GERARDO MAGELA MELO MOURAO

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Nome: MOURÃO, Gerardo Melo
Nome Completo: GERARDO MAGELA MELO MOURAO

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
MOURÃO, GERARDO MELO

MOURÃO, Gerardo Melo

*dep. fed. AL 1963,1964 e 1966-1967.

 

Gerardo Magela Melo Mourão nasceu em Ipueiras (CE) em 8 de janeiro de 1917, filho de Coriolano Ribeiro Melo Sampaio e Ester Melo Mourão.

Tendo perdido o pai antes de nascer, teve uma infância pobre em Crateús (CE), onde assistiu às atividades de cangaceiros e à passagem da Coluna Prestes pela região. A convite de tios maternos, que aconselharam sua mãe a levá-lo para uma cidade na qual pudesse estudar, mudou-se aos sete anos para Ipiabas (RJ) e aí morou até 1928, quando ingressou no seminário de São Clemente, em Congonhas do Campo (MG), dirigido por padres redentoristas. Interno até 1934, voltou nesse ano ao Ceará para, segundo entrevista concedida em junho de 1977 ao Jornal do Brasil, despedir-se “definitivamente da família e do mundo, antes de entrar no noviciado”. Transferiu-se a seguir para o convento da Glória, em Juiz de Fora (MG), mas deixou-o em 1935, poucos meses antes de ser ordenado padre.

Fora do seminário, iniciou o curso de direito, que também não chegaria a concluir, e passou a se dedicar à literatura e ao jornalismo. Residindo no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, foi professor em vários colégios e manteve contatos com membros da Ação Universitária Católica e do Centro Dom Vital. Em setembro de 1935 filiou-se à Ação Integralista Brasileira (AIB), tornando-se diretor do jornal da organização, O Povo, e militando, segundo Stanley Hilton, que o citou extensamente no livro Suástica sobre o Brasil, no departamento universitário. Fez amizade com os líderes integralistas Plínio Salgado, Gustavo Barroso e Raimundo Padilha e, segundo seu próprio depoimento, foi secretário de um núcleo de propaganda da agremiação, servindo sob as ordens do secretário de relações exteriores Antônio Gallotti.

Integralista exaltado, ainda segundo Stanley Hilton participou, após o estabelecimento, em 10 de novembro de 1937, do regime do Estado Novo, do levante que, irrompido em 11 de maio de 1938 sob a liderança dos integralistas e com o apoio de oposicionistas liberais, visava à deposição do presidente Getúlio Vargas. Tendo sido o movimento — cujo principal episódio foi o assalto ao palácio Guanabara — contido em poucas horas, foi preso nesse mesmo dia. Colocado em liberdade, continuou como militante integralista com suas atividades de oposição ao regime, pelas quais seria detido cerca de 18 vezes até 1945.

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial em 1939, passou, ainda, segundo Stanley Hilton, a gravitar “ostensivamente na órbita nazi-fascista, estabelecendo íntimas ligações com representantes da agência de notícias alemã Transoceans” e com elementos da embaixada da Alemanha, além de exercer atividades de propaganda pró-Eixo. Assim, segundo Hilton, foi preso em julho de 1940 “em Recife, por causa de sues esforços propagandísticos em prol dos interesses alemães”.

Após o rompimento do Brasil com o Eixo — efetivado em janeiro de 1942 —, ainda segundo Stanley Hilton, passou a integrar a célula de espionagem que foi montada nessa ocasião no Brasil pelo Serviço Militar de Informações do III Reich, cuja chefia fora confiada ao capitão Túlio Régis do Nascimento, do qual seria o principal auxiliar. Redator do jornal germanófilo Gazeta de Notícias, foi preso em setembro de 1942, sob a acusação de colaborar com as potências do Eixo, colaboração que teria resultado no afundamento de navios brasileiros. Por essa razão, foi condenado a 30 anos de prisão pelo Tribunal de Segurança Nacional. Segundo ele próprio, “descartados os padecimentos materiais — fui torturado fisicamente — e a angústia inevitável, foi o período de maior liberdade interior da minha vida”. Escreveu um diário de cadeia, abrangendo todo o período em que esteve preso, além do romance O valete de espadas, publicado anos mais tarde. Após cinco anos, dez meses e 20 dias de cárcere, foi solto em 1947, beneficiado por um indulto presidencial e, no ano seguinte, teve seu processo anulado por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Tendo permanecido afastado da vida política por muitos anos, candidatou-se, em 1962, a uma cadeira de deputado federal por Alagoas na legenda da Coligação Democrática Nacionalista, formada pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Social Progressista (PSP). Obtendo a primeira suplência, exerceu o mandato de junho a novembro de 1963, período durante o qual apoiou a reforma constitucional que tornava possível a realização das chamadas reformas de base, constantes do programa de governo do presidente João Goulart. Defendendo ainda a cédula única, a redução do número de partidos políticos e a prévia e posterior declaração de bens dos candidatos a cargos eletivos, foi favorável a uma reforma eleitoral que pusesse fim à influência do poder estatal e do poder econômico nas eleições.

No início de 1964, encontrava-se numa posição de desconfiança diante dos rumos do governo de João Goulart, a quem apoiara inicialmente, e que acabou deposto pelo movimento político-militar de 31 de março, que empossou na presidência da República o general Humberto Castelo Branco. Voltando a assumir a cadeira de deputado federal após a vitória do movimento, permaneceu na Câmara dos Deputados de junho a novembro de 1964 e, ainda nesse mesmo ano, deixou o Brasil passando a residir no Chile, num exílio político voluntário.

Com a extinção em 27 de outubro de 1965 dos partidos políticos por força do Ato Institucional nº 2 (AI-2) e o posterior estabelecimento do bipartidarismo, ingressou, após sua volta ao país em 1966, no Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido de oposição ao regime militar. Reassumindo em agosto desse ano o mandato na Câmara dos Deputados, dois meses depois concorreu à reeleição pela legenda emedebista, obtendo novamente uma suplência. Ainda em 1966, representou o Brasil no Congresso Interamericano de Escritores e, em janeiro do ano seguinte, encerrado seu mandato, deixou a Câmara.

Em outubro de 1969, teve seus direitos políticos cassados através da aplicação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), “sem saber por quê” e no que considerou uma arbitrariedade do governo, segundo depoimento que seria prestado à revista Fatos e Fotos em janeiro de 1978.

Em 1972, foi contemplado com o Prêmio Mário de Andrade por seu livro de poemas Peripécias de Gerardo. Após a publicação, em fins de 1977, do já citado livro Suástica sobre o Brasil, que versava sobre a atuação da rede de espionagem nazista montada no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial e reafirmava sua colaboração com o Serviço Militar de Informações do III Reich, contestou as afirmações contidas na obra em uma série de entrevistas concedidas em 1978 a órgãos da imprensa carioca, iniciando uma cerrada polêmica com o autor. Negando ter sido agente nazista, acusação da qual, segundo ele, já havia sido absolvido pelo STF, salientou que “era apenas integralista”, numa época em que se “seguia pelo comunismo ou pelo integralismo”. Declarou ainda que havia sido usado como “bode expiatório” pela “ditadura brasileira, que era nazista e fascista”. Criticando a atuação dos chamados “brasilianistas” — estudiosos norte-americanos especializados em assuntos brasileiros —, em entrevista ao Jornal do Brasil publicada em janeiro de 1978, acusou Stanley Hilton de “agente da CIA”, afirmando ainda que ele se utilizava de informes da polícia política do Estado Novo “como se fossem documentos”. Nesta ocasião, cerca de uma centena de políticos e intelectuais lhe ofereceram um jantar de desagravo, ao qual compareceram, entre outras personalidades, o líder do MDB na Câmara Federal, deputado Freitas Nobre, o arquiteto Oscar Niemeyer e o acadêmico Antônio Houaiss, que afirmou ter ido levar sua solidariedade a uma “vítima da infâmia forjada há décadas”. Em artigo publicado no mês seguinte, Stanley Hilton reiterou suas afirmações, citando fontes utilizadas em sua pesquisa. Gerardo Melo Mourão salientou na entrevista a Fatos e Fotos que fazia questão de ser “marginal do sistema”, proclamando-se a favor do anarquismo, já que o Estado seria, segundo ele, “o maior instrumento de servidão e de opressão do ser humano”.

Entre suas influências literárias, declarou ter sido Otávio de Faria o escritor que mais o marcou, dizendo-se ainda discípulo de Benedetto Croce e de Heidegger no campo da filosofia. Considerado um dos escritores mais importantes da literatura latino-americana, dedicou-se intensamente à atividade literária, atuando no campo da poesia — no qual foi muito elogiado por Carlos Drummond de Andrade —, do romance, do ensaio político, e também à tradução, tendo traduzido para o português poemas de Mao Tsé-tung e Calígula, e obras do escritor francês Albert Camus e do dramaturgo Eugene O’Neill. Em outubro de 1978, teve seu nome proposto para o Prêmio Nobel de Literatura pelo diretor dos estudos americanos da Universidade de Nova Iorque, professor Francisco Pibón.

De 1980 a 1982, atuou como correspondente do jornal Folha de S. Paulo em Pequim. De volta ao Brasil, o prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Alencar nomeou-o, em 1983, presidente da Rio Arte, cargo no qual permaneceu por oito anos. Foi também secretário de Cultura do município na segunda passagem de Marcelo Alencar pela prefeitura do Rio (1989-1992). Nesse período, em 1985, tornou-se membro do Conselho Federal de Cultura, durante o governo do presidente José Sarney (1985-1990) e até o final do governo de Itamar Franco (1992-1994).

Membro do Conselho Nacional de Política Cultural, em 1999 foi designado delegado junto à embaixada brasileira em Lisboa para as comemorações dos quinhentos anos de descobrimento do Brasil.

Foi também cronista, assessor da Petrobras, assessor e chefe de gabinete da presidência do Serviço Social da Indústria (Sesi), além de presidente da Comissão de Abastecimentos e Preços (Coap) no Ceará.

Faleceu no Rio de Janeiro em março de 2007.

Casou-se duas vezes e teve três filhos.

Publicou Poesia do homem (poesia, 1937), Mustaphá Kemal (ensaio político, 1942), O cabo das Tormentas (poesia, 1950), O valete de espadas (romance, 1960), Três pavanas (poesia, 1960), O país dos Mourões (poesia, 1º volume da série Os Peães, 1963), Frei e Chile (ensaio político, 1966), Peripécias de Gerardo (poesia, 2º volume da série Os Peães, 1972), Dossiê da destruição (romance), Rastro de Apolo (poesia), Do destino do espírito, Argentina, Invenção do mar (poesia, 1998, que lhe valeu o prêmio Jabuti 1999), Cânon & fuga (poesia, 1999) e Um senador de Pernambuco: breve memória de Antônio de Barros Carvalho (biografia, 1999).

FONTES: ARQ. DEP. PESQ. JORNAL DO BRASIL; CÂM. DEP. Anais; CÂM. DEP. Deputados; CÂM. DEP. Deputados brasileiros. Repertório (1946-1967); CAMPOS, Q. Fichário; Fatos e Fotos (9/1/78); Grande encic. Delta; HILTON, S. Suástica; INF. BIOG.; Jornal da Tarde (2/10/69); Jornal do Brasil (4/6/77, 2, 21, 24 e 27/1, 18/2 e 25/10/78); Palavra (6/99); TRIB. SUP. ELEIT. Dados (6 e 8); Veja (28/12/77).

 

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