JOSE ANSELMO DOS SANTOS

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Nome: ANSELMO, cabo
Nome Completo: JOSE ANSELMO DOS SANTOS

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
ANSELMO, CABO

CABO ANSELMO

*militar; rev. marinheiros 1964.

 

José Anselmo dos Santos nasceu em Sergipe no dia 13 de fevereiro de 1941, filho de Joana Balbina dos Santos.

Realizou seus estudos no Seminário e Colégio Salesiano, em regime de internato. Ainda criança, sua mãe levou-o para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, onde se tornou conhecido do público freqüentador de programas radiofônicos de auditório como “menino prodígio”. Em 1958 sentou praça na Marinha, começando a viajar por toda a costa brasileira. Marinheiro de primeira classe de convés, filiou-se no Rio de Janeiro à Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB) em março de 1962, elegendo-se diretor de relações públicas da entidade na chapa encabeçada por João Barbosa. Estudante de direito, ainda em dezembro do mesmo ano chegou à presidência da AMFNB, apoiado pela ala mais radical da entidade, que havia destituído o presidente João Barbosa.

No dia 25 de março de 1964, durante as comemorações do segundo aniversário da AMFNB no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, proferiu violento discurso protestando contra a punição imposta a 12 dirigentes da entidade que se haviam posicionado publicamente a favor das reformas de base propostas pelo presidente da República João Goulart e criticado a intransigência do almirantado em atender às principais reivindicações dos marinheiros. Entre elas incluíam-se o reconhecimento de sua associação; a estabilidade após dez anos; a reforma do regulamento disciplinar, que os impedia inclusive de casar; a alimentação igual à dos oficiais; o direito de voto, assim como aos soldados e analfabetos; a elegibilidade de todos os alistáveis; a anistia ampla e irrestrita aos implicados na revolta dos sargentos da Marinha e da Aeronáutica, irrompida em Brasília em setembro de 1963 em protesto contra a inelegibilidade de representantes da categoria; e a anulação das faltas disciplinares dos associados e dirigentes da AMFNB. O impacto de seu discurso, aliado a toda uma situação de crise nacional, transformou a comemoração em assembléia geral permanente, que decidiu que os marinheiros não acatariam a ordem de prisão dada aos 12 colegas e permaneceriam amotinados no prédio do sindicato até que suas reivindicações fossem atendidas. No dia seguinte o movimento ganhou maior amplitude, com a adesão de parte dos fuzileiros navais enviados pelo ministro da Marinha, almirante Sílvio Mota, para sufocar o motim e dar cumprimento à ordem de prisão. Diante da recusa do comandante do Corpo de Fuzileiros Navais, almirante Cândido Aragão, em sufocar violentamente o motim, Sílvio Mota foi obrigado a utilizar forças da Polícia do Exército, que finalmente conseguiram prender os rebeldes.

No entanto, a determinação do presidente João Goulart em atender às reivindicações dos marinheiros deu origem a uma crise na Marinha que culminou com a exoneração do ministro Sílvio Mota. Antes porém de sua destituição, o ministro havia demitido Cândido Aragão do comando do Corpo de Fuzileiros Navais. Assim, dois dias depois da rebelião, no dia 27 de março João Goulart nomeou o almirante Paulo Mário da Cunha Rodrigues, nome proposto pelos marinheiros, para a pasta da Marinha, determinando ainda a permanência de Cândido Aragão no comando do Corpo de Fuzileiros Navais e ordenando a libertação dos amotinados. No dia seguinte, estes últimos, liderados por José Anselmo, então chamado “cabo” Anselmo, realizaram uma passeata pelo centro do Rio de Janeiro aglutinando mais de três mil pessoas. A reação nos círculos militares não tardou a acontecer e no dia 29 de março, reunidos no Clube Naval, dois mil oficiais da Marinha emitiram um manifesto condenatório às autoridades, no qual se recusavam a voltar a seus navios caso não fosse restabelecida a hierarquia militar, posição que recebeu a imediata solidariedade do Clube Militar.

No dia 30 de março o “cabo” Anselmo esteve ao lado de João Goulart no seu último pronunciamento como presidente da República, num ato promovido pela Associação de Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar, no Automóvel Clube do Rio de Janeiro. No dia seguinte o governo João Goulart foi derrubado pelos militares.

Perseguidos pelo novo regime implantado no país, muitos dos participantes do movimento dos marinheiros foram presos e outros fugiram ou pediram asilo político nas embaixadas, juntamente com representantes dos demais setores ligados ao governo deposto. José Anselmo, cassado pelo Ato Institucional nº 1 (AI-1) em abril de 1964, asilou-se na embaixada do México. Quinze dias depois, porém, deixou a embaixada clandestinamente ajudado pela organização de esquerda católica Ação Popular (AP), para se integrar na luta contra o regime. Preso no dia seguinte, foi levado para a Delegacia de Vigilância do Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro, para aguardar julgamento. Em março de 1966, apoiado por outra organização de esquerda, a Política Operária (Polop), conseguiu fugir da cadeia onde tinha uma vida carcerária privilegiada, exercendo inclusive a função de escrivão. A facilidade de sua fuga — a porta da cela estava aberta — levou a julgamento diversos policiais. Em junho de 1966 foi condenado a cinco anos e meio de reclusão pela sua participação na revolta dos marinheiros e a mais dez anos e dois meses pela fuga da prisão.

No final do ano de 1966 seguiu clandestino para o Uruguai, onde entrou em contato com outros militares brasileiros cassados, filiando-se ao Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), organização liderada pelo ex-governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que agrupava basicamente ex-militares e se preparava nessa época para iniciar um movimento guerrilheiro na serra do Caparaó, em Minas Gerais.

Como representante do MNR chegou a Havana em agosto de 1967 para participar da I Conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), que lançou as bases para a deflagração da guerrilha na América Latina. Nessa conferência defendeu a luta armada como forma superior de luta contra os regimes opressivos e condenou a União Soviética por não haver rompido relações diplomáticas com o novo regime brasileiro. Com o desmantelamento dos planos da guerrilha do Caparaó e a desativação do MNR, ainda em Cuba ligou-se a Aluísio Palhano, líder sindical dos bancários cariocas, e a outros ex-marinheiros, formando o primeiro núcleo de treinamento de guerrilha da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização à qual se integrou.

Retornando ao Brasil clandestinamente em outubro de 1970, foi designado para trabalhar em São Paulo, integrado ao comando regional da VPR. Alguns meses depois, entretanto, uma sucessão de prisões e mortes de militantes, não só da VPR como de outras organizações que tiveram contato com Anselmo, fez com que começassem a surgir suspeitas de que ele fosse um agente policial infiltrado. Além disso, segundo depoimentos de alguns presos políticos na época, Anselmo fora visto detido em instalações de órgãos de segurança em São Paulo em junho de 1971, o que tornava inexplicável sua aparição em liberdade dias depois.

Anselmo, entretanto, nunca admitiu essa prisão e, ao chegar ao Chile em outubro de 1971 para encontrar-se com o comando geral da VPR, negou com veemência o fato. Na ocasião foi fortemente apoiado por Onofre Pinto, um ex-sargento que era influente membro da direção nacional da VPR. Onofre assumiu pessoalmente a responsabilidade por Anselmo e confiou-lhe a tarefa de voltar ao Brasil estabelecendo-se em Recife sob o disfarce de fotógrafo, para reconstruir a organização no Nordeste.

Em janeiro do ano seguinte Anselmo voltou a ser acusado de ser agente policial, dessa vez pela Ação Libertadora Nacional (ALN), que o responsabilizava pela prisão de dois membros de sua direção, depois de um encontro que haviam tido com ele. Novamente Anselmo foi respaldado por Onofre Pinto e mantido em suas funções no Nordeste, sendo a denúncia considerada “a expressão viva da paranóia dos companheiros da ALN”.

Somente em setembro de 1972, após a apresentação de um relatório das testemunhas de sua prisão pelo dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Diógenes Arruda Câmara, Onofre Pinto se viu impossibilitado de seguir defendendo Anselmo. Foi enviado, então, um emissário para contatar os militantes que estavam trabalhando junto a Anselmo no interior do Brasil e avisá-los de que ele era um policial infiltrado. Poucos dias depois, porém, foi divulgada pelos órgãos de segurança uma nota informando a descoberta de um congresso clandestino da VPR nas proximidades de Recife e a morte de seus participantes com a exceção de um, não identificado, que teria conseguido escapar depois de uma intensa troca de tiros com a polícia. A nota não falava no nome de Anselmo e apresentava uma lista de mortos composta pelos militantes da VPR que tinham contato com ele no Nordeste, inclusive a paraguaia Soledad Barret Viedma, grávida de seis meses, com quem vivia maritalmente.

Em fevereiro de 1973, de acordo com a Folha de S. Paulo, a VPR, através de sua direção nacional no Chile, acusou formalmente Anselmo de haver-se tornado, após sua prisão em junho de 1971, agente da Central Intelligence Agency (CIA), condenando-o à morte. Em relação a Onofre Pinto, contra quem não havia provas conclusivas, embora houvesse fortes suspeitas de que também fosse um agente infiltrado, foi tomada a decisão de expulsá-lo da organização.

Segundo o comandante Ivo Acióli Coursouil, chefe do Serviço Federal de Informação e Contra-Informação e chefe do Gabinete Militar do governo João Goulart, José Anselmo já seria um agente do Centro de Informação da Marinha (Cenimar) sob a supervisão da CIA desde antes de 1964. Juntamente com outros agentes infiltrados no movimento dos marinheiros ele “propunha as posições mais radicais e provocativas, de forma a aguçar o clima de contestação à ordem que apressaria a queda de João Goulart”. Ainda segundo a mesma fonte tal denúncia teria sido feita ao próprio presidente dias antes do golpe, sem qualquer conseqüência.

Em junho de 1979 o Superior Tribunal Militar (STM) considerou extinta a punibilidade dos que haviam sido condenados em junho de 1966 pela participação na revolta dos marinheiros, à exceção dos três principais dirigentes, entre eles José Anselmo, condenado a dez anos e oito meses de reclusão. Anselmo, entretanto, continuou sendo considerado desaparecido.

Na clandestinidade há vários anos, em março de 1984 a revista IstoÉ publicou uma entrevista do “cabo” Anselmo, concedida ao jornalista Otávio Ribeiro, na qual ele fornecia sua versão de como passara da militância política na luta armada de esquerda a colaborador dos órgãos de repressão do regime militar. Desde então, novamente Anselmo desapareceu.

Apenas no início de 1999, foi localizado pela reportagem da revista Época na localidade de Itaporanga d’Ajuda, próxima a Aracaju, e prestou longo depoimento ao jornalista Percival de Sousa. Nele, Anselmo confirmou a versão, que anteriormente desmentira, de que havia mudado de lado após a sua prisão no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), em São Paulo, e que foi o principal responsável pelo desmantelamento de organizações de esquerda, em especial da VPR e da ALN. Colaborador próximo do delegado Sérgio Fleury, ele residiu durante um certo tempo nas próprias dependências DOPS no centro de São Paulo, tendo como vizinho de sala o delegado Romeu Tuma. Segundo a reportagem, “era esse o lugar onde se cruzavam as informações entre o DOPS e o DOI-CODI [Departamento de Operações e Informações do Comando de Operações de Defesa Interna], eram analisados os documentos apreendidos, planejadas as invasões de aparelhos da organização [VPR] e orientados os agentes que iriam participar dos interrogatórios para arrancar confissões que permitiriam desdobramentos de outras operações policiais e militares”.

Depois que as duas organizações clandestinas foram desbaratadas, o “cabo” Anselmo saiu de cena. Foi submetido, em 1973, a uma cirurgia plástica no Hospital Albert Einstein que alterou completamente seu rosto, recebeu uma carteira de identidade com o nome trocado e um cadastro de pessoa física novo, documentos que passaria desde então a usar. Esses cuidados foram tomados como forma de proteger Anselmo de eventuais atentados à sua vida por parte de militantes de esquerda. Por intermédio de Sérgio Fleury, conseguiu emprego numa empresa particular de um delegado do DOPS, “que prestava assessorias para empresas e indústrias interessadas em descobrir funcionários com tendências políticas que consideravam perigosas”.

Após a publicação da entrevista concedida à Época, o “cabo” Anselmo voltou à clandestinidade, sob a alegação de temer vingança. No final de 1999, seu depoimento ganhou a forma de livro — Eu, cabo Anselmo, pelo próprio Percival de Sousa.

Em 2006, Anselmo entrou com um pedido de indenização no Ministério da Justiça. Ele alegou que foi expulso da Marinha e que teve os direitos políticos cassados. Em outra ação, pediu reintegração aos quadros da Marinha. Alegando fazer parte de uma farsa histórica, cabo Anselmo participou do programa Canal Livre, da Rede Bandeirante de Televisão, no dia 30 de agosto de 2009. Durante o programa alegou que jamais matou ou torturou ninguém e pleiteou uma identidade formal, já que, desde que foi cassado, não mais conseguiu documentos que provassem sua verdadeira identidade.

Sabrina Guerghe(atualização)

 

 

FONTES: ARQ. DEP. PESQ. JORNAL DO BRASIL; CARNEIRO, G. História; Cruzeiro (18/4/64); Época (15 e 22/3 e 15/11/99); Estado de S. Paulo (2/8 e 5/12/67); Folha de S. Paulo (4 e 14/10/79, 19/12/08); IstoÉ (5/4/78); Jornal do Brasil (7/4/74 e 25/6/79); Playboy; Repórter (20/5/81); Rede GloboLinha Direta.

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