GREGORIO LOURENCO BEZERRA

Ajuda
Busca

Acervos
Tipo
Verbete

Detalhes

Nome: BEZERRA, Gregório
Nome Completo: GREGORIO LOURENCO BEZERRA

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
BEZERRA, GREGÓRIO

BEZERRA, Gregório

*militar; mov. comunista; rev. 1935; const. 1946; dep. fed. PE 1946-1948.

 

Gregório Lourenço Bezerra nasceu em Panelas de Miranda, hoje Panelas (PE), no dia 13 de março de 1900, filho de Lourenço Bezerra e de Belarmina Conceição, lavradores pobres.

Aos quatro anos de idade iniciou-se no trabalho agrícola, auxiliando a família. Mudou-se ainda muito jovem para Recife, onde trabalhou como empregado doméstico, carregador, vendedor ambulante de jornais e ajudante de obras. Operário da construção civil, foi preso pela primeira vez em 1917, ano de grandes greves em vários pontos do país, quando participava de uma passeata nas ruas da capital pernambucana.

Libertado em julho de 1922, em dezembro do mesmo ano apresentou-se ao Exército para prestar serviço militar. Em janeiro de 1923 foi incorporado à 1ª Companhia do antigo 21º Batalhão de Caçadores, no Recife, sendo depois transferido para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, onde serviu na 1ª Companhia de Carros de Assalto. Tornou-se reservista em janeiro de 1924.

Ao longo desse ano, dedicou-se, como autodidata, à sua própria alfabetização. Com isso, pretendia ingressar na carreira militar. Aprovado em concurso, matriculou-se na Escola de Sargentos de Infantaria, no Rio de Janeiro, em 1925. Concluindo o curso em dezembro de 1926, foi incorporado em janeiro de 1927 como sargento-instrutor na 9ª Companhia do 3º Batalhão do 2º Regimento de Infantaria, ainda no Distrito Federal.

Transferido em fins de 1927 para o 21º BC, em Recife, no ano seguinte entrou em contato pela primeira vez com membros do Partido Comunista Brasileiro, então Partido Comunista do Brasil (PCB). Em janeiro de 1930, ao fim de dois anos de contatos, decidiu ingressar no partido, tornando-se militante comunista.

Ainda em 1930, após ter servido durante seis meses como instrutor no 28º BC, em Aracaju, transferiu-se para o Rio de Janeiro, por ter conseguido matrícula na Escola de Educação Física do Exército.

Em outubro desse mesmo ano, por ocasião da campanha militar da revolução, lutou ao lado das forças revolucionárias: incorporado ao 3º Regimento de Infantaria, seguiu com um destacamento para Juiz de Fora (MG), a fim de reforçar o 1º Batalhão de Caçadores, que era comandado pelo coronel João de Siqueira Queirós Saiãos. Afirmaria mais tarde que simpatizava bastante com a revolução, mas que lutara apenas como soldado, com o entusiasmo refreado pelo fato de o PCB não ter apoiado o movimento.

Com o fim da revolução, retornou à Escola de Educação Física do Exército. Concluindo o curso em dezembro de 1931, foi designado instrutor de educação física do Colégio Militar de Fortaleza. Organizou na capital cearense, clandestinamente e contrariando a orientação do partido, uma célula comunista com cinco outros militares e um círculo socialista de leitura e debates.

Quando eclodiu a Revolução Constitucionalista de 1932, foi mobilizado, participou da instrução do 2º Escalão do 23º BC, sediado em Fortaleza, e partiu com essa unidade para o Rio de Janeiro. Após um período de adestramento suplementar no Rio, as tropas cearenses, compostas em grande parte de flagelados que fugiam da seca e alistaram-se em Fortaleza, seguiram para Minas Gerais, onde se incorporaram ao destacamento misto comandado pelo coronel Eurico Gaspar Dutra. Participaram de poucos combates e, com a capitulação dos paulistas, retornaram à capital cearense.

Gregório Bezerra reativou sua célula de militares e, em seguida, organizou uma outra na brigada militar do estado. Com o acirramento e a radicalização do debate político em todo o país no período que se seguiu, redobrou no Ceará a atividade dos comunistas, de um lado, e, do outro, dos integralistas. A confrontação entre os dois grupos tornou-se ainda mais aguda após a nomeação de Filipe Moreira Lima para a interventoria do Ceará, em agosto de 1934. Moreira Lima, segundo o próprio Gregório Bezerra, “deu ampla liberdade a todos os partidos e agremiações políticas”. Entretanto, em dezembro do mesmo ano, época de eleições, Gregório e quatro de seus companheiros foram denunciados como comunistas e transferidos para o Rio de Janeiro, segundo ele “por ordem direta do ministro da Guerra” (o general Pedro Aurélio de Góis Monteiro).

A caminho da capital federal, contudo, apresentou-se em Recife à 7ª Região Militar, à qual estava subordinado, e sua viagem ao Rio de Janeiro foi sustada permanecendo na capital pernambucana, de início adido à sede da 7ª RM e depois como instrutor do Centro de Preparação dos Oficiais da Reserva (CPOR) de Recife.

Nesta época, a Aliança Nacional Libertadora (ANL), organização de massas orientada pelo PCB, encontrava-se em pleno crescimento.

Gregório Bezerra trabalhou ativamente no recrutamento de novos militantes para a organização, especialmente nos meios militares. Com o fechamento da ANL pelo governo federal (11/7/1935), a organização passou a funcionar na clandestinidade. Ao mesmo tempo, Gregório Bezerra recebeu o encargo de participar da preparação de uma insurreição militar em Recife, tarefa a que se dedicou de agosto a novembro de 1935.

Quando eclodiu o movimento militar em Natal, no dia 23 de novembro de 1935, Gregório recebeu ordens do comando revolucionário de Pernambuco — Silo Meireles, Pascácio de Sousa, capitão Otacílio de Lima, tenente Lamartine Coutinho, tenente Alberto Besouchet, o próprio Gregório e José Caetano Machado, secretário-geral do PCB no Nordeste — para desencadear a luta em Recife na manhã do dia 24, um domingo. Segundo Gregório, a ordem foi da responsabilidade exclusiva de José Caetano Machado. Contudo, avisadas dos acontecimentos em Natal e desconfiadas da possibilidade de eclosão de movimento semelhante em Recife, as autoridades militares locais tomaram providências para a sua desarticulação. Desse modo, ao chegar ao quartel-general da 7ª RM na manhã do dia 24, Gregório encontrou o quartel quase vazio, pois os soldados e oficiais haviam sido autorizados a almoçar em casa.

Tentando ainda assim iniciar um levante no quartel-general em apoio à Vila Militar e ao 29º BC de Socorro, já rebelados, passou a separar armas para os insurretos. Surpreendido, travou luta corporal com oficiais que lhe deram voz de prisão, sendo ferido na coxa e alvejando seus dois perseguidores. Deixou o quartel-general trocando tiros com elementos legalistas, tentando inutilmente encontrar os companheiros comprometidos com o movimento ou conseguir adesões de populares. Na luta, foi morto o tenente Xavier Sampaio. Rumou para a sede do Tiro de Guerra, que ocupou sozinho, assaltou uma delegacia de polícia e retornou ao Tiro de Guerra, aguardando em vão a chegada de duzentos homens que lhe haviam sido prometidos.

Em seguida, já sem esperanças, seguiu numa ambulância para o pronto-socorro, com um médico comprometido com a revolução, a fim de tratar de seu ferimento, que sangrava muito. Ainda na mesa de operações, foi preso e levado para o Hospital Militar de Recife. O movimento foi derrotado após quatro dias de luta em vários pontos de Pernambuco. No Rio Grande do Norte, ocupou o poder durante quatro dias, e nos demais estados do Nordeste não chegou a eclodir. No resto do país, apenas no Rio de Janeiro ocorreram levantes, esmagados ao cabo de poucas horas de combate.

No início de 1936, quando Luís Carlos Prestes foi preso, intensificou-se a repressão no país. A partir de então, Gregório Bezerra foi submetido a severas torturas. Seu irmão, José Lourenço Bezerra, também foi preso, em agosto de 1936, e morreu alguns dias depois, vítima de sevícias. Esta morte provocou protestos inclusive na Câmara dos Deputados, tendo sido responsabilizados pelo fato o então delegado de polícia Etelvino Lins e o capitão Frederico Mindelo. Os dois repeliram as acusações. Entretanto, o promotor Arnóbio Tenório Wanderley requereu novas diligências para esclarecer o fato. Exumado o cadáver, exames periciais concluíram que a morte havia sido causada por torturas. Com a decretação do Estado Novo, as investigações foram suspensas.

Julgado pelo Tribunal de Segurança Nacional, Gregório Bezerra foi condenado a uma pena de 27 anos e meio de prisão. Da Casa de Detenção de Recife, onde se encontrava desde que fora preso, foi transferido para a ilha de Fernando de Noronha em abril de 1939 e, em 1942, para a ilha Grande, no Rio de Janeiro. Alguns dias antes da decretação da anistia, em abril de 1945, foi novamente transferido, desta vez para o presídio da rua Frei Caneca, no Rio de Janeiro, onde foi companheiro de cela de Luís Carlos Prestes. Finalmente, com a anistia (18/4/1945), foi posto em liberdade.

Com a legalização do PCB ainda em 1945, foi o principal candidato a deputado por Pernambuco à Assembléia Nacional Constituinte na legenda do partido. Eleito no dia 2 de dezembro de 1945 com 14.341 votos, tendo sido o segundo candidato mais votado em Pernambuco, participou dos trabalhos constituintes e, após a promulgação da nova Carta constitucional (18/9/1946) e a transformação da Constituinte em Congresso ordinário, teve seu mandato estendido até janeiro de 1951. Entretanto, só permaneceu na Câmara até o dia 8 de janeiro de 1948, quando os parlamentares eleitos pelo PCB tiveram seus mandatos cassados. Anteriormente, no dia 7 de maio de 1947, o registro do partido fora cancelado pelo Superior Tribunal Eleitoral.

Na Câmara, integrou a Comissão Especial do Vale do São Francisco e proferiu ao todo 22 discursos, abordando, entre outros, os seguintes temas: o direito de voto aos analfabetos e aos soldados, a situação da juventude trabalhadora do Nordeste e a situação dos ex-combatentes. No dia em que teve seu mandato cassado, proferiu um discurso em defesa da mãe solteira, apresentando projeto sobre a matéria.

Logo após a cassação, impetrou, juntamente com os demais parlamentares cassados, um mandado de segurança junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ato da Câmara. O processo só veio a ser julgado em 18 de maio de 1949 e, em sessão presidida pelo ministro Laudo Camargo, o STF negou o mandado.

Uma semana depois de ter deixado a Câmara, Gregório Bezerra foi preso no Rio de Janeiro e transferido para Recife, sob a acusação de ter incendiado o quartel do 15º Regimento de Infantaria, em João Pessoa. Julgado pela 7ª Região Militar, foi absolvido por falta de provas, mas ainda assim viveu na clandestinidade durante nove anos: nesse período, organizou núcleos de sindicatos rurais no Paraná e em Goiás, realizou comícios sobre a necessidade da reforma agrária e angariou assinaturas para o Apelo de Estocolmo, em favor da paz mundial. Em setembro de 1957, foi preso na cidade de Serra Talhada (PE), tendo sido solto pouco dias depois por força de habeas-corpus.

Considerado grande orador, trabalhou ativamente na campanha pela eleição de Cid Sampaio para o governo de Pernambuco (1958), e também nas campanhas de Miguel Arrais de Alencar para a prefeitura de Recife (1960) e para o governo do estado (1962). Além disso, atuou também na organização de sindicatos rurais no Nordeste e dirigiu, em Pernambuco, a campanha pelo registro eleitoral do PCB.

Em abril de 1964, quando ocorreu o movimento militar que depôs o governo de João Goulart, Gregório Bezerra esforçou-se por conseguir armas para entregar aos lavradores dispostos e defender o governo pernambucano. Frustrado em sua intenção, e a fim de evitar um massacre, como assinala em suas Memórias, empenhou-se em desmobilizar os trabalhadores. Encontrava-se no cumprimento dessa tarefa quando foi preso.

Submetido a sevícias no ato da prisão, ficou famosa a fotografia que o mostra, amarrado pelo pescoço, sendo arrastado pelas ruas de Recife. Segundo Bezerra, o coronel Darci Villocq, responsável por sua prisão, convocou, inutilmente, o povo para linchá-lo. Atendendo a pedidos de testemunhas dos fatos, o general Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército, determinou que se interrompessem os maus-tratos.

Em 14 de abril de 1964, Gregório Bezerra teve seus direitos políticos cassados por dez anos com base no Ato Institucional nº 1, promulgado cinco dias antes, e foi condenado a 19 anos de reclusão pela Auditoria de Justiça da 7ª Região Militar em 23 de fevereiro de 1967.

Foi libertado em 6 de setembro de 1969, juntamente com outros 14 presos políticos, em troca da devolução do embaixador norte-americano no Brasil, Charles Burke Elbrick, seqüestrado dois dias antes por um grupo de oposição armada. Seu nome era o primeiro na lista dos prisioneiros exigidos e, embora se opusesse a atos como o seqüestro, considerados por ele uma forma imprópria de luta contra o regime, foi enviado para o México com os demais prisioneiros exigidos no próprio dia 6, sendo todos banidos do território nacional no dia 8, pelo Ato Institucional nº 13.

Exilando-se na União Soviética depois de uma passagem por Cuba, lá viveu durante cerca de dez anos, sendo admitido em 1977 no comitê central do PCB.

Em janeiro de 1979, com o debate sobre a concessão de anistia aos punidos pelos atos de exceção posteriores a 1964, seu nome tornou a aparecer na imprensa brasileira. Em meados do ano, publicou o primeiro volume de suas Memórias e em setembro, após a aprovação da anistia pelo Congresso, retornou ao Brasil.

Em abril de 1980, pouco depois do lançamento (31/3/1980) da Carta aos comunistas, através da qual Prestes formalizou sua cisão com a direção do PCB, Gregório Bezerra, negando-se a tomar posição nessa divergência, propôs a autodissolução do comitê central do partido.

Sua sugestão não foi acolhida e, em maio, desligou-se do órgão máximo do partido, condenando sua linha moderada e se proclamando solidário a Prestes. Seguiu então para Moscou, na ocasião em que também Prestes e Giocondo Dias, o novo secretário-geral do PCB, tomavam o mesmo destino. Em agosto, de regresso da capital soviética, voltou a advertir o comitê central para a orientação política que adotava, classificando-a de “muito direitista”.

Durante o ano de 1980, participou de concentrações do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), conclamando os comunistas a apoiar essa agremiação.

Nas eleições de novembro de 1982, candidatou-se à Câmara dos Deputados pelo estado de Pernambuco, na legenda do PMDB, obtendo apenas uma suplência.

Casou-se com Maria da Silva Bezerra, com quem teve dois filhos.

Faleceu em São Paulo no dia 21 de outubro de 1983.

Além da obra já citada, Memórias (2v., 1979), escreveu o folheto Eu, Gregório Bezerra, acuso! (1967), distribuído enquanto se encontrava preso.

Amélia Coutinho

 

 

FONTES: ARQ. DEP. PESQ. JORNAL DO BRASIL; Bancada; BEZERRA, G. Eu; CÂM. DEP. Deputados; CÂM. DEP. Relação dos dep.; CARNEIRO, G. História; CHAGAS, C. 113; DULLES, J. Anarquistas; FIECHTER, G. Regime; GALVÃO, F. Fechamento; Globo (14/3/80); Jornal do Brasil (22/3, 6/4, 23/5, 19, 25/8/80 e 22/10/83); LEITE, A. Páginas; LEVINE, R. Vargas; MAGALHÃES, I. Segundo; SILVA, G. Constituinte; SILVA, H. 1935.

 

Para enviar uma colaboração ou guardar este conteúdo em suas pesquisas clique aqui para fazer o login.

CPDOC | FGV • Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil
Praia de Botafogo, 190, Rio de Janeiro - RJ - 22253-900 • Tels. (21) 3799.5676 / 3799.5677
Horário da sala de consulta: de segunda a sexta, de 9h às 16h30
© Copyright Fundação Getulio Vargas 2009. Todos os direitos reservados