OSvALDO EUCLIDES DE SOUSA ARANHA

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Nome: ARANHA, Osvaldo
Nome Completo: OSvALDO EUCLIDES DE SOUSA ARANHA

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
ARANHA, OSVALDO ARANHA, Osvaldo
*
dep. fed. RS 1927-1928; rev. 1930; min. Just. 1930-1931; min. Faz. 1931-1934; emb. Bras. EUA 1934-1937; min. Rel. Ext. 1938-1944; emb. Bras, ONU 1947; min. Faz. 1953-1954.

Osvaldo Euclides de Sousa Aranha nasceu em Alegrete (RS) no dia 15 de fevereiro de 1894, filho do coronel Euclides Egídio de Sousa Aranha e de Luísa Jacques de Freitas Vale Aranha, proprietários da estância Alto Uruguai no município gaúcho de Itaqui. Segundo entre os 12 filhos do casal, descendia diretamente, pelo lado paterno, de Maria Luzia de Sousa Aranha, baronesa de Campinas (da região paulista que hoje corresponde à cidade do mesmo nome), cujo marido foi um dos responsáveis pelo início do plantio de café na província de São Paulo. Seu pai, paulista de nascimento, exercia a chefia do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) em Itaqui. Na família de sua mãe, dedicada tradicionalmente à política em Alegrete, destacou-se Luís de Freitas Vale, barão de lbirocaí. Seu bisavô Luís Inácio Jacques presidiu a Câmara Municipal em 1860. E o tio materno, Manuel de Freitas Vale foi eleito intendente de Alegrete em 1900, 1910 e 1913. Dentre seus irmãos destacaram-se Ciro Aranha e Luís Aranha como revolucionários em 1930, tendo este último presidido o Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Marítimos (IAPM) em 1938. Seu primo Ciro de Freitas Vale exerceu interinamente o cargo de ministro das Relações Exteriores em 1939 e em 1949, tendo sido ainda embaixador do Brasil na Alemanha (1939-1942), na Argentina (1947-1948), no Chile (1952-1955) e na Organização das Nações Unidas (ONU, 1955-1960).

Em 1903, contando nove anos, ingressou como interno no Colégio dos Jesuítas de São Leopoldo (RS), na época denominado Ginásio Nossa Senhora da Conceição, e aí permaneceu até 1906, quando, na iminência de ficar cego, foi obrigado a interromper os estudos. Após breve período sob cuidados médicos em Buenos Aires, viajou no ano seguinte para o Rio de Janeiro, então capital federal, para dar continuidade ao tratamento, preparando-se ao mesmo tempo para a admissão no Colégio Militar, onde ingressou ainda em 1908. Concluindo o curso secundário em 1911, prestou exame para a Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, onde se matriculou em 1912. Data dessa época sua amizade com Virgílio de Melo Franco, que alcançaria projeção política com a Revolução de 1930, e com Rubens Antunes Maciel. Estreitou também amizade nesse período com José Antônio Flores da Cunha, que viria a exercer o governo do Rio Grande do Sul. Em janeiro de 1914 partiu para a Europa em companhia de Rubens Antunes Maciel. Em Paris, matriculou-se em curso de aperfeiçoamento oferecidos pela École des Hautes Études Sociales (Sorbonne). Viajou ao sul da França para tratamento de saúde e para a Itália onde tomou aulas de italiano e participou de conferências de juristas. Esteve também na Suiça e, em agosto, com o início da Primeira Guerra Mundial, reencontrou-se com Maciel e sua irmã Eloá em Paris, regressando ao Brasil. Retomou, então, o curso universitário.

Durante o período em que freqüentou a Faculdade de Direito, aproximou-se de colegas que na política gaúcha se ligavam às oposições, embora seu pai fosse um republicano. Manteve também intensa atividade política contra o candidato ao Senado, marechal Hermes da Fonseca, apoiado pelo chefe do PRR e presidente do Rio Grande do Sul, Antônio Augusto Borges de Medeiros, e contra o líder situacionista José Gomes Pinheiro Machado, senador pelo Rio Grande do Sul. Aranha chegou mesmo a liderar uma campanha estudantil contra ambos, participando de comícios e manifestações no largo de São Francisco, no Rio. Embora não fosse gasparista — designação dada aos seguidores de Gaspar da Silveira Martins, líder do Partido Liberal gaúcho, de oposição ao PRR — passou a freqüentar, provavelmente influenciado por Rubens Antunes Maciel e outros gaúchos que estudavam no Rio, o Grupo Gaspar Martins, formado por universitários.

Preocupado com a intensa participação de Osvaldo na politica estudantil, Pinheiro Machado escreveu a Euclides Aranha pedindo-lhe que interviesse junto ao filho de modo a “acalmar o ânimo dos estudantes”. Assim, em agosto de 1915, Euclides enviou uma carta ao filho aconselhando-o a moderar sua oposição a Hermes da Fonseca. A recusa em acatar as sugestões do pai resultou num estremecimento da relação que acabou sendo resolvido com a intermediação de sua noiva Delminda Benvinda Gudolle (Vindinha) e de sua mãe. No início de setembro, Pinheiro Machado foi assassinado, exacerbando os ânimos estudantis. Osvaldo continuava atuando nos meios estudantis e, logo a seguir,  foi convidado a representar o Brasil no Congresso Pan-americano de estudantes em Montevidéu. Foi incumbido de saudar publicamente Rui Barbosa quando este regressou de Buenos Aires após criticar a neutralidade argentina na conflito mundial. Em 1916, quando colou grau em ciências jurídicas e sociais. Após a formatura, retornou ao Rio Grande do Sul, permanecendo por alguns meses na estância Alto Uruguai.

Em princípios de 1917 instalou sua banca de advogado em Uruguaiana, município vizinho de Itaqui e Alegrete e próximo a Santana do Livramento, São Borja e Quaraí, locais em que freqüentemente exerceu sua atividade profissional. Segundo seu biógrafo Francisco Talaia O’Donnell, o fato de Aranha não se ter estabelecido em Alegrete deveu-se talvez a um convite de Flores da Cunha, que então ocupava a intendência (atual prefeitura) de Uruguaiana. Pouco depois de haver fixado residência nessa cidade, casou-se, em meados de junho, com Vindinha. Entre 1917 e 1923 dedicou-se quase exclusivamente à advocacia, obtendo em pouco tempo alto conceito profissional. Já em meados de 1917 o também advogado Getúlio Vargas, que se formara em 1907, fazia-lhe consultas sobre assuntos jurídicos, prática que se tornaria cada vez mais freqüente entre ambos, que chegariam inclusive a ter clientes em comum.  Bem sucedido profisionalmente, atuava em questões relacionadas com transações de terras e gado, inclusivecom argentinos e uruguaios. Além disso, atuava com causas familiares e de sucessão, aplicando os conceitos do novo Código Civil. Ainda nesse período, envolveu-se em política apoiando o PRR e Flores da Cunha na eleição local de 1920. Em 1921, discursou em Bagé a favor da candidatura de Nilo Peçanha para a presidência da República. No início da década de 1920 a estância do coronel Euclides Aranha foi atingida pela crise econômica que então se expandia por toda a campanha gaúcha, e seus pais enfrentaram problemas financeiros por alguns anos.

Os conflitos durante o quinto governo Borges

Ativaram-se em 1922 as articulações visando as eleições para a presidência do estado, que se realizariam em novembro. Borges de Medeiros, que presidira o Rio Grande de 1898 a 1908 e que desde 1913 voltara a chefiar o governo gaúcho, decidiu, em setembro, relançar sua candidatura, aspirando assim ao quinto mandato. Como Borges até então não tivesse concorrente, Osvaldo Aranha resolveu manifestar-se publicamente a seu favor, pressionado pelo pai e pelos amigos mais chegados, a maioria dos quais, como Getúlio Vargas, Flores da Cunha, João Neves da Fontoura e Firmino Paim Filho, já vinha participando ativamente do PRR.

No mês seguinte, contudo, a oposição — que então incluía os federalistas, os republicanos dissidentes e os remanescentes do Partido Republicano Democrático (PRD) — lançou a candidatura de Joaquim Francisco de Assis Brasil, íntimo da família Aranha apesar de seu passado como adversário de Júlio de Castilhos e de Borges de Medeiros, republicanos históricos. Em vista dessa nova indicação, Osvaldo Aranha escreveu a seu pai e a Assis Brasil. A este, Aranha pediu desculpas por não poder apoiá-lo, já que se havia comprometido com Borges. Segundo Talaia O’Donnell, essa atitude explica por que Osvaldo Aranha seria sempre muito prestigiado pelos libertadores.

Encerrou-se no Rio Grande do Sul em janeiro de 1923 a apuração das eleições de novembro do ano anterior, com Borges de Medeiros derrotando Assis Brasil e mantendo a presidência do estado. Os perdedores rebelaram-se, convencidos de que houvera fraude nas eleições, e no dia 25, quando Borges tomava posse, uma série de levantes em diversos pontos do território gaúcho deu início a um movimento que duraria cerca de dez meses. Ao se iniciar o conflito, Osvaldo Aranha, paralelamente ao exercício da advocacia, vinha desempenhando as funções de instrutor do Tiro de Guerra, o que lhe proporcionou uma certa facilidade no recrutamento de efetivos para a formação de corpos provisórios legalistas, tropas irregulares compostas por civis. Assim, organizou seu próprio grupo de provisórios, o 5º Corpo da Brigada Oeste, composto em sua maioria por pessoas de Itaqui, de Alegrete e municípios vizinhos. Para comandá-lo, recebeu a patente de tenente-coronel outorgada pelo governo do estado. O 5º Corpo serviu junto às tropas do coronel Flores da Cunha, comandante da Brigada Oeste, que por sua vez se encontrava subordinada ao comando geral do coronel Claudino Nunes Pereira.

Osvaldo Aranha combateu em Santa Maria Chico, Santa Rosa e Picada do Aipo (Campo Osório). O mais violento dos combates travou-se, contudo, em junho, quando da travessia da ponte sobre o rio Ibirapuitã, nos arredores de Alegrete, então ocupada pelas tropas do caudilho Honório Lemes, o mais popular entre os chefes rebeldes de 1923. Lutando na vanguarda da Brigada Oeste ao lado de Flores e do irmão deste, major Guilherme Flores da Cunha, que morreria em combate, Aranha foi atingido no ombro. As tropas governistas só conseguiram atravessar a ponte numa segunda carga. Recuperando-se do ferimento, Aranha participou ainda dos combates de Vista Alegre e de Quaraí-Mirim. Em fins de setembro, no entanto, adoeceu e transferiu o comando do 5º Corpo ao major Laurindo Ramos. Recolheu-se em seguida a Uruguaiana, para tratamento. Reincorporou-se à coluna de Flores em fins de outubro mas não voltou ao combate em virtude do armistício negociado por autoridade federais.

O fim do conflito foi selado no início de dezembro de 1923 com a assinatura do Pacto de Pedras Altas, que garantia a permanência de Borges de Medeiros no governo até o final do mandato, mas impedia nova reeleição. Em janeiro de 1924 Aranha foi chamado pelo presidente do estado para assumir a subchefia de polícia da região de fronteira, que tinha por sede Alegrete. Naquele momento, o cargo era dos mais delicados, exigindo de seu ocupante grande sensibilidade para o apaziguamento dos revolucionários que regressavam do exílio, de modo a evitar novos choques entre estes e os republicanos. Também em 1924 começou a lecionar direito internacional na Faculdade de Direito de Porto Alegre, muito embora só tenha sido nomeado em 1927. Por outro lado, seu pai foi eleito vice-intendente de Itaqui.

O acordo de Pedras Altas não chegou a promover a total pacificação do estado, pois os maragatos — designação inicialmente pejorativa dada às oposições pelos republicanos, que por sua vez levavam o apelido de chimangos — continuaram a reclamar de perseguições movidas pelo governo de Borges de Medeiros. Essas insatisfações confluíram com as rebeliões tenentistas que grassavam no país desde 1922. Assim, em outubro de 1924, as guarnições federais de Santo Ângelo, São Luís Gonzaga, São Borja, Uruguaiana e Alegrete, comandadas pelo capitão Luís Carlos Prestes, rebelaram-se, solidárias com a revolta tenentista chefiada a partir de julho pelo general lsidoro Dias Lopes em São Paulo. O movimento militar contou ainda com o auxílio de elementos da Aliança Libertadora, que desde janeiro de 1924 passara a congregar as oposições no estado. Osvaldo Cordeiro de Farias afirma em suas memórias que Borges de Medeiros manteve entendimentos com os conspiradores militares de 1924 e o fez através de, entre outros, Osvaldo Aranha, que teria desisitdo de apoiar a revolta ao comprovar que não tinha condições para levantar parte do PRR sem o apoio de Borges. Este, por sua vez, logo determinou a mobilização da Brigada Militar e de todos os corpos provisórios contra os revoltosos.

Achando-se a cidade de Itaqui ameaçada em duas direções pelos rebeldes — cujas forças vindas de Uruguaiana buscavam a junção com as de São Borja e São Luís, onde Prestes estabelecera seu quartel-general —, Osvaldo Aranha, não obstante o que reportou Cordeiro de Farias, reuniu novo corpo provisório, composto basicamente pelos remanescentes do conflito anterior. Já em janeiro de 1925 Borges anunciava o sufocamento do movimento revolucionário, cujas forças haviam conseguido manter ao longo de dois meses uma base de apoio na região noroeste do estado. A partir de então, Prestes comandou a marcha para o norte, tentando uma junção com as forças rebeldes paulistas. Desse encontro surgiria a Coluna Prestes, que percorreu o país até 1927, quando se internou em território boliviano.

Da Revolução de 1924 Osvaldo Aranha saiu prestigiado e politicamente fortalecido, principalmente por sua atuação decisiva na defesa  de ltaqui. Assim, logo no início do ano seguinte, Borges de Medeiros indicou-o, candidato à intendência de Alegrete, então um dos maiores redutos da oposição libertadora. Apesar de sua indicação ter sido mal recebida num primeiro momento, Aranha rapidamente conseguiu controlar a situação política local. Durante sua gestão à frente da intendência, entre 1925 e 1927, foi sensível à modernização operada na cidade, que passou a ser a única do estado, além de Porto Alegre, a possuir luz elétrica nas ruas, calçamento e rede de esgotos. Para tanto, Osvaldo Aranha contou com a ajuda do governo estadual, interessado no sucesso da administração republicana naquele que até então era um dos principais municípios oposicionistas.

Em setembro de 1925 eclodiu no Rio Grande do Sul uma terceira revolta, liderada pelo “general” Honório Lemes, até então foragido, que comandou a invasão do estado por uma tropa de rebeldes, visando a derrubada de Borges de Medeiros. O movimento era hostil também ao presidente da República Artur Bernardes, a quem o caudilho considerava traidor porque este, depois de sofrer a oposição de Borges na campanha eleitoral, havia conservado o líder republicano gaúcho no poder em 1923. Imediatamente o comandante da 3ª Região Militar (3ª RM) mandou organizar um destacamento misto, com um corpo de tropas auxiliares, um contingente do Exército e outro da Brigada Militar, entregando o comando a Flores da Cunha. A esta formação se juntou Osvaldo Aranha, à frente de um grupamento integrado por moradores de Alegrete e Itaqui, entre os quais se incluía seu irmão Luís. Após alguns dias de perseguição aos rebeldes, que haviam adotado a tática do movimento, as tropas legalistas comandadas por Flores e Aranha conseguiram acuar os libertadores, acabando por aprisionar Honório Lemes junto com cinco companheiros integrantes do seu estado-maior próximo à localidade de Passo da Conceição.

Novo movimento armado, conhecido como Coluna Relâmpago, irrompeu no território gaúcho em fins de 1926, visando impedir a posse de Washington Luís na presidência da República. Concentrada basicamente numa unidade do Exército em Santa Maria, essa revolta era liderada pelos irmãos Nélson e Alcides Etchegoyen, os quais, sem conseguir controlar a cidade, acabaram por abandoná-la. Mais uma vez Aranha formou um corpo provisório com conterrâneos do Alegrete e se apresentou ao comando da 3ª RM, que o designou para chefiar a vanguarda legalista e fazer o reconhecimento da região onde provavelmente estariam as forças rebeldes. O encontro entre os dois grupos se deu nos campos do Seival, no município de Caçapava do Sul, a 25 de novembro. Nesse combate Osvaldo Aranha foi atingido no pé direito por uma bala que esfacelou os ossos do calcanhar. Levado imediatamente para Lavras, onde sua mulher Vindinha foi encontrá-lo, recebeu o primeiro atendimento sendo então transferido para Bajé, onde foi controlada forte infecção, evitando-se a amputação do pé. Durante anos, contudo, sofreu as seqüelas deste ferimento, o que o obrigou, inicialmente a usar bengalas e depois sapatos especiais.

Aproveitando o crescente prestígio de Aranha pela sua bravura no Seival, Borges de Medeiros inclui-o na chapa de candidatos do PRR a deputado estadual nas eleições de 15 de novembro de 1926. Aranha, ainda acamado, foi folgadamente eleito para a Assembléia de Representantes do estado, mas não assumiria o novo cargo pois logo seria eleito também para a Câmara Federal.

De fato, no início de janeiro de 1927, Borges de Medeiros colocou um trem à disposição de Aranha para trazê-lo a Porto Alegre onde foi triunfalmente recebido e recepcionado pelo próprio presidente do estado. No mesmo dia, discursou da sacada do Grande Hotel para um grande público reafirmando seus compromissos com o PRR. Após certa hesitação em razão de seu estado de saúde e de preocupações com a política de sua cidade natal da qual ainda era intendente, Aranha aceitou concorrer a uma vaga para deputado federal , aberta pela ida de Getúlio Vargas para o ministério da Fazenda. Foi eleito em 24 de fevereiro, pelo segundo distrito, juntamente com Flores da Cunha, Firmino Paim Filho, Sérgio de Oliveira e, pela oposição, Batista Lusardo. Osvaldo Aranha tomou posse do seu mandato na Câmara Federal no Rio em 26 de maio de 1927, vindo a integrar os trabalhos parlamentares.

Sua permanência na capital da República, todavia, foi breve e interrompida por duas viagens ao Rio Grande do Sul em junho-julho e em novembro para tratar de problemas políticos no Alegrete relacionados com o seu antigo vice-intendente e para providenciar nova eleição para a intendência, ocupada finalmente pelo candidato proposto por Aranha. Até 1930, continuaria a ter grande influência sobre a política de seu município natal. Com a eleição de Vargas, em novembro de 1927, para a presidência do Rio Grande do Sul, Aranha foi convidado para ocupar a Secretaria do Interior e Justiça do estado. Assumiu o cargo em janeiro de 1928. Eram da responsabilidade daquele órgão de governo as diretorias de Higiene e de Instrução Pública, a Brigada Militar e a polícia do estado, entre outros departamentos. Naquelas duas diretorias a gestão de Aranha foi caracterizada por medidas de certo modo inovadoras, tais como a criação dos primeiros postos de higiene e elaboração do Regulamento das Escolas Complementares, então uma das bases do ensino primário. Um dos estabelecimentos de ensino criados nesse período foi a Escola Complementar de Alegrete, hoje Instituto Osvaldo Aranha. O ponto básico de sua administração, no entanto, foi a preocupação em assegurar maior autonomia econômica ao estado. Vargas procurou, logo nos primeiros dias de seu governo, avaliar a situação deficitária vivida pelas indústrias gaúchas, especialmente as do vinho, da banha e do charque, principais produtos do Rio Grande. Após alguns meses de estudos, realizados por uma pequena equipe da Secretaria do Interior, Aranha apresentou um programa de ação que seria publicado em 1929 com o título O sindicalismo no Rio Grande do Sul. Esse documento, um balanço dos empreendimentos agrícolas e industriais do estado, apontava deficiências básicas da economia gaúcha, responsáveis por um processo de superprodução, dispersão do crédito e concorrência sem lucro que levou a uma crise industrial. Para eliminar tais deficiências, Aranha propunha a formação de associações ou sindicatos de produtores agrícolas industriais, primeiro passo para a eliminação do excesso de produtos e marcas. Da adoção desse programa resultou no final da década de 1920 um aumento do impulso associativo. Pelo menos três grandes sindicatos de produtores foram criados: o do charque, o da banha e o do vinho. Por seu lado, os comerciantes organizaram a Federação das Associações Comerciais do estado. A atuação de Osvaldo Aranha foi contudo desviada dos problemas gaúchos ao se iniciar no Distrito Federal o debate sobre a sucessão do presidente Washington Luís.

A Aliança Liberal e a Frente Única Gaúcha

Ao iniciar-se o ano de 1929 já havia fortes indícios de que o presidente Washington Luís não respeitaria na campanha presidencial a rotina dos acordos “café-com-leite”, ou seja, a aliança entre São Paulo e Minas Gerais na condução da política nacional, e se fixaria na candidatura de seu protegido Júlio Prestes, presidente de São Paulo, em detrimento de Minas. Com essa escolha, Washington Luís pretendia garantir a continuidade, no quadriênio seguinte, da linha mestra de seu governo: a política monetária de retorno ao padrão-ouro e de fixação da taxa de câmbio acima dos índices do mercado, prejudicando as exportações. Discordando da candidatura de Prestes, porém, Minas Gerais se aproximou do Rio Grande do Sul, visando com isso lançar um candidato de oposição. As negociações desenvolvidas pelos dois estados foram traduzidas num acordo secreto, assinado em 17 de junho de 1929 por Francisco Campos e José Bonifácio de Andrada e Silva, representantes do presidente Antônio Carlos Ribeiro de Andrada e do Partido Republicano Mineiro (PRM), e Neves da Fontoura, líder da bancada republicana gaúcha na Câmara dos Deputados e representante de Vargas e Borges de Medeiros. Por esse acordo, conhecido como Pacto do Hotel Glória, ficavam acertados, entre outros pontos, o veto de Minas ao nome de Júlio Prestes, a retirada da candidatura mineira de Antônio Carlos e o lançamento de um gaúcho, Borges de Medeiros ou Getúlio Vargas, para encabeçar a chapa oposicionista. No dia seguinte, João Daudt de Oliveira partia para Porto Alegre, levando, a pedido de João Neves, uma cópia do documento para ser entregue a Borges.

Todavia, chegando à capital gaúcha, Daudt foi retido por Vargas, que preferiu confiar a Osvaldo Aranha a missão de ir a Irapuazinho, fazenda de Borges em Cachoeira do Sul, para lhe entregar o texto do documento, acompanhado da carta de Neves e de uma outra, dele próprio, Vargas. Como o secretário do Interior ainda era considerado um dos políticos gaúchos favoráveis à indicação de Júlio Prestes, chegou-se a especular que ele teria ido ao encontro de Borges para comunicar-lhe que a candidatura do presidente paulista havia sido definida. Essa versão foi divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo. De volta de Irapuazinho, Osvaldo Aranha comunicou a Vargas que o líder republicano aprovara, em princípio, o acordo entre os dois estados, estabelecendo apenas algumas condições para referendá-lo, as quais foram logo negociadas por João Neves junto aos representantes mineiros.

Para Getúlio Vargas, no entanto, o pacto representava um acordo precipitado, que poderia comprometer a posição do Rio Grande do Sul frente a Washington Luís, com quem procurava manter uma relação não conflitante: o presidente gaúcho temia as represálias econômicas que poderiam advir de uma ruptura com o governo central. Durante o mês de julho, Vargas, assim como Antônio Carlos, trocou cartas com Washington Luís a propósito do problema sucessório, tendo então revelado ao presidente da República que era candidato, com o apoio de Minas. Poucos dias depois, determinou a ida de Osvaldo Aranha ao Rio de Janeiro com a missão de discutir com o presidente e com representantes do situacionismo federal, mineiro e paulista: o objetivo de Vargas era fazer com que Washington Luís aceitasse sua candidatura ou, pelo menos, a de um tertius que contasse com a aprovação de Minas. As conversações desenvolvidas no Rio por Aranha chegaram ao fim, todavia, sem alcançar qualquer resultado positivo. Durante sua estada na capital federal, os jornais noticiaram que o presidente da República havia oferecido ao secretário gaúcho a vice-presidência na chapa de Júlio Prestes. Segundo João Neves revela em suas memórias, essa notícia era infundada, já que o convite havia sido feito anteriormente ao governador da Bahia, Vital Soares, que aceitara participar da chapa. O principal fator do fracasso da missão de Aranha foi a intransigência do presidente da República em não abrir mão da candidatura de Júlio Prestes.

Enquanto o secretário gaúcho ainda se encontrava no Rio, a comissão executiva do PRM, no dia 30 de julho, lançou a candidatura de Getúlio Vargas e de João Pessoa, presidente da Paraíba, respectivamente à presidência e à vice-presidência da República. Vargas, todavia, condicionou sua indicação à obtenção do apoio do Partido Libertador (PL) gaúcho, o que foi garantido através da formalização da Frente Única Gaúcha (FUG), integrada pelo PRR e PL, a 1º de agosto. O rompimento oficial com o governo ocorreu durante a sessão da Câmara no dia 5, à qual Aranha esteve presente. Nessa ocasião, os deputados aliancistas procuraram justificar o rompimento dos mineiros com o argumento da interferência de Washington Luís em sua própria sucessão. Assim foi deflagrada a campanha da Aliança Liberal, cujo programa propunha a concessão de uma anistia ampla a todos os presos políticos, processados e perseguidos desde 5 de julho de 1922 e, ainda, capitaneando uma série de reformas políticas, o voto secreto.

Osvaldo Aranha seguiu dois dias depois para Minas Gerais em companhia de Francisco Campos, João Neves, José Pires Rebelo e João Simplício de Carvalho, a fim de combinar com Antônio Carlos a organização da campanha eleitoral, examinando suas necessidades e hipóteses. Encerrados os trabalhos, deixou o Rio de Janeiro para Porto Alegre em 19 de agosto. A política mineira, todavia, não entrou unida na campanha. Logo de início, Washington Luís conseguiu recrutar dois mineiros para a campanha do candidato oficial: o ministro da Justiça, Augusto Viana do Castelo, e o diretor da Carteira Comercial do Banco do Brasil, Manuel de Carvalho Brito — responsável pela criação, em Minas, da Concentração Conservadora, de apoio a Júlio Prestes —, o que representou o primeiro revés sofrido pela Aliança Liberal. Enquanto isso, Osvaldo Aranha e João Neves, pelo Rio Grande, e Afrânio de Melo Franco, Francisco Campos e José Bonifácio, por Minas, procuravam consolidar o acordo entre este estado e a Paraíba, de modo a neutralizar a campanha do governo federal, que pretendia abafar a reação contra a imposição de uma candidatura pelo Catete. Esses políticos aliancistas mostravam-se cada vez mais convencidos de que Washington Luís tudo faria para garantir a eleição e posterior reconhecimento de seu candidato, o que os levou a cogitar da possibilidade de preparar um movimento armado.

Por outro lado, após a ruptura dos estados aliancistas com o governo federal, os políticos mais radicais da Aliança, entre os quais já se situava Osvaldo Aranha, passaram a ser procurados por alguns dos “tenentes” exilados em Buenos Aires, como Juarez Távora, Luís Carlos Prestes, Antônio de Siqueira Campos, João Alberto Lins de Barros e Djalma Dutra. Em setembro, segundo seu próprio depoimento, Luís Carlos Prestes encontrou-se com Vargas em Porto Alegre. Dos entendimentos orientados a partir de então, do lado dos exilados, por Luís Carlos Prestes — que apesar de tudo ainda resistia à idéia da participação dos “tenentes” na Aliança —, resultou a ida a Porto Alegre, na primeira quinzena de outubro, de Siqueira Campos, João Alberto e Juarez Távora, que participariam também dos entendimentos com os políticos de Minas e da Paraíba. Dessa reunião entre os políticos gaúchos e os três exilados (Aranha forneceu a Juarez um passaporte falso) ficou decidida a ida de Távora para o Nordeste do país, onde procuraria articular um movimento. Antes, porém, deveria, em companhia de Siqueira, entrar em entendimento, em nome do governo gaúcho, com o presidente Antônio Carlos a respeito da possível contribuição de Minas para a compra de armas no exterior.

Poucos dias depois, a 17 de outubro, Fernando de Melo Viana, vice-presidente da República, rompeu com o PRM por discordar da indicação de Olegário Maciel para o governo de Minas, em substituição a Antônio Carlos. Indispôs-se portanto com a Aliança Liberal, após o que aderiu oficialmente à Concentração Conservadora. Apesar de a política mineira se esforçar em manter os compromissos assumidos com a Aliança Liberal, a dissidência de Melo Viana fez aflorar no PRM sinais de cisão interna. Vargas, procurando aproveitar a situação de modo a estabelecer a reconciliação com Washington Luís, fez forte pronunciamento contra o situacionismo mineiro, censurando sua liderança por não ter sabido evitar o rompimento de Melo Viana.

O presidente gaúcho deu continuidade a seus esforços de reconciliação durante todo o mês de novembro. No dia 29 reuniu-se com Borges de Medeiros, Osvaldo Aranha, João Neves e Flores da Cunha, prevalecendo então a proposta de se fazer uma sondagem junto aos “aliados” (Minas e Paraíba) sobre os termos em que a paz poderia ser negociada. Para Vargas, a manutenção da candidatura liberal não se justificaria caso Júlio Prestes aceitasse o programa da Aliança no seu todo ou mesmo em parte, mas essa opinião foi recusada por Minas, que pressionou os gaúchos a uma decisão. Vargas manteve, no entanto, a dubiedade, ora aproximando-se dos aliancistas mais exaltados, ora de Washington Luís, junto ao qual se fez representar por Paim Filho — responsável pela assinatura, no mês seguinte, de um modus vivendi com o presidente da República e com Júlio Prestes.

Prosseguiram em dezembro os contatos com os revolucionários de 1922 e 1924. Para a ala mais radical da Aliança Liberal, a adesão de Luís Carlos Prestes, que ainda se mantinha arredio a qualquer tipo de colaboração, seria fundamental não apenas para o caso de um possível movimento armado mas principalmente para a vitória da chapa aliancista nas eleições de 1º de março de 1930, uma vez que a marcha da Coluna Prestes pelo interior do país havia transformado o líder tenentista no nome de maior prestígio popular nas regiões por onde passara, tornando-o inclusive conhecido como o Cavaleiro da Esperança. Assim, no início do mês, Osvaldo Aranha, atendendo à insistência de João Alberto, Siqueira Campos e Juarez Távora, convidou Prestes para um encontro na capital gaúcha e lhe ofereceu a chefia militar do movimento. Prestes, todavia, não desejava fazer a revolução com os políticos e, sem se comprometer formalmente, impôs condições para chefiar a luta: preparação militar por ele dirigida, dinheiro e um esquema de sustentação para as manobras e viagens de seus companheiros e para ele mesmo. Tudo isso foi-lhe garantido por Osvaldo Aranha, como representante de Vargas. O dinheiro foi-lhe entregue mais tarde, parte por intermédio de um banco em Montevidéu e parte pessoalmente por Rubens Antunes Maciel. Com o rompimento de Prestes em maio do ano seguinte, no entanto, esse dinheiro não chegaria a ser utilizado pelos revolucionários, tendo sido empregado somente em 1935, quando dos preparativos para a Revolta Comunista de novembro.

Essa primeira fase do movimento conspirativo não implicava ainda uma preparação real para a luta armada. Os contatos eram realizados paralelamente à propaganda da Aliança Liberal com vistas às eleições. A idéia de uma revolução repugnava ainda a alguns dos principais aliancistas, como Borges de Medeiros e Antônio Carlos. O início de 1930 foi marcado pelo crescimento do apoio popular à Aliança. No dia 2 de janeiro, Getúlio Vargas, acompanhado de João Pessoa, leu sua plataforma de candidato numa grande manifestação realizada na esplanada do Castelo, no Rio de Janeiro. Em seguida, a Aliança Liberal organizou caravanas que percorreram os estados fazendo a pregação de seu programa. Já em fevereiro Osvaldo Aranha assumiu interinamente a presidência do Rio Grande do Sul, uma vez que Vargas não considerava lícito presidir as eleições no estado sendo ele próprio um dos candidatos à chefia da República. A indicação de Osvaldo Aranha provocou profundo mal-estar, pois João Neves da Fontoura, então vice-presidente do estado, era o substituto legal de Vargas.

A Revolução de 1930

Aplicando os métodos típicos da época aos quais, onde pôde, também não se furtou a oposição, não foi difícil a Washington Luís obter a 1º de março de 1930 a vitória de Júlio Prestes e de seu companheiro de chapa, Vital Soares, com grande diferença de votos sobre a chapa da Aliança Liberal. Ganhou força, então, a perspectiva de um movimento armado. Ao longo do mês, Osvaldo Aranha transmitiu aos governantes de diversos estados as denúncias que recebera sobre fraudes eleitorais, enviando protestos ao Ministério da Justiça por esses acontecimentos, assim como ao Ministério das Relações Exteriores pela divulgação do resultado do pleito no exterior antes do término das apurações. Trocou ainda correspondência com Washington Luís sobre o desenrolar das eleições no Rio Grande do Sul e no restante do país.

Em 19 de março, todavia, Borges de Medeiros concedeu entrevista reconhecendo a vitória de Júlio Prestes e, de modo a encerrar o assunto, considerando positivo o fato de ele ter superado Vargas por margem indiscutível de votos. Declarou ainda que o Rio Grande do Sul deveria, se convidado, cooperar com o futuro governo. Evidenciava-se assim a divergência entre os integrantes da Aliança Liberal, especialmente dentro do PRR: enquanto o grupo liderado por Osvaldo Aranha e João Neves lutava pela organização de um levante armado, outros, como Borges, davam por encerrada a coalizão. As declarações do líder republicano provocaram, portanto, forte reação. Segundo Alexandre Barbosa Lima Sobrinho, a dissidência chefiada por Aranha e João Neves correspondia à posição do PL e da população gaúcha de forma que o PRR e a FUG seriam diretamente atingidos caso esses políticos assumissem a ruptura com o governo federal. Uma reunião na chácara de Osvaldo Aranha entre este, João Neves, Lindolfo Collor e Maurício Cardoso foi objeto de grande atenção, pois ali se decidiria o rompimento com Getúlio ou a obediência ao partido. À última hora, Vargas decidiu participar do encontro, o que amenizou as diferenças. Ao término dos debates, ficou decidido não dividir o PRR, prestigiar a chefia de Borges e transmitir a este a convicção de que o Rio Grande do Sul, tendo em vista os compromissos assumidos, não poderia entrar em entendimentos com Júlio Prestes.