterizava-o como portador de uma vocação autoritária incompatível com os regimes constitucionais.

No pleito de outubro de 1954, Chateaubriand tentou a reeleição ao Senado pela Paraíba, com o apoio da coligação do PSD com o Partido Libertador (PL), disputando a vaga com outros quatro candidatos e sendo derrotado. Deixou o Senado, então, ao final de seu mandato em janeiro de 1955, para logo em seguida repetir o processo pelo qual havia sido eleito em 1952: obteve a renúncia do senador maranhense Alexandre Bayma e de seu suplente Newton de Barros Belo e, aberta essa vaga no Senado, elegeu-se pelo Maranhão na legenda do PSD, sendo empossado em junho de 1955.

Nas eleições presidenciais de outubro desse mesmo ano deu um discreto apoio a Juscelino Kubitschek, candidato da coligação PSD-PTB, que concorria com Juarez Távora, indicado pela UDN. Depois da vitória de Juscelino, quando surgiram artitulações para impedir sua posse sob a alegação da inexistência de maioria absoluta, Chateaubriand opôs-se a elas, dando apoio ao movimento de 11 de novernbro de 1955, liderado pelo general Henrique Teixeira Lott, que garantiu a posse do candidato eleito.

Chateaubriand renunciou a seu mandato de senador em 1957 para exercer o cargo de embaixador do Brasil na Inglaterra, a convite de Juscelino Kubitschek. Após apresentar suas credenciais ao governo britânico em maio desse ano, declarou que não seria um embaixador de gabinete, mas que pretendia lutar pela abertura de novos mercados para as matérias primas tropicais. Com esse objetivo participou, como chefe da delegação brasileira, da II Conferência Internacional do Açúcar, em 1958, em Genebra, na Suíça, e da XVII, XVIII e XIX sessões plenárias do Comitê Consultivo Internacional do Algodão, realizadas respectivamente em 1958, 1959 e 1960, em Londres, Washington e Cidade do México.

 

O condomínio dos Diários Associados

Paralelamente às suas atividades como embaixador, Chateaubriand seguiu ampliando a cadeia dos Diários Associados, adquirindo em março de 1959 o Jornal do Comércio, ocasião em que declarou que seu objetivo com essa compra era preservar o mais antigo órgão de imprensa existente no Rio de Janeiro. Em setembro de 1959, preocupado em dar continuidade, após sua morte, ao império jornalístico que havia construído, instituiu o condomínio acionário das Emissoras e Diários Associados. Distribuiu 49% das ações e quotas que possuía dentro de toda a cadeia a 22 de seus auxiliares, dentre os quais seus dois filhos, gravando-as com as cláusulas de inalienabilidade e incomunicabilidade.

Em fevereiro de 1960 Chateaubriand foi acometido de uma dupla trombose que lhe provocou uma paralisia quase total. Apesar de preso a uma cadeira de rodas, continuou a escrever e, nas eleições desse ano, defendeu a candidatura do marechal Henrique Lott à presidência da República, lançada pelo PTB, em oposição a Jânio Quadros, apoiado pela UDN. Eleito Jânio em outubro de 1960, seu governo foi visto pelos Diários Associados como não merecedor de confiança e sua renúncia (25/8/1961) classificada de manobra para ser reconduzido ao cargo com poderes ditatoriais. A seguir, a posse do vice-presidente João Goulart que os ministros militares tentaram vetar, foi defendida pelos Diários Associados. Pouco tempo depois, entretanto, a aproximação de Goulart com a esquerda colocou Chateaubriand entre seus opositores.

Em julho de 1962, a preocupação com o destino de sua cadeia jornalística levou Chateaubriand a doar os 51% restantes das ações e quotas que reservara para si aos seus auxiliares, que já haviam recebido os primeiros 49%, excluindo seus filhos porém dessa segunda partilha.

Com a radicalização que se acentuou ao longo do governo Goulart, Chateaubriand fez de sua residência, em São Paulo, a chamada “casa amarela”, um dos centros de conspiração contra o governo. Ao mesmo tempo preparava a opinião pública, através de seus artigos diários e de toda a atuação dos Diários Associados, para a eclosão do movimento político-militar de 1964. Após a vitória do movimento, em abril de 1964, Chateaubriand lançou em São Paulo, através dos Diários Associados, a Campanha do Ouro para o Bem do Brasil, convocando a população a doar suas jóias para auxiliar o pagamento da dívida externa do país.

Em 1965 Chateaubriand foi acometido de um distúrbio das coronárias e seu estado de saúde agravou-se seriamente, vindo a falecer em São Paulo no dia 4 de abril de 1968.

Com a sua morte, João Calmon, vice-presidente do condomínio acionário dos Diários Associados desde 1962, tornou-se presidente da empresa. Na época, ela era constituída pelos seguintes órgãos: 1) os diários O Jornal (Rio), Jornal do Comércio (Rio), Diário de S. Paulo (S. Paulo), Diário da Noite (S. Paulo), Diário dos Esportes (S. Paulo), O Diário (Santos-SP), O Estado de Minas (Belo Horizonte), Diário da Tarde (Belo Horizonte), Diário Mercantil (Juiz de Fora-MG), Diário da Tarde (Juiz de Fora-MG), Diário de Notícias (Porto Alegre), A Razão (Santa Maria-RS), Estado da Bahia (Salvador), Diário de Notícias (Salvador), Diário de Aracaju (Aracaju), Diário de Pernambuco (Recife), O Norte (João Pessoa), Diário de Borborema (Campina Grande-PB), Diário de Natal (Natal), O Poti (Natal), A Província do Pará (Belém), Correio do Ceará (Fortaleza), Unitário (Fortaleza), O Imparcial (S. Luís), Jornal do Comércio (Manaus), A Nação (Florianópolis), Jornal de Joinville (Joinville-SC), Jornal de Alagoas (Maceió), Folha de Goiás (Goiânia), Diário do Paraná (Curitiba), Monitor Campista (Campos-RJ), Correio Brasiliense (Brasília), O Rio Branco (Rio Branco), Alto Madeira (Porto Velho-RO), Diário da Serra (Campo Grande-MS); 2) as revistas O Cruzeiro, O Guri, A Cigarra, Luluzinha, Bolinha, Brasinha, Gasparzinho, Aventura, Gurilândia, Pré-Estréia, Manda-Chuva, Os Flinstones, Os Jetsons, Pimentinha, Zé Colméia, Combate, Homem no Espaço, Galáxia; 3) as emissoras Rádio Tupi (Rio), Rádio Tamoio (Rio), Rádio Difusora (S. Paulo), Rádio Tupi (S. Paulo), Rádio Cultura (S. Paulo), Rádio Guarani (Belo Horizonte), Rádio Mineira (Belo Horizonte), Rádio Sociedade (Juiz de Fora-MG), Rádio Farroupilha (Porto Alegre), Rádio Sociedade da Bahia (Salvador), Rádio Clube de Pernambuco (Recife), Rádio Tamandaré (Recife), Rádio Borborema (Campina Grande-PB), Rádio Cariri (Campina Grande-PB), Rádio Poti (Natal), Rádio Marajoara (Belém), Ceará Rádio Clube (Fortaleza), Rádio Araripe (Crato-CE), Rádio Gurupi (S. Luís), Rádio Baré (Manaus), Rádio Progresso (Maceió), Rádio Vitória (Vitória), Rádio Difusora (Teresina), Rádio Clube de Goiânia (Goiânia), Rádio Planalto (Brasília); 4) as emissoras de televisão TV Tupi (Rio), TV Tupi (S. Paulo), TV Cultura (S. Paulo), TV Ribeirão Preto (Ribeirão Preto-SP), TV Itacolomi (Belo Horizonte), TV Alterosa (Belo Horizonte), TV Mariano Procópio (Juiz de Fora-MG), TV Piratini (Porto Alegre), TV Itapoan (Salvador), TV Rádio Clube (Recife), TV Borborema (Campina Grande-PB), TV Marajoara (Belém), TV Rádio Clube (Fortaleza), TV Vitória (Vitória), TV Rádio Clube (Goiânia), TV Paraná (Curitiba), TV Coroados (Londrina-PR), TV Brasília (Brasilia); e 5) as agências: Agência Meridional (de notícias, com matriz no Rio e sucursais em todo o Brasil) e SIRTA Serviços de Imprensa, Rádio e Televisão Associados (de publicidade, com matriz no Rio e filiais em todo o Brasil).

Pouco tempo depois da morte de Chateaubriand, porém, abriu-se uma crise no seio dos Diários Associados, provocada por divergências entre um de seus filhos, Gilberto, e João Calmon, em relação à orientação dada ao condomínio criado para manter em funcionamento a cadeia de emissoras de rádio, televisão e jornais.

Chateaubriand foi casado com Maria Henriqueta Barroso do Amaral Bandeira de Melo, com quem teve um filho. De ligações posteriores teve dois outros filhos, entre eles Gilberto Chateaubriand Bandeira de Melo, um dos maiores colecionadores de arte contemporânea brasileira.

Além dos trabalhos já citados, publicou inúmeros livros, artigos, discursos e conferências, entre os quais Terra desumana — a vocação revolucionária do presidente Artur Bernardes (1926) e As nuvens que vêm (discursos parlamentares, 1962).

A seu respeito, foram publicadas, entre outras, as seguintes obras: Traços para estudo (1953), de Gilberto Amado; O velho capitão e outras histórias reais (1962), de David Nasser; Presença de Assis Chateaubriand na vida brasileira (1971), de Mário Barata; e Assis Chateaubriand, uma vida vertiginosa (1972), de Carlos A. Mendonça; Chatô, rei do Brasil (1994), de Fernando Morais.

Marieta de Morais Ferreira

 

 

FONTES: ARQ. GETÚLIO VARGAS; BARATA, M. Presença; BRINCHES, V. Dic.; CISNEIROS, A. Parlamentares; COELHO, J. Dic.; COHN, G. Petróleo; CORTÉS, C. Homens; COUTINHO, A. Brasil; Efemérides paulistas; Encic. Barsa; Encic. Mirador; Estado de S. Paulo (9/12/73); FONTOURA, J. Memórias; Grande encic. Delta; Grande encic. portuguesa; HIRSCHOWICZ, E. Contemporâneos; INST. NAC. LIVRO. Índice; JARDIM, R. Aventura; Jornal (3/3/31); Jornal do Brasil (20/7/66 e 29/3/68); Jornal do Comércio, Rio (5/4/68); LEVINE, R. Vargas; LIMA, M. Petróleo; MACEDO, R. Efemérides; MELO, F. Aquarela; MELO, F. Nuvens; MENDONÇA, C. Assis; MENESES, R. Dic.; MIN. REL. EXT. Anuário; NOGUEIRA FILHO, P. Ideais; Ofensiva; PINTO, L. Antologia; RACHE, P. Outros; SENADO. Dados; SENADO. Relação; SILVA, R. Bacharéis; SKIDMORE, T. Brasil; SOC. BRAS. EXPANSÃO COMERCIAL. Quem; Súmulas; VELHO SOBRINHO, J. Dic.; Who‘s who in Latin America.

 

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