LEITE, CARLOS DA COSTA

Ajuda
Busca

Acervos
Tipo
Verbete

Detalhes

Nome: LEITE, Carlos da Costa
Nome Completo: LEITE, CARLOS DA COSTA

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
LEITE, CARLOS DA COSTA

LEITE, Carlos da Costa

*militar; mov. Comunista

 

 

Carlos da Costa Leite nasceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 1º de janeiro de 1895, filho do oficial do Exército Jerônimo da Costa Leite e de Bernardina Martins Pereira Leite.

Sentou praça no 1º Regimento de Cavalaria (1º RC), no Rio de Janeiro, e ingressou depois na Escola Militar do Realengo, cujo curso concluiu em 1918 como aspirante-a-oficial da arma de artilharia, integrando a mesma turma de Luís Carlos Prestes, Antônio de Siqueira Campos e Eduardo Gomes. Promovido a segundo-tenente em dezembro de 1919 e a primeiro-tenente em janeiro de 1921, cursava a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais quando recebeu a patente de capitão em junho de 1923.

Quando eclodiu a revolta militar de 5 de julho de 1924 contra o governo do presidente Artur Bernardes, foi preso como suspeito e levado para o 1º RC. Irrompida em Sergipe, Amazonas e São Paulo, a sublevação foi dominada com rapidez nos dois primeiros estados. Em São Paulo, entretanto, os rebeldes ocuparam a capital durante três semanas, deslocando-se depois para o interior. Em abril de 1925, no oeste do Paraná, esse grupo faria junção com o contingente que sublevou, em outubro de 1924, unidades militares no Rio Grande do Sul, constituindo, dessa forma, a Coluna Miguel Costa-Prestes.

Conseguindo evadir-se da prisão, Costa Leite passou a conspirar na clandestinidade, sendo um dos oficiais que em 2 de maio de 1925 tentaram tomar o quartel do 3º Regimento de Infantaria (3º RI) na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. O ataque visava conquistar o apoio dos duzentos soldados dessa unidade para, em seguida, empreender a marcha sobre o palácio do Catete. Porém, depois de uma rápida troca de tiros, em que morreu o tenente Luís Venâncio Jansen de Melo, os rebeldes debandaram.

Costa Leite foi um dos ajudantes de Juarez Távora em sua famosa fuga da prisão da ilha das Cobras em janeiro de 1927. Ainda nesse ano esteve com Prestes na Bolívia e, segundo depoimento de Juraci Magalhães — que em 1927 servia como tenente no 23º Batalhão de Caçadores (23º BC) em Fortaleza —, atuou como “pombo-correio” levando mensagens de Prestes e Juarez aos revolucionários dessa região, que prosseguiram conspirando contra o governo. Sua atuação, segundo Jorge Amado, lhe valeria o epíteto de “o Prestes da cidade”.

Concordando com a posição de Luís Carlos Prestes, publicada em manifesto no jornal carioca Diário da Noite em 29 de maio de 1930, Costa Leite não participou da revolução que irromperia em outubro desse ano sob a liderança de Getúlio Vargas. Em seu manifesto, Prestes declarava não aceitar o caráter burguês do movimento promovido pela Aliança Liberal e afirmava que a revolução deveria ser orientada contra o latifúndio e o imperialismo “pela verdadeira insurreição nacional de todos os trabalhadores”.

Em 1932 Costa Leite diplomou-se em engenharia civil pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro e no ano seguinte ingressou na Escola de Estado-Maior do Exército. No final de 1934, ao lado de Herculino Cascardo, Francisco Moésia Rolim, Nemo Canabarro Lucas, Antônio Rollemberg, Trifino Correia e outros, participou das articulações para a formação da Aliança Nacional Libertadora (ANL), movimento que pretendia reunir representantes de diferentes setores sociais e correntes políticas em torno de um programa de luta contra o fascismo, o imperialismo e o latifúndio.

No início de 1935, enquanto se discutia na Câmara o anteprojeto da Lei de Segurança Nacional, apresentado no mês de janeiro, os militares se dividiram, colocando-se a favor ou contra a iniciativa. Segundo documento apreendido na época, Costa Leite pretendeu sem êxito realizar uma assembléia no Clube Militar para “reforçar a confiança popular no Exército, como força capaz de tomar posição ao lado do povo nas lutas pela libertação nacional”.

Em 12 de março de 1935, em reunião realizada no Rio de Janeiro, foi finalmente organizada a ANL e eleito seu diretório nacional, no qual foi incluído Costa Leite. Quando do lançamento oficial do movimento, no final do mês, por sua sugestão, o estudante Carlos Lacerda apresentou o nome de Prestes para a presidência de honra da ANL.

No dia 28 de maio de 1935 a ANL promoveu um grande comício num subúrbio do Rio de Janeiro, em desagravo à bandeira que acompanhara a Coluna Prestes e ao nome do próprio Prestes, que os integralistas atacavam. Em conseqüência de sua participação nesse comício, Costa Leite e o capitão Trifino Correia foram punidos, sendo Costa Leite transferido para o Rio Grande do Sul, o que significou o cancelamento de sua matrícula na Escola de Estado-Maior do Exército no penúltimo mês antes de sua formatura.

Radicalizando a proposta de ação política da ANL, em comício realizado em 5 de julho de 1935 foi divulgado manifesto de Prestes, que se conservava na clandestinidade, afirmando que “a situação é de guerra e cada um precisa ocupar o seu posto” e que “a idéia do assalto amadurece na consciência das grandes massas” e lançando a palavra de ordem “todo o poder à ANL”. Encontrando-se ainda no Rio de Janeiro, Costa Leite esteve nesse comício ao lado de Trifíno Correia e Henrique Oest, mas nenhum deles sofreu punição, embora tivessem sido intimados a depor.

O documento de Prestes acabou por levar ao fechamento da ANL em 11 de julho, seguindo-se a prisão de milhares de pessoas. Segundo Hélio Silva, logo depois Costa Leite e a advogada Maria Werneck de Castro foram à Câmara dos Deputados e conferenciaram com os oposicionistas João Neves da Fontoura, João Mangabeira e Domingos Velasco, buscando formas de reagir à campanha repressiva do governo.

Com grande penetração nos meios militares e sob influência direta do clandestino Partido Comunista Brasileiro, então Partido Comunista do Brasil (PCB), a ANL passou a preparar um movimento armado para depor Getúlio Vargas. Segundo o relatório posterior do delegado Eurico Bellens Porto, ainda no Rio de Janeiro Costa Leite teria desviado armas do Exército para esse movimento. Também no inquérito que apurou a explosão de uma casa no bairro carioca do Grajaú durante a fase de repressão ao PCB, o nome de Costa Leite aparece como o possível responsável pelo desvio de pólvora de alguma unidade militar para aquela residência. Em suas atividades clandestinas teria usado os nomes de Carlos, Firmo e Costa.

Ainda entre os documentos mais tarde apreendidos pela polícia, havia uma carta de Prestes, datada de 14 de outubro de 1935, em que este dava instruções ao diretório da ANL sobre o futuro governo popular revolucionário e investia Costa Leite como seu representante em todo o Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

O levante comunista foi deflagrado em Natal no dia 23 de novembro de 1935, em Recife no dia seguinte e na capital federal no dia 27. Sufocado o movimento, seguiu-se um período de sistemática repressão aos opositores do governo. Na ocasião, Costa Leite era subcomandante da Guarnição de Artilharia e Cavalaria de Bajé (RS), onde também servia o tenente Apolônio de Carvalho. Segundo depoimento desse último, o levante pegou-os totalmente despreparados e ambos tiveram de fugir para Montevidéu. Em carta a Prestes datada de 12 de dezembro, Costa Leite explicou as razões de sua fuga e enumerou os recursos que a ANL possuía no Rio Grande do Sul.

Em abril de 1936, pelo Decreto nº 741, Costa Leite perdeu sua patente de major. Mais tarde foi denunciado pelo procurador Honorato Himalaia Virgulino ao Tribunal de Segurança Nacional, tribunal de exceção criado em setembro de 1936 com a finalidade de processar comunistas e outros opositores do regime. Em maio de 1937 o tribunal o condenou a três anos e dez meses de prisão.

Costa Leite permaneceu no Uruguai até meados de 1937, daí seguindo para a Espanha a fim de lutar, como voluntário, ao lado das forças republicanas. O mais graduado e mais idoso dos brasileiros que participaram da guerra civil espanhola, serviu inicialmente como instrutor do Centro de Organização e Preparação nº 2, localizado na Catalunha. Logo depois tornou-se comandante de um batalhão de artilharia do exército do Ebro, participando do último esforço de guerra das forças republicanas naquela região.

Em fevereiro de 1939, quando se deu a grande ofensiva franquista na Catalunha e sobreveio a derrota dos republicanos, Costa Leite e Apolônio de Carvalho — segundo informação deste último — encontravam-se entre os quinhentos mil republicanos que procuraram refúgio na França, sendo levado para um campo de concentração. Nesse campo, Costa Leite pertenceu à direção das remanescentes “brigadas internacionais”.

Libertado no início de 1941, retornou ao Brasil em setembro do ano seguinte. Apresentando-se como voluntário para seguir com a Força Expedicionária Brasileira que participaria da guerra na Europa, foi preso e levado para a ilha Grande, no Rio de Janeiro. Em 18 de abril de 1945, com a decretação da anistia a todos os que haviam cometido crimes políticos desde 1934, foi libertado. Em seguida fundou a Associação Brasileira dos Amigos do Povo Espanhol (ABAPE), entidade de caráter antifranquista.

Nessa ocasião, por discordar do apoio do PCB à campanha da Constituinte com Getúlio, considerando que os comunistas não deviam aliar-se ao até então ditador, Costa Leite afastou-se desse partido. Entre 1947 e novembro de 1951 trabalhou como engenheiro civil. Nessa data reverteu ao Exército, promovido retroativamente ao posto de tenente-coronel desde dezembro de 1941 e ao de coronel desde dezembro de 1946. Em fevereiro de 1955 passou para a reserva. Quando eclodiu o movimento político-militar de 1964 foi apenas chamado para depor.

Faleceu no Rio de Janeiro em 9 de junho de 1980.

Foi casado com Estelle Fleury, e em segundas núpcias com a militante comunista Rosa Meireles, irmã de Ilvo e de Silo Meireles, ambos pertencentes à cúpula do PCB na década de 1930.

Amélia Coutinho

 

 

 

 

FONTES: ARQ. GETÚLIO VARGAS; CARONE, E. República nova; COSTA, R. Tribunal; CURRIC. BIOG.; LEVINE, R. Vargas; SILVA, H. 1922; SILVA, H. 1930; SILVA, H. 1935; SILVA, H. 1937; TÁVORA, J. Vida; Temas de Ciências Humanas (9).

 

Para enviar uma colaboração ou guardar este conteúdo em suas pesquisas clique aqui para fazer o login.

CPDOC | FGV • Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil
Praia de Botafogo, 190, Rio de Janeiro - RJ - 22253-900 • Tels. (21) 3799.5676 / 3799.5677
Horário da sala de consulta: de segunda a sexta, de 9h às 16h30
© Copyright Fundação Getulio Vargas 2009. Todos os direitos reservados