RAMALHO, TALES

Ajuda
Busca

Acervos
Tipo
Verbete

Detalhes

Nome: RAMALHO, Tales
Nome Completo: RAMALHO, TALES

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
RAMALHO, TALES

RAMALHO, Tales

*dep. fed. PE 1967-1986; min. TCU 1986-1988; ass. esp. Pres. Rep.1988-1989.

Tales Bezerra de Albuquerque Ramalho nasceu na cidade da Paraíba, atual João Pessoa, no dia 7 de julho de 1923, filho de Francisco Xavier de Albuquerque Ramalho e de Lucília Bezerra de Albuquerque Ramalho. Seu pai pertencia a tradicional família de fazendeiros da cidade de Teixeira, na Paraíba. Sua mãe era irmã de Ubaldo Bezerra de Melo, interventor no Rio Grande do Norte em 1946.

Tendo seu pai, funcionário da Inspetoria de Obras contra as Secas, sido transferido, logo após seu nascimento, para o Rio Grande do Norte, Tales Ramalho fez os estudos primários em Natal. Com a remoção do pai para o Ceará, em 1935, cursou o secundário no Colégio Militar de Fortaleza. Mudou-se em 1940 para Recife, onde cursou dois anos da Faculdade de Engenharia, bacharelou-se em ciências jurídicas e sociais e obteve o grau de professor de língua e literatura portuguesas. Começou a fazer política no meio estudantil, sendo eleito já no primeiro ano de faculdade secretário do diretório acadêmico, tornando-se, desde então, delegado de Pernambuco aos congressos da União Nacional dos Estudantes (UNE). Embora residindo em Recife, participava de todas as campanhas e articulações dessa organização estudantil. Em 1946, trabalhou ativamente para a eleição de José Bonifácio Coutinho Nogueira à presidência da entidade estudantil. Na UNE conheceu, entre outros, Fernando Pedreira, Joaquim Afonso Mac Dowell Leite de Castro e Paulo Egídio Martins.

Passou a trabalhar como repórter em 1952 no Diário de Pernambuco, no qual, com o pseudônimo de Jerônimo Colaço de Magalhães, foi responsável por um rodapé de crítica literária. Nessa época, teve como companheiro de jornal José Sarney. Seu ingresso efetivo na política deu-se em 1954, quando participou intensamente da campanha do general Osvaldo Cordeiro de Farias, candidato do Partido Social Democrático (PSD) ao governo de Pernambuco. Com a vitória de seu candidato no pleito de outubro, retornou às funções de advogado e professor de literatura portuguesa na Universidade de Pernambuco.

Nas eleições de outubro de 1958 para o governo do estado, o candidato Cid Sampaio, lançado pela União Democrática Nacional (UDN), com amplo apoio do empresariado e do proscrito Partido Comunista Brasileiro, então Partido Comunista do Brasil (PCB), derrotou Jarbas Maranhão, candidato do PSD apoiado por Cordeiro de Farias. Descontente, Cordeiro de Farias renunciou em novembro desse ano. Antes, porém, convidara Tales Ramalho para a Secretaria de Governo, que estava vaga porque o titular, Antônio Geraldo Gonçalves, havia se desincompatibilizado para concorrer à Câmara dos Deputados. Ao assumir o governo, o vice-governador Otávio Correia de Araújo reiterou o convite. Tales Ramalho atendeu e manteve-se na secretaria até 31 de janeiro de 1959, quando Cid Sampaio tomou posse. Em seguida, voltou às suas atividades na advocacia e no magistério.

Candidatou-se a deputado estadual em Pernambuco na legenda do PSD em outubro de 1962, obtendo a primeira suplência. Em suas palavras, exerceu o mandado “durante muito tempo por causa daquele processo de antigamente, em que um se licenciava em benefício de outro”.

Após o movimento político-militar de 31 de março de 1964, que depôs o presidente João Goulart (1961-1964), com a extinção dos partidos políticos pelo Ato Institucional nº 2 (27/10/1965) e a posterior instauração do bipartidarismo, participou da organização e criação do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido fundado em março de 1966 e integrado pelas forças políticas de oposição. Em novembro desse ano, elegeu-se deputado federal por Pernambuco na legenda do MDB. Assumindo o mandato em fevereiro de 1967, tornou-se, em 1970, segundo-secretário da mesa diretora da Câmara dos Deputados e membro da Comissão de Constituição e Justiça. Em novembro de 1970, reelegeu-se deputado federal por seu estado na mesma legenda, tendo sido, nessa legislatura, membro das comissões da bacia do São Francisco, de Fiscalização Financeira e Tomada de Contas, da Comissão Especial sobre Poluição Ambiental, da Comissão Especial para Integração dos Povos de Língua Portuguesa e vice-presidente da Comissão de Relações Exteriores.

Em 1972, sofreu um derrame cerebral que paralisou todo o lado esquerdo de seu corpo. Isso, porém, não o impediu de retomar, pouco tempo depois, suas atividades parlamentares e partidárias. Mais uma vez eleito deputado federal por Pernambuco em novembro de 1974 na legenda do MDB, foi escolhido, em setembro do ano seguinte, secretário-geral do diretório nacional do partido. Destacou-se nessa legislatura como um dos expoentes da facção moderada do MDB, em oposição ao setor intransigente do partido, onde se abrigavam os chamados “autênticos”. Ainda em 1975, viajou a Nova Iorque, nos Estados Unidos, como observador parlamentar das sessões da Organização das Nações Unidas (ONU). Sua atuação na secretaria geral do partido fez com que a agremiação crescesse consideravelmente na esteira da vitória eleitoral alcançada em 1974. Quando assumiu o cargo, o MDB tinha 786 diretórios municipais. Com seu trabalho, esse número elevou-se para perto de três mil.

Em julho de 1976, quando já se restabelecia da trombose, sofreu grave acidente automobilístico no Nordeste, saindo com diversas fraturas na perna direita, o que prejudicou sua condição física já comprometida pela hemiplegia resultante do derrame. Em agosto desse ano, viajou aos Estados Unidos para tratamento de saúde, deixando na secretaria geral do MDB o senador Lázaro Barbosa. Retornou ao Brasil em novembro do mesmo ano.

Em março de 1977, o governo brasileiro recusou a ajuda militar dos Estados Unidos, por considerar o relatório preparado por órgãos do governo norte-americano sobre a situação dos direitos humanos no Brasil como “uma violação do princípio de não-interferência”. Tales Ramalho sugeriu, na oportunidade, que a comissão executiva nacional do MDB procurasse pessoalmente o presidente da Re-pública, general Ernesto Geisel (1974-1979), para lhe prestar solidariedade. O grupo dos “autênticos”, que não concordava com o comportamento moderado e conciliatório do secretário-geral do partido, atribuiu-lhe propósitos adesistas. Durante o período em que se desenvolveu a política de distensão patrocinada pelo presidente Geisel, Tales Ramalho exerceu uma significativa influência moderadora no Congresso e no interior do MDB, procurando, segundo pensava, viabilizar o trânsito sem choques ao regime democrático.

Em novembro de 1978, elegeu-se mais uma vez deputado federal por Pernambuco, na mesma legenda. Com a extinção do bipartidarismo em 29 de novembro de 1979 e a conseqüente reformulação partidária, participou, juntamente com outros parlamentares, da organização do Partido Popular (PP), cuja plataforma de ação política foi lançada oficialmente pelo deputado Tancredo Neves em fevereiro de 1980. Registrado o partido na Justiça Eleitoral, foi eleito, em março do mesmo ano, líder de sua bancada na Câmara dos Deputados.

Em fins de 1981, como forma de contra-arrestar medidas eleitorais encaminhadas ao Congresso Nacional pelo governo — que seriam afinal aprovadas em janeiro de 1982 —, o PP e o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), através de suas lideranças, iniciaram entendimentos no sentido da fusão ou incorporação das duas agremiações. Tales Ramalho manifestou-se frontalmente contrário à medida, por entender que o antigo MDB, que dera origem ao PMDB, já exaurira suas metas e que o PMDB se transformara “numa frente tão ampla que incorporou desde nazistas confessos até radicais da mais tresloucada esquerda que se possa imaginar”, conforme declarações dadas a O Globo (2/5/1982). Em vista disso, quando a incorporação foi efetivada, em fevereiro de 1982, desligou-se do PP, valendo-se da suspensão da fidelidade partidária, uma das medidas eleitorais encaminhadas pelo governo ao Congresso e aprovadas por decurso de prazo.

Durante algum tempo, ficou sem partido. Finalmente, em maio de 1982, filiou-se ao Partido Democrático Social (PDS), de apoio ao governo, dizendo: “Depois de longa meditação, convenci-me de que a filiação ao PDS era a única medida capaz de conciliar-me com a coerência de toda uma vida, na luta pela causa da democracia.” Nessa nova legenda, reelegeu-se deputado federal no pleito de novembro de 1982.

Encerrando seu quarto mandato em janeiro do ano seguinte, nesse mês pregando a conciliação nacional, defendeu a adoção do voto distrital misto, considerando-o “imperativo para a estabilidade dessa democracia tão frágil que o país começa a viver”. Dando continuidade a seus trabalhos na Câmara em fevereiro, três meses mais tarde, alegando falta de homogeneidade e representatividade por parte das siglas partidárias existentes, previu uma reorganização dos partidos. A seu ver, aquela reformulação seria inevitável depois da escolha do sucessor do presidente João Batista Figueiredo, em janeiro de 1985.

Em 25 abril de 1984, esteve ausente da votação da emenda Dante de Oliveira, que, apresentada na Câmara dos Deputados, propôs o restabelecimento das eleições diretas para presidente da República em novembro daquele ano. Como a emenda não obteve o número de votos indispensáveis à sua aprovação — faltaram 22 para que o projeto pudesse ser encaminhado à apreciação pelo Senado Federal — no Colégio Eleitoral, reunido em 15 de janeiro de 1985, Tales Ramalho votou no candidato oposicionista Tancredo Neves, eleito novo presidente da República pela Aliança Democrática, uma união do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) com a dissidência do PDS abrigada na Frente Liberal. Contudo, Tancredo Neves não chegou a ser empossado na presidência, vindo a falecer em 21 de abril de 1985. Seu substituto no cargo foi o vice José Sarney, que já vinha exercendo interinamente o cargo desde 15 de março deste ano.

Tendo sido convidado pelo presidente Sarney para ocupar o cargo de ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), cargo que lhe havia sido prometido por Tancredo Neves, Tales Ramalho deixou a Câmara dos Deputados em fevereiro de 1986. Na ocasião de sua posse, no dia 20 de fevereiro, comentou: “Me afasto da política e dos partidos, mas não da cidadania. Agora sou juiz e vou fiscalizar as contas da nação.” Como ministro, em maio do ano seguinte, opinou que a definição do tempo de mandato do presidente Sarney deveria anteceder a discussão sobre o sistema parlamentarista.

Considerado um conciliador por natureza, em março de 1988 foi nomeado para o posto de assessor especial da Presidência da República, com o objetivo de facilitar as relações entre o Planalto e a Constituinte e de auxiliar o presidente Sarney no processo de sua sucessão. Aposentando-se das funções de ministro do TCU neste mesmo mês, foi empossado no dia 14, sucedendo o embaixador Rubens Ricupero, que estava afastado do cargo desde outubro do ano anterior, quando se transferira para o exterior.

Contemporâneo e amigo de Ulisses Guimarães, presidente do Congresso Constituinte, e do presidente Sarney, Tales Ramalho foi qualificado pelo último como “um dos mais talentosos políticos de sua geração”. Por ocasião de sua posse, na qual compareceram alguns membros do Centrão, grupo suprapartidário de orientação conservadora organizado na Assembléia Nacional Constituinte, declarou que não teria aceito aquele cargo caso não estivesse convicto de que o Congresso Constituinte aprovaria o sistema presidencialista e o mandato de cinco anos para o presidente Sarney. Aprovadas aquelas propostas pela Constituinte uma semana depois de ter tomado posse, restou-lhe o trabalho de costurar a “transição democrática”.

Em julho de 1988, a imprensa noticiou que a pedido do governador de Pernambuco, Miguel Arrais, Tales Ramalho se comprometera a assinar sua filiação ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) no dia 4 de agosto em Recife. Devido a uma enfermidade, contudo, acabou não comparecendo à solenidade marcada para o ato. Um ano depois, foi exonerado do cargo de assessor especial da Presidência, sendo substituído naquela função pelo ministro da Justiça, Oscar Dias Correia.

Em agosto de 1992, às vésperas do impeachment do presidente Fernando Collor de Melo, seu nome chegou a ser cogitado para substituir Célio Borja no Ministério da Justiça. No mês seguinte, contudo, negou ter recebido qualquer convite nesse sentido do presidente Collor, com quem teria se reunido duas vezes para analisar a crise política. Após este contato, considerou Collor “um presidente aberto ao diálogo”. Denominado de “artesão da política”, foi tido como um dos aliados do presidente Collor na defesa de seu mandato, contra o impeachment. Ainda em setembro, acabou desempenhando o papel de conselheiro, fazendo a articulação entre o presidente e os parlamentares da oposição, especialmente os do PMDB. Collor, no entanto, acabou sendo afastado da presidência e substituído pelo vice, Itamar Franco.

Em setembro de 1996, por ocasião da morte do ex-presidente general Ernesto Geisel, considerou-o “um instrumento da distensão política, quando a ditadura militar já estava desgastada”. Lembrou também que teria sido no período do governo Geisel (1974-1979) que “pela primeira vez o MDB lançou sua anticandidatura com a indicação do doutor Ulisses Guimarães”. No mês seguinte, quando perguntado em entrevista à imprensa como o presidente Fernando Henrique Cardoso deveria proceder para conseguir a reeleição, respondeu: “Tem que negociar de verdade. (...) tem que saber que precisa de Antônio Carlos Magalhães e José Sarney ao seu lado.”

Faleceu em Recife no dia 15 de agosto de 2004.

Foi casado com Rosália Santos de Albuquerque Ramalho, com quem teve uma filha, e contraiu segundas núpcias com Helena Ramalho.

Verônica Pimenta Veloso

atualização

FONTES: CÂM. DEP. Deputados; CÂM. DEP. Deputados brasileiros. Repertório (1967-1971, 1971-1975, 1975-1979); Diário de Pernambuco (16/8/04 – online); Estado de S. Paulo (1/9/92); Folha de S. Paulo (4/1, 15 e 19/3, 22/5, 3/6/88, 11/7/89, 6/9/92); Globo (6/3/77, 2/5/82, 26/4/84, 16/1/85, 20/2/86, 4 e 9/3, 23/7, 5/8/88, 1/9/92, 13/9 e 27/10/96); IstoÉ (23/3/88); Jornal do Brasil (18/9/75, 12/8/76, 26/3/77, 17/9/87, 6, 18 e 25/3, 23/7/88, 31/8, 14/10/92, 13/9, 29/10/96); NÉRI, S. 16; Perfil (1972 e 1980); Status (5/77); Veja (1/9/76).

 

Para enviar uma colaboração ou guardar este conteúdo em suas pesquisas clique aqui para fazer o login.

CPDOC | FGV • Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil
Praia de Botafogo, 190, Rio de Janeiro - RJ - 22253-900 • Tels. (21) 3799.5676 / 3799.5677
Horário da sala de consulta: de segunda a sexta, de 9h às 16h30
© Copyright Fundação Getulio Vargas 2009. Todos os direitos reservados