JOSE DIRCEU DE OLIVEIRA E SILVA

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Nome: DIRCEU, José
Nome Completo: JOSE DIRCEU DE OLIVEIRA E SILVA

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
DIRCEU, JOSÉ

DIRCEU, José

*dep. fed. SP 1991-1995, 1999-2002; min. Casa Civ. Pres. Rep. 2003-2005; dep. fed. SP 2005.

 

José Dirceu de Oliveira e Silva nasceu em Passa Quatro (MG) no dia 16 de março de 1946, filho de Castorino de Oliveira e Silva e de Olga Guedes da Silva.

Chegou a São Paulo aos 14 anos, foi office-boy e redator da extinta TV Tupi. Iniciou-se na política através do movimento estudantil, como militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1965 ingressou no curso de direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e de 1966 a 1967 foi presidente do Centro Acadêmico 22 de Agosto, além de vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes. Em 1968 elegeu-se presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE) de São Paulo. Em outubro desse ano participava do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) numa fazenda em Ibiúna (SP), como candidato à presidência da entidade, quando foi preso com outros 738 estudantes pelos órgãos de repressão do regime militar instaurado no país em abril de 1964. Os estudantes foram fichados e, em sua maioria, libertados pouco tempo após a prisão. Contudo, os líderes estudantis mais conhecidos, como José Dirceu e Vladimir Palmeira, permaneceram encarcerados.

Em setembro de 1969, deixou a prisão e o país na leva de 15 militantes de esquerda libertados em troca do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick, sequestrado no Rio de Janeiro. O sequestro, arquitetado pela Dissidência Estudantil da Guanabara, que passou a apresentar-se como Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) — em homenagem ao líder guerrilheiro argentino e herói da Revolução Cubana Ernesto Che Guevara, morto em 8 de outubro de 1967 —, contou com a participação da Aliança Libertadora Nacional (ALN) e teve fim em 7 de setembro, com a viagem dos 15 militantes, que a ditadura considerou banidos, e a publicação na grande imprensa de nota assinada pelos dois grupos de esquerda.

No exílio, José Dirceu viveu em Havana, Cuba, até 1975. Nesse ano, depois de submetido a uma operação plástica no rosto, voltou clandestino ao país e passou a viver em Cruzeiro do Oeste (PR) com o nome de Carlos Henrique Gouveia de Melo. Com a decretação da anistia em agosto de 1979, decidiu retornar à vida pública e voltou a Havana para submeter-se a uma segunda operação plástica e recuperar sua face original. No ano seguinte participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). Nessa época retomou o curso de direito que havia interrompido em 1968, formando-se em 1983. No PT paulista foi dirigente do núcleo Jardim América, secretário de formação política (1981-1983) e secretário-geral do diretório regional (1983-1987). Participou ativamente da campanha das Diretas Já em 1984, e no ano seguinte passou a fazer parte do diretório nacional do PT.

Em novembro de 1986 candidatou-se a deputado estadual constituinte em São Paulo. Eleito, assumiu o mandato em fevereiro seguinte. Durante a elaboração da Constituição estadual foi coordenador da Subcomissão da Ordem Econômica e Social e membro da Comissão de Sistematização. Foi ainda titular das comissões de Finanças e Orçamento e da Ordem Pública, e suplente da Comissão de Cultura, Ciência e Tecnologia. No exercício do mandato estadual destacou-se pela oposição ao governo de Orestes Quércia (1987-1991), propondo várias ações ao Ministério Público e ao Judiciário, relativas especialmente a contratos irregulares de publicidade e à privatização da VASP.

Entre 1987 e 1990 foi secretário-geral do PT e um dos principais articuladores da Frente Brasil Popular, que lançou Luís Inácio Lula da Silva candidato à presidência da República em 1989, nas primeiras eleições diretas após 29 anos, vencidas por Fernando Collor de Melo.

 

Deputado federal

Em outubro de 1990 candidatou-se a uma cadeira na Câmara dos Deputados. Eleito, assumiu o mandato em fevereiro seguinte. Foi membro titular da Comissão de Constituição e Justiça e de Redação (1991) e da Comissão de Defesa Nacional (1991), além de suplente da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática. Mantendo a linha de oposição e fiscalização do governo Collor, foi indicado pelo PT para compor a comissão parlamentar de inquérito (CPI) que apurou denúncias de corrupção no governo, decorrente da ação do ex-tesoureiro de campanha de Collor, Paulo César Farias, o PC. Na CPI, destacou-se pela apuração e divulgação de denúncias que envolviam a ligação da ex-ministra da Economia Zélia Cardoso de Melo com o esquema de tráfico de influência e de corrupção de PC, bem como a vinculação desse esquema com o narcotráfico. Fora do Congresso, foi uma das presenças mais ativas do PT nas mobilizações populares que exigiam o impeachment de Fernando Collor, acusado de crime de responsabilidade por ligações com o esquema PC.

Em 29 de setembro de 1992 votou a favor da abertura do processo de impeachment do presidente Fernando Collor. Afastado da presidência logo após a votação na Câmara, Collor renunciou em 29 de dezembro de 1992, pouco antes da conclusão do processo pelo Senado, sendo então efetivado na presidência da República o vice Itamar Franco, que já vinha exercendo o cargo interinamente desde 2 de outubro.

Em 1993, nas discussões internas do PT sobre o plebiscito que deveria decidir a forma e regime de governo, José Dirceu defendeu o parlamentarismo. Sua posição, compartilhada por boa parte das lideranças do partido, foi derrotada na consulta às bases, que optaram pelo presidencialismo.

No fim daquele mesmo ano, participou de nova CPI importante, a que apurou as denúncias de irregularidades na tramitação do Orçamento do governo federal na comissão encarregada de seu exame no Congresso. A apuração de denúncias sobre esquemas de corrupção envolvendo empreiteiras e contas fantasmas nos bancos resultou no pedido de cassação de parlamentares envolvidos no escândalo. José Dirceu propôs a criação de comissões específicas para a investigação de empreiteiras e bancos e apresentou projetos de lei regulamentando a quebra de sigilo bancário para a fiscalização de transações bancárias de grande porte pela Receita Federal. Propôs também projeto cassando os mandatos dos parlamentares acusados pela CPI que renunciassem antes de seu julgamento pelo Congresso, procurando com isso evitar a perda de direitos políticos.

Em 1994, foi lançado pelo PT candidato ao governo de São Paulo. Fez uma campanha acoplada à de Lula, novamente candidato do PT à presidência, denunciando o uso eleitoral das máquinas públicas federal e estadual. Sua plataforma incluía a adoção de um programa de renda mínima pelo estado de São Paulo, o aumento dos investimentos na área de educação, política habitacional e tarifa única nos transportes da região metropolitana. Ficou em terceiro lugar na disputa, com 11,32% dos votos, enquanto Lula erra derrotado por Fernando Henrique Cardoso, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), eleito em primeiro turno. No segundo turno, em São Paulo, acompanhou a posição do PT, de apoio ao candidato Mário Covas, também do PSDB, justificando esse apoio como, principalmente, um voto contrário ao candidato Francisco Rossi, do Partido Democrático Trabalhista (PDT), a quem classificava de conservador e acusava de corrupção no exercício de mandatos anteriores. Em janeiro de 1995, ao final da legislatura, deixou a Câmara dos Deputados.

Em maio de 1995, em artigo para o jornal O Estado de S. Paulo, fez duras críticas ao deputado José Genoíno (PT-SP), que declarara estar sofrendo “um processo stalinista” movido pela direção nacional do partido, que o teria punido pelo “direito de opinião” e enquadrado sua tendência, a Democracia Radical. No artigo, afirmava que o colega tinha como objetivo classificar o PT como um partido sem propostas, apresentando-se ele e sua corrente como o lado moderno e light da agremiação. Qualificava Genoíno de defensor de uma postura de cooperação com o governo federal, da flexibilização dos monopólios e da emenda do deputado Eduardo Jorge (PT-SP) — membro também da Democracia Radical — sobre a Previdência social, que gerou amplas discussões e críticas no partido.

 

Na presidência do PT

Durante o 10º Encontro Nacional do PT, realizado em agosto de 1995 em Guarapari (ES), José Dirceu, representando a tendência Articulação – agora chamada Unidade na Luta –, da qual Lula também fazia parte, foi eleito presidente do PT, vencendo por 215 votos a 183 o candidato apoiado pelas correntes de esquerda, Hamilton Pereira. O encontro transcorreu em clima tenso, principalmente depois que o economista carioca César Benjamin, ligado às correntes de esquerda, acusou Dirceu de ter sido financiado, em sua campanha para o governo de São Paulo em outubro de 1994, pela construtora Norberto Odebrecht. Com Dirceu, depois de dois anos sob o comando das correntes mais à esquerda, o PT elegeu um moderado para a presidência do partido. O novo presidente assumiu o cargo disposto a diminuir a luta interna e “propor uma abertura do PT para a sociedade, ampliando a política de alianças”.

Diante do risco de perder a chance de uma aliança com o PDT nas eleições municipais de 1996, em setembro de 1995 José Dirceu veio ao Rio de Janeiro, juntamente com Lula, tentar convencer os cinco deputados estaduais petistas a reverem sua posição de votar contra as contas de 1994 dos governos estaduais de Leonel Brizola e Nilo Batista, que dessa forma se tornariam inelegíveis por oito anos.

Em abril de 1996 responsabilizou o presidente Fernando Henrique Cardoso pelo massacre de Eldorado do Carajás (PA), quando 19 trabalhadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foram mortos pela Polícia Militar, numa ação de desapropriação da fazenda Macaxeira. Segundo declarou, a maior responsabilidade política e social, ética e humana pelo ocorrido era do presidente da República, pois este se elegera “prometendo colocar a justiça social e a questão da reforma agrária como prioridades de seu governo”.

Em maio, defendeu uma ampla aliança entre os partidos de esquerda para as eleições municipais de outubro, com a “construção de um programa alternativo para o país, conciliando a estabilidade da economia com crescimento e distribuição de renda, capaz de atrair a classe média e alguns setores empresariais para uma candidatura de oposição a Fernando Henrique Cardoso em 1998”. No caso do Rio de Janeiro, passou a apoiar uma aliança entre PT e PDT em torno do nome do deputado pedetista Miro Teixeira. Contudo, o 9º Encontro Municipal do PT do Rio de Janeiro, realizado ainda naquele mês, decidiu lançar a candidatura do vereador Chico Alencar, contrariando a orientação do diretório nacional. Mesmo tendo apoiado a aliança com o PDT, José Dirceu chegou a participar de algumas atividades de campanha de Chico Alencar, embora o próprio candidato tenha declarado que o apoio da direção nacional do partido fora “tímido e de última hora”. Problema semelhante surgiu em Recife, quando o diretório pernambucano vetou a aliança apoiada pela direção nacional entre o PT e o Partido Socialista Brasileiro (PSB) de Miguel Arrais em torno do deputado federal petista Humberto Costa, que acabou retirando sua candidatura.

Na tentativa de aproximação com setores de centro-esquerda, no segundo semestre de 1996 José Dirceu participou de conversas políticas com o ex-ministro da Fazenda Ciro Gomes, do PSDB, com o presidente do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), Pais de Andrade, e com o ex-presidente Itamar Franco. As discussões centraram-se na possibilidade de formação de uma frente política contra a emenda do Executivo que permitia a reeleição para presidente da República, governadores e prefeitos e de uma ampla aliança de centro-esquerda visando às eleições presidenciais de outubro de 1998. Em setembro de 1996 escreveu um artigo para o jornal Folha de S. Paulo no qual se declarava totalmente contrário à emenda da reeleição, qualificando-a, naquela conjuntura, de “casuísmo político”, destinado apenas a favorecer os então detentores de cargos executivos, principalmente o presidente Fernando Henrique Cardoso.

José Dirceu achou satisfatórios os resultados atingidos pelo PT no pleito de outubro de 1996, quando o partido conseguiu dobrar o número de prefeitos e vereadores, logrando êxito sobretudo em cidades importantes como Porto Alegre (no primeiro turno e pela terceira vez consecutiva) e Belém, apesar da derrota no segundo turno em seis capitais, entre elas São Paulo. Em número de votos, o PT foi a legenda mais votada no primeiro turno e a segunda no segundo turno das eleições. Contudo, ressaltou que “a falta de solidariedade e fraternidade internas e algumas atitudes personalistas” haviam levado à derrota do partido em cidades importantes, como Diadema e Santos.

Em janeiro de 1997, diante das denúncias de que o secretário-geral do PT, Cândido Vacarezza — médico concursado da Prefeitura de São Paulo — recebia sem trabalhar desde abril de 1996, como assessor da presidência da Câmara de Vereadores de São Paulo, então exercida pelo vereador Brasil Vita, do Partido Progressista Brasileiro (PPB), declarou que Vacarezza e o próprio partido estavam sendo “vítimas de uma campanha de execração pública”. Mesmo com sua declaração de que as bancadas e os mandatos pertenciam ao partido, o secretário-geral acabou se afastando de todos os cargos que exercia.

Em fevereiro de 1997, na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados, recomendou à bancada do PT apoio à candidatura do deputado Prisco Viana (PPB-BA), que acabou sendo derrotado pelo deputado Michel Temer (PMDB-SP), apoiado pelo palácio do Planalto. O apoio a um candidato malufista justificava-se, segundo Dirceu, por sua postura de independência, naquele momento, em relação ao Executivo.

Em março seguinte, a Folha de S. Paulo publicou um editorial acusando o PT de “incapacidade de formular propostas concretas para o país”, e José Dirceu, de desprezo pela via institucional. O presidente do PT refutou as acusações do jornal, declarando que o partido estava participando da formação de blocos parlamentares na Câmara e no Senado e governando estados e cidades, o que atestava a importância dada à via institucional. Contudo, para Dirceu, era preciso também apoiar as lutas sociais, como greves e ocupações de terras, para “mudar a situação de paralisia da política do governo na questão do emprego e da reforma agrária”.

Em abril de 1997 intensificou sua participação nas manifestações públicas em várias partes do país contra a venda da empresa estatal Companhia Vale do Rio Doce, juntamente com outras lideranças dos partidos de oposição. Atuou também no âmbito da Justiça, protocolando uma ação direta de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF) com o objetivo de suspender o leilão na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Em sua opinião, o governo deveria “convocar um referendo sobre essa privatização”. No mês seguinte, a estatal foi vendida.

Ainda em maio engajou-se na formação de uma frente antineoliberal para as eleições presidenciais de 1998, aglutinando os tradicionais partidos de esquerda e setores descontentes do PMDB e do PSDB, de acordo com a política de alianças aprovada no 10º Encontro Nacional do PT. Lançou também uma campanha do PT para mobilizar a sociedade e instalar uma CPI sobre as denúncias de compra de votos de deputados para aprovar a emenda da reeleição, além de pedir a demissão do ministro Sérgio Mota, a punição dos parlamentares envolvidos e a anulação da aprovação da emenda na Câmara.

No fim desse mês, admitiu que o PT errara ao não levar adiante a investigação das denúncias feitas em 1993 por Paulo de Tarso Venceslau, ex-secretário de Finanças das administrações petistas de Campinas (SP) e São José dos Campos (SP), sobre irregularidades envolvendo as prefeituras petistas e a Consultoria para Empresas e Municípios (CPEM), empresa que tinha ligações com o advogado e compadre de Lula, Roberto Teixeira. Venceslau declarara também que dirigentes do partido, inclusive José Dirceu, teriam se omitido no esclarecimento das denúncias. No fim de julho, quando a comissão de sindicância do PT nomeada por Dirceu detectou irregularidades nos contratos entre a CPEM e algumas prefeituras, a executiva nacional do partido encaminhou uma solicitação de investigação ao Ministério Público Estadual e a instalação de CPIs nas assembleias legislativas e câmaras municipais. Paulo de Tarso Venceslau seria expulso do PT em março de 1998, em reunião do diretório nacional, com o voto favorável de José Dirceu.

Em julho de 1997, José Dirceu sugeriu, em reunião com as direções do PDT, PSB e Partido Comunista do Brasil (PC do B), o nome do ministro do STF Sepúlveda Pertence para encabeçar a chapa unificada das oposições à presidência da República em outubro de 1998. Sua idéia chegou a ser elogiada pelo presidente do PMDB, Pais de Andrade, mas não conseguiu maiores adesões.

No mês seguinte, viu-se diante de mais um problema antes do 11º Encontro Nacional do PT, que renovaria a direção e definiria a política de alianças para a eleição de 1998. Enfrentando a oposição da bancada petista na Assembleia Legislativa do Espírito Santo em virtude dos projetos de privatização e demissão de funcionários públicos, o governador Vítor Buaiz foi progressivamente se incompatibilizando com o PT. Embora recebesse o apoio da executiva nacional, Buaiz acabou deixando o partido ainda em agosto. Contrário ao afastamento do governador, José Dirceu lamentou o fato e declarou que sua saída “é uma derrota para o PT, porque esse episódio deixará a impressão de que o partido não tem capacidade de resolver suas divergências internas”.

No 11º Encontro Nacional do PT, realizado no Rio de Janeiro, José Dirceu, representando os grupos moderados, foi reeleito presidente nacional do partido, derrotando o candidato das correntes de esquerda, o deputado federal Mílton Temer (RJ), por 284 votos a 256. Como no encontro anterior, o PT mostrou-se bastante dividido, e a vitória de Dirceu se deu por uma pequena margem de votos (28), enquanto a oposição de esquerda conquistava 40 das 85 vagas do diretório nacional. Na ocasião foi aprovada uma política ampla de alianças, que incluía setores do PMDB e PSDB, e a submissão das alianças regionais às negociações nacionais em torno da candidatura de Lula, que seria homologada num encontro nacional extraordinário no primeiro semestre de 1998.

Em setembro de 1997 o PT sofreu mais duas perdas importantes: a dos ex-prefeitos Darci Acorsi, de Goiânia, e Luísa Erundina, de São Paulo, que se transferiram para o PSB. José Dirceu lamentou a saída, mostrando-se preocupado com o crescimento do PSB e uma possível atitude divisionista desse partido.

Nos primeiros meses de 1998, José Dirceu participou de diversas reuniões com lideranças políticas do PDT, PSB e PC do B para consolidar a aliança nacional em torno da candidatura presidencial de Lula, que resultou na indicação de Leonel Brizola como candidato a vice-presidente. Contudo, o maior problema enfrentado por Dirceu se localizou nas alianças regionais, que, conforme resolução do último encontro nacional, deveriam se subordinar à aliança nacional. Em muitos estados, os setores de esquerda do PT conseguiram barrar as coligações, lançando candidaturas próprias. O caso mais complicado aconteceu no Rio de Janeiro, com a aprovação, na convenção regional, da candidatura de Vladimir Palmeira ao governo do estado. O PDT exigia o apoio do PT a seu candidato, Anthony Garotinho, para selar a aliança nacional. José Dirceu chegou a ameaçar deixar a presidência do partido, e Lula, a candidatura presidencial, se a convenção fluminense não voltasse atrás na candidatura de Vladimir Palmeira. Em maio, o diretório nacional do PT revogou a decisão da convenção fluminense e aprovou a aliança com o candidato do PDT, que, tendo a senadora petista Benedita da Silva como candidata a vice, acabaria vencendo a disputa.

Em outubro, como no pleito anterior, Lula foi derrotado por Fernando Henrique no primeiro turno, mas, mais uma vez, viu sua votação crescer: obteve 31,71% dos votos válidos. O PT conquistou três governos estaduais: Rio Grande do Sul, com Olívio Dutra, Mato Grosso do Sul, com Zeca do PT, e Acre, com Jorge Viana. Elegeu ainda três senadores (com uma vaga em disputa por estado) e manteve a trajetória de crescimento na Câmara dos Deputados, com 58 deputados eleitos, um deles José Dirceu.

 

Novamente deputado federal e presidente do PT

Ao assumir o mandato em fevereiro de 1999, Dirceu manteve a postura de oposição ao governo de Fernando Henrique Cardoso. Em agosto, defendeu o rompimento do acordo do governo com o FMI e a renegociação da dívida externa do país. Apoiou, também, iniciativa capitaneada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e por mais 20 entidades da sociedade civil, pedindo a realização de um plebiscito sobre o pagamento da dívida externa brasileira. Propôs o decreto legislativo de referendo popular sobre os acordos do governo brasileiro com o FMI, e a realização de uma auditoria da dívida externa brasileira. Manifestou-se, no entanto, contrário à adoção do lema “Fora FHC”, defendido por setores da esquerda do PT, lembrando a missão do partido de governar nas quatrocentas cidades e nos sete estados nos quais participava das administrações. Propôs também a manutenção da frente de partidos de esquerda, integrada pelo PDT, PSB, PC do B e PCB, e a ampliação de alianças com setores do PMDB, como estratégia para as eleições 2000 e 2002.

Em novembro de 1999, foi reeleito para mais um mandato como presidente nacional do PT, com 55 % dos votos, derrotando novamente o candidato da esquerda Milton Temer. Nas eleições municipais de outubro de 2000, o PT conquistou um total de 187 prefeituras, entre as quais seis capitais estaduais — incluindo São Paulo, com Marta Suplicy. Dirceu declarou então que considerava a situação do partido “excelente”, por ter construído uma imagem de “democrático” e “bom administrador”.

Em setembro de 2001 foi reeleito para seu quarto mandato como presidente nacional do PT, no primeiro pleito direto realizado pelo partido, que contou com a participação de cerca de 200 mil militantes, obtendo novamente 55% do total de votos. Sua vitória representou o fortalecimento das correntes moderadas do partido, reunidas na tendência Campo Majoritário, que pregavam a ampliação da política de alianças com os partidos de centro e o abandono da bandeira da construção de uma sociedade socialista. Na mesma eleição, o Campo Majoritário formou ampla maioria no diretório nacional do PT. Durante sua campanha, Dirceu defendeu a visão de que o PT tinha que se “preparar para ser governo”. O projeto dominante no partido passou então a centrar-se na defesa da honestidade, na promessa de mudanças “sem turbulência” e na experiência administrativa.

Ainda em 2001, Dirceu viajou à China em missão oficial como representante da Câmara dos Deputados. Em fevereiro de 2002 a Comissão Especial de Anistia do Ministério da Justiça concedeu-lhe uma indenização no valor de 59,4 mil reais como compensação pelas consequências do banimento que lhe fora imposto pelo regime militar entre 1969 e 1979.

Em 2002, Dirceu foi um dos principais condutores das articulações que viabilizaram a candidatura petista à presidência da República. Colaborou diretamente para a formação da coligação entre o PT e o Partido Liberal (PL), que levou à escolha do nome do empresário e senador mineiro José de Alencar como candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Lula. Coordenador-geral da campanha eleitoral — juntamente com Antônio Palocci, então prefeito licenciado de Ribeirão Preto, e o ex-deputado federal Luís Gushiken —, em junho teve seu nome envolvido em denúncias de irregularidades na arrecadação de recursos para campanhas eleitorais do PT. As acusações foram feitas pelo médico João Francisco Daniel, irmão do ex-prefeito de Santo André (SP), Celso Daniel (PT), que fora assassinado em janeiro anterior durante um sequestro, e apontavam a existência de um esquema de cobrança de propinas envolvendo funcionários daquela prefeitura. O montante coletado ilegalmente somaria 1,2 milhão de reais e teria sido entregue a Dirceu para o financiamento de campanhas do partido, inclusive a de Lula. Foi então solicitada pelo procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, a abertura de inquérito criminal para investigar a participação, no esquema de cobrança de propinas, do presidente do PT e também de Gilberto Carvalho, ex-secretário-geral do partido. Na ocasião, Dirceu refutou como caluniosas as acusações, que atribuiu a manobras com o objetivo de prejudicar a campanha presidencial do PT, que apresentava chances de se tornar vitoriosa. No mês seguinte, o inquérito foi arquivado por determinação do ministro do STF Nelson Jobim, que considerou não existirem indícios que apontassem a participação de Dirceu em irregularidades.

Com o crescimento da candidatura de Lula nas pesquisas eleitorais, Dirceu tornou-se interlocutor privilegiado do presidente Fernando Henrique Cardoso, com quem manteve contatos em diversas ocasiões. Reiterou a posição assumida por Lula na chamada “Carta ao Povo Brasileiro”, divulgada no mês de julho, na qual o candidato do PT afirmava sua intenção de respeitar os compromissos financeiros firmados pelo governo tucano, defendendendo o equilíbrio das contas públicas e o controle da inflação. Também graças ao esforço de Dirceu, os ex-presidentes José Sarney e Itamar Franco manifestaram seu apoio à candidatura petista.

Nas eleições gerais de outubro, Luís Inácio Lula da Silva, apoiado pela Coligação Lula Presidente (PT, PL, PC do B, Partido da Mobilização Nacional (PMN) e PCB), venceu a disputa no segundo turno contra José Serra (PSDB e PMDB), com 61,27% dos votos válidos. O PT elegeu, ainda, os governadores dos estados do Mato Grosso do Sul, do Piauí e do Acre, num resultado pior do que o de 1998. Obteve, no entanto, uma vitória expressiva ao eleger a maior bancada na Câmara dos Deputados (91 cadeiras) e dez senadores. Dirceu foi reeleito deputado federal com 556.563 votos, a segunda maior votação do estado de São Paulo.

Após a confirmação da vitória de Lula, ainda em outubro, Dirceu deu início a entendimentos com as lideranças dos partidos que haviam apoiado a candidatura petista, com o objetivo de formar a base de apoio ao novo governo. Reafirmou, mais uma vez, que o governo do PT não promoveria alterações na política econômica conduzida por Fernando Henrique Cardoso, e que em 2003 seriam adotadas medidas de transição, com a manutenção do superávit primário e da política de juros, evitando-se a volta da inflação. Anunciou que o novo governo teria como prioridades o combate à fome e a reestruturação da segurança pública, principais compromissos de campanha de Lula. No mesmo mês, declarou à imprensa que a transição de governo seria tranquila, “porque o país vive no regime democrático e o presidente Fernando Henrique está tendo um papel importantíssimo para que tudo ocorra na maior segurança”.

Em novembro, Dirceu foi designado coordenador político da equipe de transição de governo, que contava 51 participantes. No mês seguinte, afastou-se da presidência nacional do PT, sendo substituído no cargo por José Genoíno, escolhido pelo diretório nacional.

 

Na Casa Civil da Presidência da República

Em 1º de janeiro de 2003 José Dirceu licenciou-se da Câmara dos Deputados para tomar posse como ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República. Em seu discurso de posse, destacou a ascensão da esquerda ao poder com a vitória do PT nas eleições para a presidência, homenageou antigos companheiros mortos na luta contra a ditadura militar e prometeu que o governo de Lula iria realizar uma “verdadeira revolução social”. Manifestou também na ocasião seu apoio a Antônio Palocci, nomeado para o Ministério da Fazenda, e à política econômica do novo governo.

Juntamente com Palocci, Luís Dulci, secretário-geral da Presidência da República, e Luís Gushiken, secretário de Comunicação, José Dirceu integrava o chamado “núcleo duro” do governo, que definiu as diretrizes do primeiro mandato de Lula. Responsável, na Casa Civil, pela coordenação política do governo, atuou diretamente não só na indicação de nomes para o ministério, como nas articulações para a composição das mesas diretoras do Senado e da Câmara dos Deputados. Assim, em fevereiro, quando se licenciou da Casa Civil para tomar posse do mandato de deputado federal, que deixou em seguida para reassumir o posto no governo, apoiou a candidatura de José Sarney (PMDB) para a presidência do Senado e a de João Paulo Cunha (PT) para a da Câmara dos Deputados. Atuou também no controle e na supervisão do preenchimento dos quase 20 mil cargos de confiança da administração federal. A partir de fevereiro, passou a acumular essas funções com o comando do Sistema de Acompanhamento do Legislativo (Sial), que coordenava as relações entre o Executivo e o Congresso Nacional, transferido por decreto de Lula da Secretaria-Geral da Presidência para a Casa Civil. Essa mudança garantiu a Dirceu o controle dos instrumentos institucionais necessários para acompanhar a tramitação de projetos considerados prioritários pelo governo. Na prática, o comando do Sial ampliou de forma considerável o papel do ministro-chefe da Casa Civil, que chegou a ser chamado pela imprensa de “superministro”. A Subchefia de Assuntos Parlamentares da Casa Civil, ocupada pelo assessor de Dirceu, Waldomiro Diniz, foi definida como órgão central do Sial.

Embora publicamente Dirceu apoiasse as decisões da equipe econômica de Lula, no mês de maio, durante um seminário sobre a Previdência promovido pelo PT, admitiu que o governo estava “desestimulando e segurando a atividade econômica” ao manter a taxa básica de juros em 26,5%. O comentário teria sido feito sem que o ministro soubesse estar sendo ouvido por jornalistas. No mês seguinte, com a apresentação ao Congresso Nacional dos projetos da reforma tributária e da Previdência, Dirceu passou a priorizar os entendimentos com deputados da bancada petista e também com as lideranças da oposição, com o objetivo de garantir a aprovação das medidas. Em julho, por determinação de Lula, passou a acumular mais uma função, ao assumir a coordenação dos programas sociais mantidos com verbas da União. A unificação das iniciativas da área social teve como objetivo evitar a duplicidade no recebimento dos diversos benefícios.

No mês de setembro, Dirceu declarou ser favorável à integração militar dos países da América do Sul, com o objetivo de ajudar a Colômbia no combate às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) de modo que os atritos do governo do país com os guerrilheiros não servissem de pretexto para uma intervenção norte-americana.

Em novembro, intensificou os entendimentos com parlamentares tendo em vista a aprovação da reforma da Previdência no Senado. Suas gestões também tinham em vista a incorporação do PMDB, de maneira a ampliar a base aliada do governo. Em dezembro, apoiou a decisão do diretório nacional do PT, de expulsar a senadora Heloísa Helena (AL) e os deputados Luciana Genro (RS), João Batista de Araújo, o Babá (PA), e João Fontes (SE), que votaram contra a reforma da Previdência, em razão da necessidade de garantir a unidade e a coesão do partido. O episódio levaria a uma cisão no interior do PT, tendo os quatro parlamentares expulsos participado da formação de uma nova legenda, o Partido Socialismo e Liberdade (Psol). Em 19 do mesmo mês, as reformas da Previdência e tributária foram promulgadas pelo Congresso Nacional.

Dirceu atuou novamente na definição dos nomes que passaram a integrar o governo na reforma ministerial de janeiro de 2004. Suas próprias atribuições foram, no entanto, bastante reduzidas, em função da criação do Ministério da Articulação Política, para o qual foi nomeado o deputado federal Aldo Rebelo (PC do B). Essa mudança foi interpretada como uma redução do poder exercido por Dirceu no primeiro ano do governo Lula e atribuída aos crescentes atritos com outros nomes do ministério, em especial com Antônio Palocci, em função das críticas que fazia à política econômica. Sua pasta teve seu escopo redefinido e ficou então encarregada dos programas e do gerenciamento da máquina federal, passando a monitorar a execução orçamentária e o andamento dos principais projetos conduzidos pelos ministérios. Dirceu assumiu a coordenação das câmaras setoriais e dos grupos de trabalho interministeriais e passou a integrar a junta de execução orçamentária do governo. Em razão de suas novas funções, foi chamado por Lula de “gerentão”. Em fevereiro de 2004, assumiu a presidência do recém-criado Conselho Superior de Cinema.

Também em fevereiro de 2004, a primeira grave crise política do governo Lula envolveu diretamente o nome do ministro-chefe da Casa Civil. A crise teve início com a divulgação, pela revista Época, do conteúdo de um vídeo no qual Waldomiro Diniz, subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil, era flagrado cobrando propina de um empresário do ramo de jogos. Supostamente, os recursos arrecadados seriam destinados ao financiamento das campanhas do PT. A gravação do vídeo ocorrera em 2002, quando Waldomiro presidia a Loterj, autarquia responsável pelo gerenciamento e fiscalização das loterias do estado do Rio de Janeiro, no governo de Benedita da Silva (PT). As primeiras acusações contra o assessor de Dirceu haviam sido feitas em junho do ano anterior, quando reportagem da revista IstoÉ levantara seu suposto envolvimento com operadores de máquinas ilegais de caça-níqueis. Investigações então conduzidas pelo Ministério Público Federal apontaram também a participação de Waldomiro em negociação irregular de contrato firmado entre a Caixa Econômica Federal e a GTech do Brasil, empresa especializada no setor de loterias.

Como subchefe de Assuntos Parlamentares, Waldomiro tinha como atribuições manter contato com deputados e senadores e negociar com os partidos da base aliada, por ocasião das votações, respondendo diretamente a José Dirceu. A divulgação das denúncias levou à demissão de Waldomiro e antecedeu a decisão de Lula de proibir o funcionamento dos bingos no país. Foi cogitada, então, pela primeira vez, a demissão de José Dirceu da Casa Civil. Ainda em fevereiro, o governo conseguiu barrar a iniciativa de criação de uma CPI no Congresso Nacional para apurar as denúncias de irregularidades praticadas por Waldomiro Diniz, contando para tanto com o apoio decisivo do presidente do Senado, José Sarney, e do líder do governo nessa casa, Aluísio Mercadante.

Em março de 2004, em entrevista à revista Veja, Dirceu declarou que não afastara Waldomiro Diniz na época em que haviam surgido as primeiras suspeitas porque o próprio assessor teria então solicitado formalmente à Polícia Federal, ao Ministério Público e à Controladoria-Geral da União que investigassem o caso. O ministro-chefe da Casa Civil frisou que não fora então encaminhada qualquer denúncia de corrupção ocorrida durante o governo Lula, já que a acusação contra Waldomiro referia-se a um fato ocorrido anteriormente, no estado do Rio de Janeiro. Negou ainda que Waldomiro Diniz tivesse sido seu principal assessor na Casa Civil ou que fosse seu “braço direito”, conforme fora noticiado na imprensa, e rejeitou veementemente a hipótese de deixar o governo, com a declaração de que “não participei, não apoiei, não tinha conhecimento. Não devo sair”. Asseverou também que, após 40 anos de vida pública, “não é um fato como esse, que, repito, é grave e cujas providências legais cabíveis foram tomadas, que vai manchar minha biografia”. Ainda em março, considerando o caso Waldomiro Diniz como encerrado, afirmou que “este é um governo que não rouba e não deixa roubar”.

Nos meses seguintes, no entanto, novas suspeitas seriam levantadas contra pessoas próximas a Dirceu. Em maio, foram apontadas irregularidades no recebimento de recursos através da Organização Não Governamental Ágora, da qual fora conselheiro o então secretário-executivo da Casa Civil, Swedenberger Barbosa, durante a gestão de Cristovam Buarque (PT) no governo do Distrito Federal. Marcelo Sereno, chefe da assessoria especial da Casa Civil, deixou o governo sob a acusação de que fora alertado sobre as atividades de Waldomiro Diniz, sem que tivesse encaminhado providências a respeito.

Em abril, Dirceu encaminhou ao Congresso Nacional projeto de lei preparado pela Casa Civil regulamentando a ação das agências reguladoras. Em julho, assumiu a presidência da Câmara de Desenvolvimento Econômico, criada por Lula e integrada por 13 ministros, com competência para formular políticas e estabelecer diretrizes gerais e planos nacionais e regionais de desenvolvimento. A criação do novo órgão e a atribuição de seu comando a Dirceu foram interpretados como um sinal da recuperação do poder exercido pelo ministro da Casa Civil na imposição da agenda do governo, o qual fora abalado com as mudanças introduzidas pela reforma ministerial e com o surgimento do “caso Waldomiro”. No mês seguinte, em discurso pronunciado em evento com empresários e políticos no Rio de Janeiro, Dirceu lançou a candidatura de Lula à reeleição, declarando que o projeto do governo demandava um mandato de oito anos para ser implementado.

Em setembro, reportagem de Veja denunciou pela primeira vez a existência de um acordo negociado por José Dirceu e o deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, pelo qual o PT se comprometia a transferir para aquele partido a quantia de dez milhões de reais, em troca de apoio às iniciativas do governo nas votações do Congresso Nacional. Além de Dirceu, a formalização do acordo teria contado com a participação do presidente do PT, José Genoíno. Na ocasião, José Dirceu negou as informações divulgadas pela revista. O tesoureiro do PT, Delúbio Soares, confirmou no entanto que fora feito um acordo político entre as duas legendas, sem caráter pecuniário.

Em dezembro, Dirceu foi escolhido por Lula para anunciar as prioridades do governo para o ano de 2005. Declarou então que os maiores desafios concentravam-se na área de infraestrutura. Destacou os objetivos do governo relativos ao meio ambiente, ao combate ao crime organizado, à política industrial, tecnológica e de comércio exterior e à ampliação da poupança e do crédito para as diversas atividades, como o agronegócio, a agricultura familiar e a indústria. Lembrou também a necessidade de consolidar as duas principais iniciativas do governo na área social, o programa Fome Zero e o Bolsa Família. No mesmo mês, Dirceu assumiu a coordenação da recém-criada Comissão de Averiguação e Análise de Informações Sigilosas, encarregada de decidir sobre a aplicação de ressalva ao acesso a documentos públicos classificados como de caráter sigiloso. Defendeu então a abertura dos arquivos da repressão da ditadura militar, por entender ser um “erro grave não contar toda a verdade para o país”.

Em maio de 2005, novas e graves denúncias voltaram a comprometer o nome de José Dirceu. A crise foi deflagrada com a revelação de um esquema de corrupção envolvendo licitações nos Correios, contando com a participação do deputado federal Roberto Jefferson, sobre quem já haviam sido levantadas suspeitas de participação em esquema de compra de votos, juntamente com Dirceu. Com o apoio de parlamentares do próprio PT e também dos partidos da base aliada do governo, no dia 26 do mesmo mês foi instalada uma comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) para investigar as denúncias, que ficou conhecida como CPMI dos Correios. Na ocasião, Dirceu declarou considerar desnecessária a criação da CPMI, uma vez que a apuração das denúncias fora encaminhada através de inquérito policial, aberto por determinação do ministro da Justiça, Márcio Tomaz Bastos. Ainda em maio, no programa Roda Vida, da TV Cultura, Dirceu voltou a declarar que “este é um governo que não rouba, não deixa roubar e combate a corrupção”.

No centro das denúncias atingindo os Correios e também o Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), empresas que contavam com indicados do PTB em seus quadros, Roberto Jefferson concedeu em 6 de junho entrevista ao jornal Folha de S. Paulo em que denunciou a existência do chamado “mensalão”, que consistiria no pagamento de uma mesada de 30 mil reais a deputados de partidos integrantes da base aliada pelo PT, em troca do apoio aos projetos de interesse do governo. A distribuição da mesada seria feita pelo tesoureiro do PT, Delúbio Soares, através de operadores como o publicitário mineiro Marcos Valério Fernandes de Sousa e o deputado José Janene (PP). No dia 14, José Dirceu foi acusado por Jefferson, em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, de comandar o mensalão. Segundo o presidente do PTB, estariam envolvidos no esquema, além do ministro-chefe da Casa Civil e de Delúbio Soares, o presidente do PT, José Genoíno, e o secretário-geral do partido, Sílvio Pereira.

Como consequência do desgaste provocado pelas denúncias, Dirceu deixou a Casa Civil em 16 de junho. Em pronunciamento feito na mesma data, declarou que a decisão de sair do governo fora tomada em acordo com o presidente Lula, negando, porém, que tivesse sido motivada pelas acusações do presidente do PTB, que não apresentara provas que as sustentassem. Assegurou ainda que, de volta à militância no PT, passaria a combater aqueles que, em sua avaliação, pretendiam “desestabilizar o governo” e “interromper o processo democrático”. Foi substituído na Casa Civil pela então ministra das Minas e Energia, Dilma Roussef, que tomou posse em 20 do mesmo mês.

 

Volta à Câmara e cassação do mandato

José Dirceu reassumiu sua cadeira na Câmara dos Deputados em 22 de junho de 2005. Em seu primeiro discurso em plenário, fez a defesa das ações do governo de Lula e da política de alianças do PT e prometeu “esclarecer ao país, à opinião pública, os temas que hoje estão em debate na sociedade, tanto com relação às profundas transformações econômicas, sociais e políticas que estamos fazendo sob a liderança de Lula, como as denúncias infundadas contra a minha pessoa, o meu partido e o meu governo”. Comprometeu-se também a apoiar todas as investigações conduzidas nesse sentido pela Polícia Federal, pelo Ministério Público e pelo Congresso Nacional. No dia seguinte, em depoimento à Corregedoria da Câmara, negou veementemente todas as acusações feitas por Roberto Jefferson relativas à sua suposta participação em esquema de compra de votos. No final de junho, foi instalada a CPI dos Bingos, que fora solicitada desde o ano anterior para investigar as denúncias surgidas com o caso Waldomiro Diniz, e que o governo, até então, conseguira barrar. A CPI do Mensalão, voltada para a apuração das denúncias sobre o esquema de compra de votos, foi instalada em 20 do mês seguinte.

Em 2 de agosto, o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados promoveu uma acareação entre José Dirceu e Roberto Jefferson. Na ocasião, Dirceu desmentiu novamente qualquer envolvimento no esquema do mensalão, declarando que não renunciaria ao mandato de deputado federal. Atacou aqueles que o denunciavam por julgar que as tentativas de implicá-lo nas acusações de corrupção tinham por fim abalar o governo. Negou também que tivesse tido participação na negociação de empréstimos, contraídos pela direção do PT, com a intermediação do publicitário Marcos Valério, para levantamento de recursos destinados ao “caixa 2” de campanhas petistas. No mesmo dia, o PTB apresentou ao Conselho de Ética da Câmara requerimento de abertura de processo de cassação do mandato contra Dirceu, sob a acusação de quebra de decoro parlamentar. A representação do PTB incluiu ainda os deputados Sandro Mabel e Valdemar Costa Neto (PP), igualmente sob suspeita de envolvimento no mensalão.

Com o desenrolar das investigações na Câmara, conduzidas pelo Conselho de Ética e pela CPI do Mensalão, surgiram diversos indícios desfavoráveis a Dirceu. As apurações indicavam que seu assessor Roberto Marques teria sido autorizado a sacar em uma conta de Marcos Valério, e que sua ex-mulher, Maria Ângela Saragoça, teria realizado operações de empréstimo e de venda de imóvel, intermediadas pelo publicitário mineiro. Também surgiram indícios de uma suposta participação de Dirceu em entendimentos intermediados por Valério com o Banco Espírito Santo, instituição financeira portuguesa acionista da Portugal Telecom, tendo em vista, segundo depoimento de Jefferson, a negociação de dívidas do PT e do PTB. Outros depoimentos apontaram para o envolvimento de Dirceu no esquema do mensalão, como o do próprio Marcos Valério e o de sua mulher, Renilda de Sousa. Em 9 de agosto, o Conselho de Ética aprovou a abertura do processo de cassação do mandato de José Dirceu.

Em setembro, em novo depoimento ao Conselho de Ética da Câmara, Dirceu declarou que estava sendo vítima de um julgamento político. Lembrou que não era réu confesso e frisou que não havia provas documentais que sustentassem as acusações de que tivesse tido envolvimento em esquema de compra de votos. Após prestar depoimento a portas fechadas na Corregedoria daquela casa, declarou que “querem me cassar porque eu sou eu, porque fui presidente do PT, porque o Lula foi eleito”. Lembrou ainda que tinha permanecido 30 meses no governo sem que tivesse sido aberto qualquer processo de ação popular contra sua gestão, e que suas contas na Casa Civil haviam sido aprovadas. No mesmo mês, em entrevista â Folha de S. Paulo, refutou que devesse ser responsabilizado sozinho pela política de alianças do PT, que fora aprovada pela maioria, afirmando que o presidente Lula também era responsável pela crise política.

Em sua defesa, José Dirceu negou com veemência qualquer responsabilidade no pagamento de mesadas a parlamentares ou na arrecadação de dinheiro para a formação de “caixa 2” para campanhas eleitorais. Considerou a acusação como inepta por basear-se em afirmações de Marcos Valério e de sua mulher, sem que tivessem sido indicados os nomes dos parlamentares beneficiados pelo esquema ou os projetos cuja votação fora viciada. Como testemunhas de defesa de Dirceu, foram ouvidos pelo Conselho de Ética da Câmara os deputados Aldo Rebelo, Eduardo Campos (PSB), Arlindo Chinaglia (PT) e José Genoíno, que deixara a presidência do PT, além do ministro da Justiça, Márcio Tomaz Bastos, e do escritor Fernando de Morais.

Em 18 de outubro, o relator do processo de quebra de decoro parlamentar contra José Dirceu no Conselho de Ética, Júlio Delgado (PSB), apresentou voto favorável à sua cassação. Em seu relatório, Delgado declarou que a apuração realizada reunia indícios de que Dirceu fora o mentor do mensalão. A defesa de Dirceu recorreu ao STF, questionando a competência do Conselho de Ética da Câmara para investigar as denúncias, uma vez que o ex-ministro da Casa Civil não estava no exercício do mandato de deputado quando os supostos atos ilegais teriam sido praticados. Alegou, também que o Conselho de Ética não poderia ter negado o pedido apresentado pelo PTB, de retirada da representação contra Dirceu, entre outros argumentos. As alegações foram rejeitadas pelo tribunal, que decidiu que o processo contra Dirceu deveria ter seguimento. Ainda em outubro, Dirceu obteve uma decisão favorável do STF, que mandou lacrar dados sigilosos do deputado, transferidos de investigação feita pela CPI do Mensalão para o processo de cassação.

Em 3 de novembro, o Conselho de Ética da Câmara aprovou por 13 votos a um parecer pedindo a cassação de José Dirceu por quebra de decoro parlamentar. Dirceu enviou então carta a 513 deputados, que participariam do julgamento em plenário, na qual alegava estar sofrendo um processo injusto e contestava diversos pontos do relatório do Conselho de Ética. Em 17 de novembro, a CPI do mensalão encerrou seus trabalhos, sem acordo sobre seu relatório final. Em 1º de dezembro o STF rejeitou o último pedido de Dirceu para adiar o julgamento, e a Câmara dos Deputados aprovou sua cassação por 293 votos a 192. Dirceu teve o mandato cassado e seus direitos políticos suspensos por um período dez anos, tornando-se inelegível até 2015.

Em entrevista coletiva concedida no dia seguinte ao da cassação, Dirceu anunciou que pretendia trabalhar como advogado e seguir fazendo política. Declarou, entretanto, que não esperava mais ocupar cargos de governo. Voltou a afirmar que sua cassação fora “política” e “que o país sabia por que fora cassado”, referindo-se a perseguições de que teria sido vítima.

Em março de 2006, José Dirceu entrou com mandado de segurança no STF com o objetivo de anular o processo disciplinar que determinara sua cassação. Segundo seus advogados, o processo tramitara de forma irregular porque o plenário teria aprovado relatório diferente do apreciado pelo Conselho de Ética, do qual fora suprimido depoimento da presidente do Banco Rural, Kátia Rabelo, testemunha da acusação. No dia 11 de abril, o procurador-geral da República, Antônio Fernandes de Sousa, apresentou ao STF denúncia contra os acusados do mensalão, qualificando-os de “organização criminosa” e pedindo o indiciamento de 40 pessoas, entre as quais José Dirceu. A lista de pedidos de indiciamento atingia dirigentes e ex-presidentes de quatro bancos (Rural, BMG, Santos e do Brasil), três presidentes dos Correios entre 2000 e 2005, e integrantes da cúpula do PT em 2003 e 2004. Em agosto de 2007, o STF aceitou as denúncias encaminhadas pelo procurador-geral. José Dirceu passaria a responder a processo criminal por corrupção ativa e formação de quadrilha. Em junho de 2008, o STF negou oito embargos de declaração propostos por José Dirceu e outros réus do processo de mensalão. Em 17 de janeiro de 2009, o juiz Alaor Piacini, da 9ª Vara Federal de Brasília, excluiu José Dirceu e o ex-ministro dos Transportes Anderson Adauto de uma ação de improbidade administrativa referente ao mensalão.

A partir de 2006, José Dirceu passou a dedicar-se às atividades de advogado e consultor. Continuou a militância no PT, integrando a tendência Construindo um novo Brasil, que substituiu o Campo Majoritário e manteve a hegemonia no partido.

Foi casado com Clara Oliveira, com quem teve um filho, José Carlos Becker de Oliveira e Silva, conhecido como Zeca Dirceu, que também fez carreira política no PT, elegendo-se por duas vezes, em 2004 e 2008, prefeito de Cruzeiro do Oeste. De seu casamento com Maria Ângela Saragoça teve uma filha. Teve ainda mais uma filha.

Publicou, em co-autoria com Vladimir Palmeira, Abaixo a ditadura: o movimento de 68 contado pelos seus líderes (1998) e, em co-autoria com Marcus Ianoni, Reforma política: instituições e democracia no Brasil (1999).

Musa Clara Velasquez/Marcelo Costa/Maria Letícia Correia atualização

 

 

FONTES: CÂM. DEP. Deputados brasileiros. Repertório (1991-1995); Estado de S. Paulo (6/5, 5/9/95; 18/11, 8 e 17/12/96; 1, 27/5 e 29/8/97; 13/3/98; 16, 20, 21 e 23/3, 7,10/4, 2,10/5, 8/6, 24/7, 13/12/03; 13/3/04; 22/3, 5,28/6, 19, 20/7, 21/10/05; 28/7 e 3/8/07); Folha de S. Paulo (21/8/95; 24/4, 2/8 e 9/9/96; 3/1, 18/3, 17/5, 23/7/97; 1, 6 e 8/9/97; 15/3/98; 6/8, 14/9, 21/11/00; 14/8, 19/9, 15 e 16/12/01; 20/11, 13/12/02; 8/1, 12/2, 13, 23/4, 7, 24/5, 3, 15, 16, 25/6, 2, 9, 24/7, 4, 9/8, 19/9, 22/10, 26/11/03; 7, 11,14/2, 7/3, 6 e 18/7, 11/8, 13/9, 12, 17, 19, 27/12/04; 6, 17, 22/6, 1, 3, 10/8, 1, 4, 22/9, 21, 22, 26/10,  2, 10, 12/12/05; 24, 30, 31/3, 5/6, 12/8 e 1/12/06; 28/7/07); Globo (21/8/95; 19, 22/4, 5, 12/10, 16/11 e 14/12/96; 7/1, 24/2 , 24/4, 12, 17, 27/5, 27/7 e 1/9/97; 1/5 e 10/10/98); GORENDER, J. Combate; Jornal do Brasil (21/8, 3, 4/9/95; 15, 27/5, 17/7 e 19/10/96; 12 e 27/5, 23/7, 8/8 e 5/9/97; 9/3/98); Perfil parlamentar/IstoÉ; Portal Construindo um Novo Brasil. Disponível em : <http://www.construindoumnovobrasil.com.br/site2/default.asp>. Acesso em : 05 dez. 2009; Portal da Câmara dos Deputados. Disponível em : <http:// www2.camara.gov.br/deputados/index.html/loadFrame.html>. Acesso em : 05 dez. 2009; Rev. Piauí (jan. 2008); Site Zé Dirceu – Um espaço para discussão do Brasil. Disponível em : <http://www.zedirceu.com.br//index.php?option=com_frontpage&Itemid=1>. Acesso em : 05 dez. 2009; Veja (30/8/95; 26/9/01; 27/2, 26/6, 25/9, 28/10, 11, 18, 25/12/02; 25/6, 30/7 e 24/12/03; 28/1, 4, 18, 25/2, 3, 10/3, 21/4, 26/5, 16/6, 11/8 e 22/9/04; 22 e 29/6/05; 5/9/07).

 

 

 

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