JOSE GAY CUNHA

Ajuda
Busca

Acervos
Tipo
Verbete

Detalhes

Nome: CUNHA, José Gay
Nome Completo: JOSE GAY CUNHA

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
CUNHA, JOSÉ GAY

CUNHA, José Gay

*militar; rev. 1935.

 

José Gay Cunha nasceu em Porto Alegre no dia 10 de julho de 1911, filho do funcionário público federal Davi Cunha e da professora Jesuína Gay Cunha. Era o terceiro filho de uma família de sete irmãos.

Fez seus primeiros estudos no Colégio Anchieta, em Porto Alegre e no Ginásio Gonzaga e no Ginásio Pelotense, em Pelotas.

Em 1922, seu pai foi transferido para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, onde o jovem José pôde acompanhar de perto a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Após um novo período de residência no Rio Grande do Sul com a família, em 1927 veio morar no Rio de Janeiro em caráter definitivo, matriculando-se no curso preparatório da Escola Militar do Realengo. Em junho de 1928, foi expulso do curso sob a acusação de ter agredido o tenente Félix Valois, sendo transferido para o 2º Regimento de Infantaria (RI) e rebaixado para soldado raso. Logo em seguida foi transferido para 7º RI, em Porto Alegre, e mais tarde para Auditoria Militar da 3ª Região Militar.

José Cunha deu baixa do Exército em maio de 1929, ingressando no ano seguinte na Faculdade de Direito de Porto Alegre. Foi colega de Daniel Krieger, Telmo Jobim e seu primo Luís Flores da Cunha. Nesse período, trabalhou como escriturário na Viação Férrea do Rio Grande do Sul. Adepto da causa da Aliança Liberal, intensificou sua militância após a derrota de Getúlio Vargas nas eleições presidenciais de março de 1930, vindo a participar de reuniões secretas com os setores mais radicais da entidade. No dia 3 de outubro, com a decretação do movimento revolucionário, José Cunha partiu com destino ao Rio de Janeiro, no mesmo trem em que seguiam Getúlio Vargas e as tropas comandadas pelo general Flores da Cunha.

Vitorioso o movimento, José Cunha retornou para Porto Alegre, retomando suas atividades na Viação Férrea. Em março de 1931, foi convocado pela 13ª Região Militar a se apresentar na Escola Militar de Realengo, sendo incorporado à tropa no posto de segundo-tenente e em seguida transferido para a Escola de Aviação Militar (EAM), no Campo dos Afonsos.

No dia 26 de novembro de 1935 participou da reunião dos militares comunistas e aliancistas da EAM ao lado dos capitães Sócrates Gonçalves e Agliberto Vieira e dos tenentes Ivan Ramos e Dinarco Reis. Estabelecido o plano de assalto, José Cunha participa da revolta deflagrada na madrugada do dia 27 na EAM, promovida pela Aliança Nacional Libertadora (ANL) e pelo Partido Comunista Brasileiro, então Partido Comunista do Brasil (PCB), aderindo à sublevação na EAM. Sufocado o movimento, foi acusado de haver transportado munições para os rebeldes e de ter prendido vários oficiais. Embora em seu depoimento declarasse que ignorava a existência de um plano de sublevação, com o qual não era solidário, e que sua presença na EAM havia sido puramente casual, mais tarde confirmou as acusações, sendo excluído das forças armadas no mês de dezembro. Permaneceu preso na Casa de Detenção e depois enviado para o navio prisão Pedro I.

Em julho de 1937, obteve habeas-corpus junto ao STM. Libertado, José Cunha, em companhia de Dinarco Reis, voltou para Porto Alegre e travou contatos com o então governador Flores da Cunha, agora opositor do governo Vargas. Com a deposição de Flores, José Cunha partiu para o exílio no Uruguai, de onde viajou para a Buenos Aires com destino à França, em companhia de Hermenegildo de Assis Brasil, Homero Jobim, Eni e Delci Silveira e Nélson de Sousa Alves.

Em princípios de 1938 ingressou clandestinamente na Espanha, conflagrada então pela guerra civil iniciada em 1936. Integrado a um batalhão republicano, participou de diversos combates contra as forças franquistas, inclusive da ofensiva do Ebro, onde foi ferido gravemente. No final de 1938, restabelecido, incorporou-se à Brigada Lincoln, chegando a chefiar seu estado-maior nos últimos momentos da guerra, quando organizou a retirada dos contingentes republicanos por ele chefiado, cerca de cinco mil brigadistas, ante a vitória dos exércitos fascistas. Logo em seguida conseguiu refúgio nos campos de concentração na França, onde presenciou os primeiros movimentos da Segunda Guerra Mundial.

Em 1939, retornou à Argentina, passando para o Uruguai, em 1940, onde travou contatos com exilados brasileiros, e passou a trabalhar num desmanche de navios. Neste período conheceu em casa de Ivan Pedro Martins, a pianista argentina Eugênia Aronovich, com quem se casou em fevereiro de 1941.

Com a entrada do Brasil na guerra ao lado dos Aliados, em 1942, José Cunha retornou clandestinamente ao país com a finalidade de ingressar na Força Expedicionária Brasileira (FEB), porém foi preso e enviado para a ilha Grande, de onde conseguiu fugir, retornando para a Argentina em 1943.

Em 1945, quando voltou ao Brasil, tornou-se membro do PCB — que foi então legalizado — e participou de grande número de comícios eleitorais no Rio Grande do Sul. Militava em Santana do Livramento (RS) no momento em que o PCB foi posto na ilegalidade, em maio de 1947. Exilando-se no Uruguai, em 1949, retornou definitivamente para o Brasil em julho do mesmo ano. Logo em seguida foi expulso do partido, segundo declarações que faria à imprensa mais tarde, “por recusar-se a viver como um funcionário assalariado da organização.” Nesse período trabalhou como comentarista político do jornal A Hora, na empresa Filgueiras e no supermercado Campal.

Em 1955, foi aprovado para a Caixa Econômica Federal. Em agosto/setembro  de 1961, aderiu — ao lado de Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, e do general Machado Lopes, comandante do III Exército — à campanha em defesa da legalidade, defendendo a posse do vice-presidente João Goulart na presidência da República, em virtude da renúncia do presidente Jânio Quadros.

Retomou seus estudos, diplomando-se em direito em 1964, e logo em seguida foi transferido para o setor jurídico da Caixa Econômica Federal.

Com o acirramento da repressão militar, em março de 1975 foi detido com mais 13 pessoas, acusado de tentar rearticular o PCB no Rio Grande do Sul e de ter agido como intermediário da entrada no país de dólares enviados pelo Partido Comunista Argentino em 1973. Libertado no mesmo mês para aguardar julgamento, acusou o PCB publicamente, em depoimento televisionado, de ter agido de má-fé, utilizando sua amizade com antigo correligionário para fazer entrar o dinheiro no país. Afirmou também ter sido tratado com “carinho e desvelo” pela Polícia Federal.

Solto, José Cunha mudou-se para a Bahia, onde permaneceu por um ano e meio. Depois, transferiu-se para São Paulo, onde foi ameaçado de morte pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC), organização de extrema-direita.

Já com a saúde debilitada, dedicou-se a escrever suas memórias (livro ainda não publicado) e efetuar esporádicas viagens, em 1982 sofreu um grave infarto.              

José Gay Cunha faleceu em 24 de agosto de 1987, na cidade de São Paulo, deixando viúva Eugênia Aronovich e nove filhos.

Publicou, em 1946, Um brasileiro na guerra civil espanhola.

 

FONTES: ARQ. GETÚLIO VARGAS; AZEVEDO, A. Minha vida; CARVALHO, A. Vale; Jornal do Brasil (31/3/75 e 30/7/77); MIN. AER. Almanaque (1963); MIN. GUERRA. Almanaque (1934); PORTO, E. Insurreição; Temas de Ciências Humanas (9); WANDERLEY. N. História.

 

Para enviar uma colaboração ou guardar este conteúdo em suas pesquisas clique aqui para fazer o login.

CPDOC | FGV • Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil
Praia de Botafogo, 190, Rio de Janeiro - RJ - 22253-900 • Tels. (21) 3799.5676 / 3799.5677
Horário da sala de consulta: de segunda a sexta, de 9h às 16h30
© Copyright Fundação Getulio Vargas 2009. Todos os direitos reservados