MANHA, A (1941)

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Nome: MANHÃ, A (1941)
Nome Completo: MANHA, A (1941)

Tipo: TEMATICO


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MANHÃ, A (1941)

MANHÃ, A (1941)

 

Jornal carioca diário e matutino criado em agosto de 1941 como porta-voz do Estado Novo e sob a direção de Cassiano Ricardo e Menotti del Picchia. Foi extinto em 1953.

Após a instalação do Estado Novo, embora mantida sob o controle da censura, a imprensa nunca foi verdadeiramente favorável ao governo. Desejando contar com um órgão divulgador das principais idéias do regime que inaugurara em 1937, Getúlio Vargas encarregou o coronel Luís Carlos da Costa Neto (superintendente das Empresas Incorporadas ao Patrimônio da União) e André Carrazzoni (diretor do jornal A Noite, pertencente às Incorporadas) de elaborar uma lista de nomes de possíveis diretores para um jornal abertamente governista.

O nome de Cassiano Ricardo preencheu todas as condições requeridas. Em 1937, esse autor havia publicado o livro O Brasil no original, em que defendia “a idéia de uma democracia social como terceira solução, sem comunismo nem fascismo” — um tipo de visão que ia ao encontro das expectativas de Vargas. Além disso, o próprio Cassiano Ricardo afirmava que seu pensamento político tinha muitos pontos de contato com o Estado Novo.

Assim, em 24 de maio de 1941, Cassiano Ricardo foi oficialmente convidado a assumir a chefia do novo jornal a ser lançado pelas Empresas Incorporadas ao Patrimônio da União. A despeito de alguns desentendimentos iniciais relativos à formação do corpo de redação, o novo diretor teve liberdade para convidar elementos de sua escolha, entre os quais figuravam Menotti del Picchia, Barros Vidal (secretário), Jorge Lacerda (auxiliar de direção), Cecília Meireles, Leopoldo Aires, Múcio Leão e Ribeiro Couto. Além dos funcionários estáveis, foram também chamados a prestar sua colaboração Afonso Arinos de Melo Franco, José Lins do Rego, Alceu Amoroso Lima, Oliveira Viana, Manuel Bandeira e Vinícius de Morais, entre outros.

Uma vez instalada A Manhã, a direção do matutino adotou uma postura doutrinária no exame dos problemas sociais e econômicos do país, pregando a necessidade de “um regime forte (não ditatorial) para se colocar a democracia em estado de legítima defesa”.

No editorial “Vale a pena morrer pela democracia?”, Cassiano Ricardo enumerava “os princípios já mortos do liberalismo”, argumentando que a democracia clássica trazia consigo o germe de sua própria deterioração. Afirmava ainda que “não valeria a pena morrer por esse tipo de democracia, pois ela será sempre o caldo de cultura para a anarquia e a invasão de ideologias alienígenas incompatíveis com o Brasil no original”. Por fim, o jornal defendia “um regime socializante, orgânico e capaz de realizar as aspirações mais avançadas e defender as liberdades humanas à luz de nossa formação cristã”.

Partindo desse ponto de vista, A Manhã imprimiu à sua atuação um caráter didático. Uma de suas maiores preocupações era explicar o que seria o regime quando estivesse definitivamente organizado em duas câmaras uma política e a outra de representantes das classes produtoras e trabalhadoras. Segundo Cassiano Ricardo, o jornal fazia uma exposição diária e sistemática da Carta de 1937. As idéias de Getúlio eram igualmente divulgadas e explicitadas.

Além dessa preocupação política, A Manhã tinha também uma proposta cultural. Dentro desse espírito foram lançados dois suplementos em forma de tablóide: o primeiro, Autores e Livros, dirigido por Múcio Leão, constituiu uma verdadeira história da literatura brasileira, com excelente documentação iconográfica; o segundo, Pensamento da América, dirigido por Ribeiro Couto, procurava divulgar a cultura do continente americano.

Foram também planejados os lançamentos de Críticas das Idéias, suplemento confiado a Eurialo Canabrava, e de A Manhãzinha, suplemento infantil a cargo de Cecília Meireles. Esses dois empreendimentos não foram contudo adiante.

Contando com colaboradores de prestígio reconhecido, A Manhã mantinha um alto nível cultural. Entretanto, não eram raras as desavenças entre os intelectuais colaboradores e a superintendência das Empresas Incorporadas, que se considerava no direito de opinar sobre os artigos apresentados.

Um exemplo desse tipo de problema foi o episódio que envolveu Vinícius de Morais. Em sua seção de crítica de cinema, este último muitas vezes atacava certos filmes, desagradando a algumas empresas e anunciantes, as quais por sua vez pressionavam o coronel Costa Neto. Em virtude desses incidentes, Vinícius acabou sendo afastado do jornal. Outros problemas ocorreram quando elementos do governo tentaram interferir na publicação de matérias, esbarrando na oposição do próprio Cassiano Ricardo.

Além dessas questões, A Manhã enfrentava problemas financeiros gerados pelo empreguismo e pela má administração de seu patrimônio. Forçado a vender sua sede, o jornal transferiu-se para as dependências de A Noite.

Esses problemas latentes desde a fundação do matutino agravaram-se ao surgirem os primeiros sintomas de crise do Estado Novo. Em outubro de 1943, com o lançamento do Manifesto dos mineiros, primeira manifestação ostensiva de oposição ao regime, a crise se instalou no interior do próprio jornal: ao desligamento de Afonso Arinos de Melo Franco, José Lins do Rego, Gilberto Freire e Manuel Bandeira seguiram-se várias outras demissões.

Por outro lado, em fevereiro de 1945, Getúlio Vargas promulgou um ato adicional fixando prazo para a convocação de eleições gerais no país, ato esse que foi considerado pela oposição como mais um artifício do presidente para manter-se no poder. Nesse momento, Múcio Leão apresentou uma carta de demissão na qual, além de denunciar as pressões da superintendência das Empresas Incorporadas e de demonstrar a inviabilidade de seu suplemento, protestava contra o ato adicional, negando-se a trabalhar num órgão que seria forçado a defender esse documento fascista.

Mesmo diante de tantos problemas, Cassiano Ricardo ainda tentou articular a transferência da propriedade de A Manhã para um grupo privado liderado por Roberto Simonsen e Euvaldo Lodi. Não obtendo êxito e sem possibilidade de manter o jornal de acordo com seus princípios, Cassiano Ricardo demitiu-se.

A Manhã ingressou então num período de grandes dificuldades, agravadas com a queda de Vargas. Durante o governo Dutra, Ernâni Reis foi indicado para o cargo de diretor do matutino e tentou reorganizá-lo sem êxito. Demasiadamente comprometido com o Estado Novo, A Manhã sobreviveu de maneira apagada até 1952.

Marieta de Morais Ferreira

 

 

FONTES: Anuário Bras. de Imprensa (12/5/52, 13/7/53; 15/8/54 e 16/11/55); ENTREV. FILHO, A.; RICARDO, C. Viagem.

 

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