MANUEL DE CERQUEIRA DALTRO FILHO

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Nome: DALTRO FILHO
Nome Completo: MANUEL DE CERQUEIRA DALTRO FILHO

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
DALTRO FILHO

DALTRO FILHO

* militar; interv.  SP 1933; interv.  RS 1937- 1938.            I

 

Manuel de Cerqueira Daltro Filho nasceu em Cachoeira (BA) no dia 2 de novembro de 1882, filho de Manuel de Cerqueira Daltro, professor de humanidades, e de Cora Cerquei­ra Daltro.

Após realizar os primeiros estudos no colé­gio estadual de sua cidade natal, em fevereiro de 1898 sentou praça voluntariamente no 9º. Batalhão de Infantaria (9º. BI), sediado em Salvador.  Em seguida transferiu-se para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, onde per­maneceu adido ao 23º.BI enquanto aguardava matrícula na Escola Preparatória do Realengo.  Em outubro de 1899, entretanto, desligou-se dessa escola após ter obtido, a seu pedido, a transferência para a Escola Tática e de Tiro em Rio Pardo (RS), pela qual concluiu o cur­so preparatório em 1901.  Matriculou-se de­pois na Escola Militar da Praia Vermelha, no Distrito Federal, de onde saiu alferes em 1904, ano em que a escola foi fechada por ter-se re­belado contra o governo, engrossando o movi­mento popular que ficou conhecido como Re­volta da Vacina.

Depois de servir no 6º. Regimento de Arti­lharia de Campanha, sediado em Curitiba, em 1906 seguiu para Porto Alegre, onde ingressou na Escola de Guerra, concluindo no ano se­guinte o curso de infantaria e cavalaria.  Em 1908 retornou ao Rio de Janeiro, matriculan­do-se na Escola de Artilharia e Engenharia, e ainda em maio foi promovido a segundo-te­nente da arma de infantaria.  Completou o cur­so de estado-maior e engenharia militar em 1911, sendo então transferido para o 4º. Regi­mento de Infantaria (4º. RI), com sede em Cu­ritiba.  No ano seguinte participou da funda­ção da Universidade do Paraná, tornando-se membro de sua primeira diretoria com a fun­ção de subsecretário e integrando seu corpo docente. Em 1913 foi promovido a primeiro-tenente.

Em fins de agosto de 1914 o general Fer­nando Setembrino de Carvalho foi nomeado para o comando da 11ª. Região Militar (11ª. RM) em Curitiba, função que acumulou com a chefia das forças expedicionárias na Guerra do Contestado, rebelião camponesa de cunho messiânico ocorrida na área fronteiriça do Pa­raná com Santa Catarina, cuja posse era dispu­tada pelos dois estados e para onde o governo enviava sucessivas expedições militares desde 1912. Em seu estado-maior Setembrino de Carvalho contou, como adjunto, com Daltro Filho, que com ele partiu em setembro de 1914 para a capital paranaense, onde se organi­zou o quartel-general do Comando das Forças em Operações de Guerra.  Com a chegada de reforços de diversas regiões do Brasil, a partir de outubro foi sendo aperfeiçoada a tática do cerco, que conseguiu provocar a debandada, e mesmo a rendição, de alguns contingentes re­beldes.  Essa situação possibilitou o desloca­mento, a partir de dezembro, do Comando das Forças e de seu estado-maior para a zona de combates, ocasião em que Daltro Filho se tornou adjunto na inspeção e no quartel-gene­ral do comando-em-chefe das tropas.

Em janeiro de 1915, com seu quartel-gene­ral estabelecido em Porto União da Vitória ­hoje dividida em Porto União (SC) e União da Vitória (PR) -, as forças do governo deram início a uma ação conjunta.  Dessa base Daltro Filho seguiu para Poço Preto (SC), Santa Cruz do Timbó (SC) e Perdizes (SC), após o que voltou para Curitiba.  Quando da remodelação do Exército, foi dispensado das funções de adjunto do estado-maior da 11ª. RM e do quartel-general do Comando das Forças em Opera­ções de Guerra, sendo nomeado adjunto do es­tado-maior da 1ª. Divisão.  Em abril de 1915 Setembrino de Carvalho considerou findo o conflito no Contestado, embora o movimento sobrevivesse até o ano seguinte.

Em 1916 Daltro Filho tornou-se adjunto do 4º.  RI, função que desempenhou ao longo de dois anos.  Em 1919 passou a servir no quartel-general da 4ª RM, cuja sede, inicial­mente em Niterói, seria transferida para o Distrito Federal e em seguida para Juiz de Fora (MG) e Belo Horizonte.  Nesse mesmo ano foi promovido a capitão. Em março de 1920 ma­triculou-se na Escola de Aperfeiçoamento do Exército, e pouco mais tarde integrou uma co­missão militar que foi à Europa, onde freqüen­tou o Centre de Perfectionnement des Spécia­lités de l'Infanterie de Sables d'Olonne.

Retornando ao Brasil, assumiu o comando da 3ª. Companhia de Metralhadoras, sediada no Rio de Janeiro.  Encontrava-se nesse posto quanto eclodiu a rebelião de 5 de julho de 1922, que iniciou o ciclo de revoltas tenentis­tas da década de 1920.  O movimento irrom­peu no Distrito Federal e em Cuiabá em pro­testo contra a eleição de Artur Bernardes à presidência da República e as punições impos­tas pelo governo de Epitácio Pessoa aos milita­res, com o fechamento do Clube Militar e a prisão do marechal Hermes da Fonseca.

Na madrugada do dia 5, ante a sublevação da Vila Militar - quase simultaneamente com a do forte de Copacabana e a da Escola Militar -, o Estado-Maior do Exército determinou a organização de um destacamento, sob o co­mando do general João de Deus Mena Barre­to, com a missão de interromper, à altura do bairro do Méier, o avanço dos revoltosos.  A 3ª. Companhia de Metralhadoras, com Daltro Fi­lho à frente, foi uma das unidades que com­pôs o destacamento.  Em poucas horas os re­beldes viram-se obrigados a aceitar o cessar-fo­go. Com o controle da sublevação na Vila e na Escola Militar, a revolta limitou-se ao forte de Copacabana, onde um grupo, que ficou co­nhecido como os 18 do Forte, travou comba­te com as tropas legalistas e foi derrotado.

Em fins de 1923 Daltro Filho recebeu a patente de major, e a seguir passou a atuar co­mo ajudante-de-ordens do presidente da Re­pública, Artur Bernardes, função que exerce­ria até o final de seu governo (15/11/1926).  Promovido a tenente-coronel em 1925, cerca de um mês antes da saída de Bernardes da presidência foi nomeado adido militar junto às embaixadas do Brasil na Bélgica e na Fran­ça. Na Europa, em outubro de 1928 foi pro­movido a coronel.  Retornando ao Brasil no início de 1929, comandou por pouco tempo o 7º. RI, sediado em Santa Maria (RS), e ainda nesse ano matriculou-se na Escola de Aperfei­çoamento de Oficiais, no Rio de Janeiro.

Irrompida a Revolução de 1930 em 3 de outubro, Daltro Filho ingressou no quadro su­plementar, sendo designado para o comando do 2º. Batalhão de Caçadores (2º. BC), que in­tegrava o Destacamento Leite de Castro. À frente dessa unidade seguiu para Cantagalo (RJ), onde organizou as forças legalistas que operavam na região compreendida entre essa cidade e a de Nova Friburgo (RJ).  Sua ação ali foi breve, pois a 24 de outubro um grupo de oficiais ligado ao alto-comando das forças ar­madas depôs o presidente Washington Luís e constituiu uma junta que governou o país até o início de novembro, quando transmitiu o po­der a Getúlio Vargas, chefe do movimento vi­torioso.  Regressando ao Distrito Federal, Dal­tro Filho, mesmo não tendo apoiado a revolu­ção, foi nomeado para o comando do 3º. RI, localizado na Praia Vermelha.

 

A Revolução de 1932

 

Ao eclodir a Revolução Constitucionalista em São Paulo no dia 9 de julho de 1932, o Governo Provisório deslocou para a fronteira paulista no vale do Paraíba, entre outras, as unidades sediadas no Distrito Federal.  Até que seu quartel-general pudesse aí se instalar, o comandante do Exército do Leste, general Pedro Aurélio de Góis Monteiro, designou Daltro Filho para assumir provisoriamente o comando das tropas legalistas - formadas pelo 1º. BC, o 2º. e o 3º. RI, o 1º. Regimento de Cavalaria Divisionária, o 2º. Regimento de Artilharia Montada, o 1º. Grupo de Artilharia Montada e o 1º. Batalhão de Engenharia. No dia seguinte à eclosão do movimento, Daltro Filho partiu com seu destacamento para a frente de combate.

Poucos dias depois, Góis Monteiro instalou o quartel-general do Exército do Leste em Barra do Piraí (RJ), estabelecendo de imediato uma zona de operação entre as serras da Bocaina e da Mantiqueira. Essa zona foi ocupada inicialmente pelos destacamentos mais tarde reforçados, dos coronéis Daltro Filho, Colatino Marques e João Guedes da Fontoura. Os combates mais importantes travaram-se ao longo do eixo formado pela  Estrada de Ferro Central do Brasil e pela rodovia Rio- São Paulo. O avanço pelo vale do Paraíba foi lento, embora as tropas do governo conseguissem quase sempre fazer recuar as forças constitucionalistas.

Pretendendo dar maior poder ofensivo às suas tropas, em agosto de 1932 Góis Monteiro criou dois novos destacamentos, sendo um deles desdobrado do de Daltro Filho. No início do mês seguinte deflagrou-se o ataque final ao vale do Paraíba paulista, durante o qual Daltro Filho comandou o cerco de Cruzeiro (SP). Poucos dias depois da tomada dessa cidade, foi promovido a general-de-brigada, juntamente com Colatino Marques.

Em fins de setembro, as forças de Daltro Filho e de Newton de Andrade Cavalcanti avançaram em direção à capital paulista, acabando por obter o isolamento completo de sua área metropolitana. Às vésperas do término do conflito, Getúlio Vargas insistiu para que Góis Monteiro ocupasse a cidade e assumisse o governo do estado. Recusando-se a fazê-lo, o comandante do Exército do Leste determinou a Daltro Filho que o substituísse na missão e entrasse em São Paulo à frente das tropas legalistas a fim de garantir a ordem pública.

Durante o breve período em que esteve na cidade de São Paulo, Daltro Filho  chegou a ter seu nome cogitado para o governo do estado, afinal assumido pelo comandante do Exército do Sul, o general Valdomiro Castilho de Lima, na  qualidade de governador militar. Concluída sua missão, retornou com suas tropas para Moji das Cruzes (SP), aí servindo um breve período. Em fins de janeiro de 1933 Vargas nomeou para a interventoria de São Paulo Valdomiro Lima, que até então acumulava o governo militar do estado com o comando da 2ª.RM. Na mesma oportunidade Daltro Filho tornou-se comandante dessa região militar.

O início de 1933 assinalou a divisão entre os revolucionários de 1932. Enquanto um grande número de paulistas apoiava o presidente do Partido  Democrático, Francisco Morato, contrário a nova tentativa armada, outros voltaram a mobilizar-se, a ponto de marcar a data da eclosão do novo movimento. Daltro  Filho examinou esse problema no boletim de informações e ordens reservadas do comando da 2ª.RM, do qual se enviaram cópias para as diversas autoridades  militares, entre elas Góis Monteiro e Valdomiro Lima. O documento informava sobre a articulação de um movimento revolucionário por grande parte dos vencidos de 1932, que vinham inclusive providenciando a compra de armamentos e munições.  Daltro Filho determinou, em con­seqüência, que todas as unidades da 2ª.RM se mantivessem de prontidão.

Por outro lado, apesar do esforço realiza­do para solidificar seu apoio político em São Paulo, especialmente junto aos cafeicultores, Valdomiro Lima encontrou forte oposição por parte de diversas facções.  A derrota dos dois partidos que apoiava - o Partido Socia­lista Brasileiro e o Partido da Lavoura - nas eleições de maio de 1933 para a Assembléia Nacional Constituinte inclinou Vargas a no­mear um novo interventor que realizasse a conciliação política no estado e contasse com o apoio do Legislativo, reabilitado no proces­so de reconstitucionalização do país.  Além disso, Valdomiro Lima era acusado pela Cha­pa Única por São Paulo Unido de haver finan­ciado o Partido da Lavoura na campanha elei­toral com recursos do Instituto do Café de São Paulo.

Finalmente, após algumas crises em que chegaram a intervir autoridades federais, Val­domiro Lima apresentou a Vargas seu pedido de demissão em carta datada de 9 de julho de 1933. No dia 23 seguinte o chefe do Governo Provisório solicitou a Valdomiro que passasse seu cargo ao comandante da 2ª. RM.  Formali­zada a renúncia do interventor, no dia 27 a in­terventoria foi transmitida a Daltro Filho, que assim passou a exercer as duas funções. Sua nomeação, em caráter interino, correspondeu à necessidade do Governo Provisório de aliviar as tensões no estado e preparar o terreno para o interventor efetivo.

Durante seu curto período de governo, Daltro Filho tomou diversas medidas de segu­rança, que incluíram a prisão de auxiliares do ex-interventor.  Concluiu, também, como pre­sidente da Comissão de Inquérito do Institu­to do Café de São Paulo, o processo Murray-­Simonsen, instaurado no início do governo de Valdomiro Lima e pelo qual se interessava o ministro da Fazenda, Osvaldo Aranha.  Esse in­quérito acusava a diretoria do Instituto de desvio de fundos e de operações comerciais ilícitas, envolvendo a firma Murray-Simonsen, vinculada aos banqueiros ingleses Lazard Bro­thers, de cujo grupo financeiro o estado era de­vedor.  Pelas implicações internacionais do ca­so, que afetavam a obtenção de empréstimos externos pelo Brasil, Daltro Filho recebeu orientação de Aranha no sentido de concluir o inquérito de modo a não provocar reper­cussões. Em 21 de agosto de 1933 Daltro Fi­lho transmitiu a interventoria ao paulista Ar­mando de Sales Oliveira, voltando a dedicar-­se exclusivamente às funções de comandante da 2ª. RM.

 

Contra a Constituinte

 

Em 1934, à medida que se desenvolviam os trabalhos da Assembléia Nacional Consti­tuinte, o problema da sucessão presidencial tornava-se o ponto básico dos debates políti­cos.  Em abril, dois meses e meio antes do tér­mino dos trabalhos - ocasião em que os cons­tituintes elegeriam o novo presidente da Re­pública -, intensificaram-se as pressões favo­ráveis à candidatura do general Góis Montei­ro, ministro da Guerra desde janeiro.  Lançada desde 1932 e reforçada no ano seguinte pelo Clube Militar, a indicação de Góis Monteiro era apoiada sobretudo pela oficialidade do Exército, que desde cedo se manifestara con­trária à Constituinte.

Nessa ocasião, Daltro Filho mostrou-se pu­blicamente favorável ao estabelecimento de uma "república ditatorial", pois a Constituin­te - segundo suas palavras -, que "devia ser um sol, de onde irradiassem todas as clarida­des, empana-se na obscuridade dos projetos e anteprojetos, que se multiplicam numa horrí­vel confusão …Contemplando-a de fora, tem-se a impressão de um ajuntamento amorfo, a debater-se numa agitação estéril".  Essa declaração, juntamente com um manifesto do Clube 3 de Outubro publicado em A Platéia (10/4/1934), recebeu o apoio dos generais Álvaro Mariante, Manuel Rabelo, Constâncio Deschamps Cavalcanti e Pedro Cavalcanti de Albuquerque, iniciando-se então uma crise mi­litar.  Enquanto os oficiais legalistas procura­vam assegurar nos principais comandos o apoio a Vargas, alguns interventores - em especial José Antônio Flores da Cunha, do Rio Grande do Sul, Benedito Valadares, de Minas Gerais, e Juraci Magalhães, da Bahia - faziam uma avaliação do efetivo disponível em caso de ne­cessidade de mobilização.

A crise desenrolou-se até o final de maio, quando Vargas substituiu Daltro Filho no co­mando da 2ª. RM pelo general Benedito Olím­pio da Silveira, punindo-o por ter compareci­do à recepção oferecida pelo coronel Euclides Figueiredo, um dos chefes militares da Revo­lução de 1932, que então retornava do exílio.  O afastamento de Daltro Filho provocou rea­ção em várias unidades de São Paulo, mas o impasse foi contornado através de notícias veiculadas pelo gabinete do Ministério da Guerra, segundo as quais Góis Monteiro se de­mitira desse ministério e seria eleito presidente da República pela Assembléia Nacional Cons­tituinte com o voto da bancada paulista e de alguns deputados gaúchos, pois, em caso con­trário, seria desfechado um golpe militar.  En­tretanto, o pedido de demissão de Góis Mon­teiro não foi aceito por Vargas e o processo constitucional normalizou-se.  Finalmente, em 16 de julho de 1934 aprovou-se a nova Carta, e Vargas foi eleito presidente da República no dia seguinte.

Retornando ao Rio de Janeiro, Daltro Fi­lho foi nomeado, alguns meses depois, presi­dente da Comissão Administrativa do Exérci­to, responsável pela reorganização de todo o processo de escrituração adotado no Ministé­rio da Guerra, reformado pela última vez em 1910. Exerceu essa função até maio de 1935, quando o novo ministro da Guerra, general João Gomes Ribeiro Filho, extinguiu a comis­são. Assumiu em seguida o comando da 8ª. RM, sediada em Belém, e, no desempenho dessa função, deslocou-se para o Maranhão, onde se instalara sério impasse político devido à rup­tura da aliança entre o Partido Republicano e a União Republicana Maranhense.  Essa cisão havia deixado o governador Aquiles Lisboa em minoria na Assembléia Legislativa, a qual conseguiu afinal provocar a intervenção fede­ral no estado.

De volta ao Rio de Janeiro, Daltro Filho tornou-se diretor da Engenharia do Exército, permanecendo pouco tempo nesse cargo.  Ao ser promovido a general-de-divisão, em maio de 1937, foi designado para o comando da 5ª. RM sediada em Curitiba, onde ficou apenas dois meses.

 

Interventor no Rio Grande do Sul

 

Desde março de 1936 o país vivia sob o es­tado de guerra decretado dentro da onda de repressão desencadeada após a Revolta Comu­nista de 1935.  Os executores do estado de guerra em todas as unidades da federação eram os governadores, mas em 1937 essa si­tuação se alterou no Rio Grande do Sul em virtude das divergências entre o governo de Flores da Cunha e Vargas, que já se vinham manifestando havia algum tempo.  Enquanto Flores atuava de modo a influir na escolha do sucessor de Vargas, este procurava impedir o fortalecimento do governador gaúcho, incenti­vando as dissidências da política interna no Rio Grande do Sul.

Assim, em abril de 1937, Vargas nomeou o general Emílio Lúcio Esteves, comandante da 3ª. RM, executor do estado de guerra no Rio Grande do Sul, retirando essa prerrogativa de Flores da Cunha.  A iniciativa federal não só causou protesto de Flores da Cunha, como o próprio general Esteves mostrou-se contrário ao desarmamento completo das forças esta­duais, o que resultou num impasse.  Em 18 de junho, contudo, o estado de guerra foi suspen­so em todo o país.

Em meados do ano Daltro Filho coman­dou a ocupação militar no sul do estado de Santa Catarina, em medida preventiva contra Flores da Cunha, que vinha sendo acusado pe­la oposição de mobilizar clandestinamente as forças estaduais. Por fim, em agosto de 1937, Daltro Filho foi nomeado comandante da 3ª. RM, em substituição ao general Esteves. À frente desse comando, assumiu igualmente o cargo de executor do estado de guerra quando essa medida foi mais uma vez decretada no dia 2 de outubro.  Passou então a ser um dos arti­culadores da derrubada de Flores da Cunha, considerado pelo governo federal um obstácu­lo ao programa do golpe de estado que viria ins­tituir o Estado Novo.

No final da primeira quinzena de outubro de 1937, ao mesmo tempo em que decidia co­locar a tropa de prontidão, Daltro Filho apresentou a Flores da Cunha um decreto de Var­gas segundo o qual a Brigada Militar, força es­tadual, deveria passar para o controle do co­mandante da 3ª. RM.  No dia 16 foi procurado pelo arcebispo de Porto Alegre, dom João Bec­ker, que lhe comunicou a decisão de Flores de não assinar o decreto estadual que concretiza­ria aquela medida.  Dom Becker ressaltou, no entanto, que o governador gaúcho desejava evitar a perturbação da ordem pública, diante do que estaria disposto a renunciar no dia 18, desde que Vargas lhe assegurasse a manuten­ção da ordem no estado e acabasse com a con­centração de tropas em Santa Catarina e em Porto Alegre. Ainda no dia 16, Daltro Filho comunicou-se com o ministro da Guerra, ge­neral Eurico Dutra.  Ao mesmo tempo, era cientificado do deslocamento de tropas da Brigada Militar, passadas em revista por Flores na manhã daquele dia.  Em vista disso, Daltro Filho determinou que todas as unidades da 3ª. RM se mantivessem de prontidão, na ex­pectativa de uma revolta.

Na manhã do dia 17, inteirado da impossi­bilidade de agir, Flores da Cunha expediu ofí­cio comunicando que a Brigada Militar passa­va para o controle da 3ª.RM.  Nesse mesmo dia apresentou sua renúncia, após o que se exilou no Uruguai.  Enquanto isso, a maioria dos de­putados na Assembléia Legislativa decidia-se pela apresentação, na sessão do dia 18, do no­me de Francisco Antunes Maciel para ocupar o Executivo do estado.  Vargas, porém, deci­diu-se pela intervenção federal, em princípio com duração prevista de um ano.  Assim, a 19 de outubro de 1937, pelo Decreto nº. 2.044, Daltro Filho foi investido no cargo de inter­ventor.

Assumindo de imediato o governo, mante­ve sua atenção nos movimentos da área mili­tar, em vista de constantes denúncias sobre a existência de armas e munições clandestinas.  Sua gestão contou politicamente com o apoio do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), do Partido Liberal (PL) e da Dissidên­cia Liberal - originada no partido de Flores da Cunha, o Republicano Liberal -, que serviram de base para a formação de seu secreta­riado.  Com a instauração do Estado Novo em 10 de novembro de 1937, Daltro Filho foi confirmado na interventoria, acumulando-a com o comando da 3ª. RM. Poucos dias mais tarde, contudo, encontrando-se gravemente en­fermo, foi obrigado a licenciar-se, sendo subs­tituído interinamente pelo secretário do Inte­rior, Maurício Cardoso.

Faleceu em Porto Alegre no dia 19 de ja­neiro de 1938.

Era casado com Odete Pereira de Cerquei­ra Daltro, com quem teve sete filhos.

 

Regina da Luz Moreira.

 

FONTES:  ARAÚJO, A. Chefes, CARONE, E. Estado; CARONE, E. República nova; COR­RESP. GOV. EST. RS; COUTINHO, L. Gene­ral; Efemérides Paulistas, Encic. Mirador; FERREIRA FILHO, A. História; FIGUEIRE­DO, E. Contribuição; FUND. GETÚLIO VARGAS.  Cronologia da Assembléia; GO­MES, A. Revolução; Grande encic. Delta; Jor­nal do Comércio, Rio (20/1/38); LAGO, L. Relação; LEITE, A. História; LEVINE, R. Vargas; MIN. GUERRA. Almanaque; PEIXO­TO, A. Getúlio; PEIXOTO, D. Campanha, ­PESQ. F. BARBOSA; POPPINO, R. Federal; ­SILVA, H. 1922; SILVA, H. 1930; SILVA H. 1933; SILVA, H. 1934; SILVA, H. 1937; SIL­VA, H. 1938; SILVA, R. Notas; SILVA, R. Revolução.

 

 

 

 

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