ORGANIZACOES NAO-GOVERNAMENTAIS

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Nome: ORGANIZAÇÕES NÃO-GOVERNAMENTAIS
Nome Completo: ORGANIZACOES NAO-GOVERNAMENTAIS

Tipo: TEMATICO


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ORGANIZAÇÕES NÃO-GOVERNAMENTAIS

ORGANIZAÇÕES NÃO GOVERNAMENTAIS

 

A busca de uma definição para “organização não governamental”, ou “ONG”, esbarra na crescente polissemia, fluidez e plasticidade do termo. Indicando um “novo ator socialou um tipo particular de organização da sociedade civil, não existe entretanto uma definição precisa e consensual sobre seu recorte e seus contornos. Termo de trânsito internacional, “organização não governamental” tampouco é objeto de definição jurídica, enquanto tal. A literatura que se vem dedicando à conceituação de “ONG” é dispersa, de origens institucionais variadas ressaltando-se a do próprio campo - e de sedimentação sociológica rarefeita, não chegando a compor um debate teórico de maior densidadeA expressão foi-se tornando igualmente, nas últimas duas décadas, de uso crescentemente disseminado – ou indiscriminado - freqüentando de forma muitas vezes naturalizada, não definida, os mais diversos textos e contextos, temas e questões, do senso comum às produções sociológicas, passando por presença acentuada na mídia.

Essa diversidade de utilizações do termo é certamente correlata não apenas das variadas apropriações conceituais e políticas que possibilita, como também da relativa variedade de fenômenos sociais que serve para indicar, relacionados a organizações da sociedade civil tanto no plano de contextos nacionais, como no de canais e espaços internacionais e transnacionais entre os quais elas circulam.

Essas ressalvas justificam a busca de um sentido para as ONGs que - levando em conta suas especificidades organizacionais - considere-as de modo situacional e, contornando o senso comum que as naturaliza, historicize a existência dessas organizações denominadas por uma negação.

É freqüente em estudos atuais sobre as organizações não governamentais observações introdutórias que, buscando definições substantivas para o termo, remetem sua origem às Organizações das Nações Unidas dos finais dos anos 40, indicando um universo amplo, diversificado e pouco definido de instituições com as quais esse organismo poderia estabelecer consulta (artigo 71 da Carta das Nações Unidas assinada em São Francisco, Estados Unidos, em 26 de junho de 1945). A compreensão do fenômeno “ONG”, no entanto, não passa pela busca de continuidades institucionais no tempo, mas sim pelos significados e papéis sociais que “organização não governamental” assume no seu (re)surgimento, usos e apropriações em contextos contemporâneos.

Apenas a partir da década de 1980 viria a se afirmar o reconhecimento social mais amplo  dessa expressão para designar um conjunto de organizações privadas com características e papéis peculiares, dedicadas à ação social (articulando prestação de serviços com advocacy), as quais se colocam no espaço público e se fazem presentes nas mais diversas sociedades, compondo também redes internacionalizadas de práticas e agentes. Essa identidade institucional cria-se, portanto, no momento em que ressurge com vigor o debate sobre sociedade civil, de caráter tanto conceitual, como político-estratégico. Pode-se dizer que, nos anos 80 e 90, o “modelo” de ONG que se afirma socialmente é informado por essas discussões e pelos acontecimentos que, no final do século XX, compõem seu pano de fundo, entre os quais o fim do socialismo real, a fragilização das fronteiras nacionais, as transformações das relações entre Estado e sociedade, a debilitação de instituições de cunho representativo como partidos e sindicatos, a construção de novas motivações para a ação social e para a criação de espaços e formas associativas. As ONGs começam a ser vistas, a partir dessa conjuntura, enquanto “novidades institucionais” que integram um novo campo associativo do final do século, representando papéis em movimentos sociais e em redes relacionadas a modos diversificados de ação social e política, assim como se fazendo presentes em diferenciadas formas de interlocução da sociedade com o Estado, que variam da proposição à execução de políticas públicas, passando pelos novos desenhos de co-gestão.

Grosso modo, em termos estruturais e operacionais, podem-se definir da seguinte forma as ONGs, segundo a identidade que se construiu e consolidou nesse período: são organizações com razoável grau de independência em sua gestão e funcionamento, criadas voluntariamente, sem pretender caráter representativo por delegação e sem ter o lucro econômico como justificativa de existência. Obtêm grande parte de seus recursos de doações vindas de outras instituições. Dedicam-se a atividades ligadas a questões sociais, pretendendo a institucionalização, a qualificação do trabalho e a profissionalização de seus agentes, adotando a fórmula “projeto” como mediação para as suas atividades, nas quais as relações internacionais estão particularmente presentes, incluindo tanto alianças ou redes políticas e sociais de ação, quanto a obtenção ou doação de recursos financeiros. Podem atuar tanto localmente, como internacionalmente, por canais diversos dos oficiais. São organizações nas quais, finalmente, o ideário dos direitos e da igualdade é marca de peso, permeando e politizando atividades variadas (muitas vezes formalmente as mesmas que caracterizam o mais antigo campo assistencial).

As ONGs têm sido tematizadas através de uma extensa produção de textos, em grande parte produzidos dispersamente dentro do próprio meio e nas fronteiras com o campo acadêmico , em países de diferentes tradições associativas tanto no “Norte” como no “Sul”, para usar a terminologia interna. Desse ponto de vista, constroem-se acionando relações sui generis entre o local e o transnacional, as quais conformam um sistema complexo de instituições, agentes, práticas e discursos que levam aos quatro cantos do mundo determinadas lógicas de atuação e ideários universalizantes ao mesmo tempo, no entanto, em que pressupõem e acionam, nos variados espaços sociais em que incidem, relações e processos organizacionais de características e papéis específicos, a depender de cada situação nacional, ou local.

A partir dos critérios de definição e delimitação adotados acima, seguem-se observações sobre as organizações não governamentais e sua presença na sociedade brasileira, focalizadas de modo situacional, na sua história recente e considerando as propriedades sociológicas que definem suas formas peculiares de construção de legitimidade e reconhecimento político.

 

 

ONGS NO CONTEXTO BRASILEIRO

 

 

O termo ONG, no contexto brasileiro e a partir dos anos 80, passa a ser predominantemente empregado para designar um universo de entidades privadas e sem fins lucrativos com características comuns o qual passa a ocupar, enquanto conjunto semi-articulado, determinadas posições no então chamado campo de construção democrática. A institucionalidade desse conjunto de organizações foi-se consolidando aos poucos, desde os anos 70. A adoção da categoria organização não-governamental, ONG, para designar essas entidades se daria apenas no fim da década de 1980, significando o reconhecimento — antes de tudo, por elas mesmas — de uma identidade comum. Se o termo ONG é importado, disseminando-se a partir de redes e canais de financiamentos e de relações internacionais, seu sentido no contexto brasileiro deve ser considerado a partir de sua utilização social e retradução, em termos de dinâmicas sociais próprias a essa sociedade.

Essas assim chamadas ONGs institucionalizaram-se e multiplicaram-se relacionadas ao campo associativo que começou a se desenvolver, no país, na última década do regime militar. Acompanham um padrão característico da sociedade brasileira, na qual o período autoritário convive com a modernização, a diversificação social e a gestação de uma nova sociedade organizada, baseada em ideários de autonomia em relação ao Estado, num contexto em que a sociedade civil tendia a se confundir, por si só, com oposição política. Crescem, portanto, no campo de uma esquerda pós-1964 que estabelecia descontinuidades com as anteriores e cujo terreno de consolidação seria antes o da sociedade civil do que o do Estado. Nesse sentido, as chamadas ONGs foram-se gestando na medida em que se construía e se fortalecia um amplo e diversificado campo de novas associações e movimentos sociais, a partir sobretudo de meados dos anos 1970, tendência que caminhou em progressão pelas duas décadas décadas seguintes. As ONGs fazem parte desse processo e representam um papel no seu desenvolvimento. Têm sido consideradas como tendo funções de vocalização (sem mandato) de determinados segmentos e lutas sociais, de multimediação política ou na transferência de recursos materiais para grupos e movimentos, assim como educadoras informais relacionadas a esse campo.

Essas organizações poderiam ser vistas como guardando continuidades com o vasto e muitas vezes bem antigo universo de entidades privadas que se pretendem sem fins lucrativos, voltadas para atuar no campo da ação social. Por exemplo, algumas das suas atividades de prestação de serviços a grupos vulneráveis poderiam aproximá-las das chamadas organizações filantrópicas ou de assistência social. Ou, por sua dedicação à atuação política no âmbito da sociedade organizada, seria possível estabelecer continuidades entre sua ação e a de organizações associativas do tipo representativo, como sindicatos e associações de moradores. Mas é justamente na distinção, sempre reafirmada por práticas e crenças, com relação a essas outras formas de ação e organização, nos campos político, social e religioso, que se foi construindo a identidade peculiar das ONGs. Faz parte de sua existência uma ambigüidade entre autonomia e dependência com relação a outros campos institucionais com os quais guardam relações de aliança e os quais são, sucessivamente, fontes de obtenção de legitimidade e de recursos.

Atuando no terreno da política e dos movimentos sociais afirmam-se na cena pública, no entanto, enquanto organizações de caráter não-representativo: não se pretendem mandatárias, através das formas tradicionais de delegação, de grupos sociais junto aos quais atuam. Esse é um universo cuja constituição também pressupôs o estabelecimento de alianças e redes de relações institucionais internacionalizadas, de onde têm provido recursos materiais, modelos de atuação e instâncias de reconhecimento.

As ONGs em terrenos brasileiros revelaram capacidade institucional de sobrevivência e adaptação a sucessivas conjunturas político-sociais, nas últimas três décadas. Não só cresceram progressivamente, durante esse período, em número e visibilidade pública, mas também foram-se transformando em termos organizacionais e temáticos, reposicionando-se a cada momento em um espaço social também em transformação.

Origens

O reconhecimento das ONGs enquanto campo específico de organizações na sociedade brasileira não se deu da noite para o dia, mas se construiu progressivamente a partir de todo um investimento, por um conjunto específico de agentes e entidades relacionados através de trajetórias anteriores, na afirmação de uma identidade comum e na produção de concepções, práticas e instâncias específicas de legitimidade.

Nas raízes dessa história estão os chamados centros de educação popular, ou centros de assessoria, que vão surgindo nos anos 1970 como organizações voltadas para um trabalho de pouca visibilidade junto a grupos populares espalhados pelo país, nas cidades e nas áreas rurais, através de pequenos projetos de caráter localizado e comunitário, dedicados a educação, saúde, produção, comercialização, capacitação etc.

Formalmente, esses projetos não eram muito diferentes dos programas de desenvolvimento comunitário que se fizeram nos anos 1950-1960 sob a inspiração e o apoio de organismos das Nações Unidas, ou de organizações ligadas ao governo norte-americano empenhadas em programas de modernização, no contexto da guerra fria. A continuidade, no entanto, é aparente: trata-se, nos anos 1970 e na conjuntura autoritária, de um novo movimento de “ida ao povo” por parte de agentes de classe média sintonizados com o campo da política de oposição, com postura discreta e de costas para o Estado. Vão-se aglutinando pouco a pouco em torno desses projetos e desses centros agentes saídos das universidades em crise, de organizações marxistas em extinção, de cristãos radicais pré-1964 – pessoas de trajetórias interrompidas - e, sobretudo, de novas gerações de cristãos comprometidos com os direitos humanos e convertidos à oposição política, sob forte inspiração da Teologia da Libertação latino-americana. Misturavam-se nesses espaços vertentes do cristianismo e do marxismo, compondo uma pedagogia política na qual o pensamento de Paulo Freire — educador, então no exílio — era referência obrigatória. Pregavam-se não apenas ideários democratizantes, mas “mudanças estruturais”, em oposição às idéias de “desenvolvimento”. A ação assistencial ou comunitária passava a ser subordinada a objetivos e dinâmicas de criação de autonomia e contrapoderes, nas bases da sociedade. Produziu-se, pouco a pouco, uma identificação particular entre agentes de pequenos projetos de tipo educativo e comunitário, espalhados pelo país, os quais acrescentavam às suas qualificações a de entrar em sintonia com o campo da política, na conjuntura pós-golpe. Dão-se novos investimentos, novas aspirações, novos discursos, colocados em práticas — e freqüentemente em organizações — antigas, muitas vezes herdadas de canais também tradicionais, como são os da ação social da Igreja Católica. Vai-se criando uma identidade específica dos centros, no campo das organizações dedicadas à ação social no país, a partir da distinção fortemente marcada com relação às instituições da filantropia e da assistência social tradicional — o chamado assistencialismo, avesso da lógica dos direitos e onde se reproduziriam relações de dependências, hierarquias e clientelismos.

A par com a formação dessas redes horizontais de agentes de “educação popular”, duas outras condições foram necessárias para a criação dessas organizações nos anos 1970. Elas abrigaram-se nos espaços, razoavelmente intocados pela repressão do regime militar, da Igreja Católica, com sua sólida infra-estrutura material e suas incontáveis iniciativas de tipo comunitário e assistencial, espalhadas capilarmente pela sociedade brasileira — o que não significou necessariamente subordinação à hierarquia eclesial, sendo a secularização uma tendência progressiva.

Em segundo lugar, cortados os canais de cooperação com o Estado, distantes, por suas práticas, do mercado, e sendo improváveis as alianças com o setor empresarial nos anos mais duros do regime autoritário, o financiamento obtido a partir da chamada cooperação internacional foi condição básica de possibilidade da institucionalização desses centros. É a partir da segunda metade dos anos 1970 que se intensificam as relações dessas entidades com agências de cooperação internacionais — basicamente européias e canadenses — também em sua maioria não-governamentais, pautadas por ideários democráticos e de defesa de direitos humanos no Terceiro Mundo e fortemente ligadas a igrejas cristãs. Canais de financiamento Norte-Sul passam a ser construídos entre agentes e instituições de horizontes relativamente comuns, quanto a idéias e modelos de atuação.

Anos 1980 em diante: institucionalização e multiplicação

Na virada dos anos 1970-1980, esses centros voltam suas habilidades e seu contingente de ativistas profissionais — reforçados pelos retornados do exílio, de onde trazem novas temáticas e relações de financiamento internacionais — para o trabalho de fortalecimento das diversas organizações e movimentos sociais que crescem no país: movimentos sindicais, associações de moradores, associações comunitárias, movimentos de luta pela terra etc.

Essas entidades, as futuramente chamadas ONGs, não abandonam então os seus projetos localizados, de caráter comunitário e de prestação de serviços (assistenciais, de saúde, de educação), mas passam, em grande medida, a privilegiar atividades referidas à organização de associações e movimentos populares, como cursos de formação sindical, ou apoio logístico em encontros e articulações de organizações e movimentos rurais e urbanos espalhados pelo país, ou ainda assessoria jurídica a associações de periferia urbana, a entidades de classe diversas etc. Não é difícil imaginar que o processo de criação e institucionalização dessas associações - formadas por setores sociais marcados pela marginalidade cultural e o analfabetismo, terreno de escassa tradição associativa - deixava aberto um enorme espaço para o trabalho técnico, jurídico, político e sobretudo de mediação com outros campos institucionais por parte desses chamados assessores profissionalizados vindos das classes médias, com formação universitária e trânsito entre as grandes instituições.

Se nos inícios dos anos 1970 colocara-se, para a identidade institucional dos centros de educação popular, a questão de diferenciar suas atividades das organizações de ação assistencial tradicional religiosas que os abrigavam e legitimavam, tratava-se nessa nova conjuntura de não se deixar confundir com os próprios movimentos sociais e sua dinâmica própria. Nos anos 1980, a institucionalidade autônoma dessas entidades é reforçada e reafirmada, agora por distinção aos movimentos do tipo associativo aos quais se ligavam. Investem então na afirmação de seu caráter não-representativo, definindo-se como entidades apartidárias e que não se pretendem subordinadas, por delegação, a quaisquer segmentos da sociedade, representando-se apenas a si mesmas.

Progressivamente, nos anos 1980 e 90, essas organizações foram-se desdobrando em conjuntos temáticos diversos do “popular”, seguindo os movimentos caracterizados pela defesa de interesses difusos — como o ambientalismo — ou representando um papel que se pode considerar como constitutivo dos novos sujeitos coletivos ou movimentos identitários, como mulheres, negros, povos indígenas, homossexuais, portadores de deficiências, crianças e adolescentes e muitos outros. As chamadas demandas e lutas por direitos específicos têm nas ONGs uma forma organizacional predominante. O processo da Constituinte de 1988 foi um espaço de demonstração da presença na sociedade desse campo de entidades, as quais atuaram vigorosamente com proposições, pressão e lobby.

Se os referenciais discursivos das ONGs são comuns, atualizam-se no entanto através de atividades diversificadas, de âmbitos também variados, nos quais se podem freqüentemente traçar canais de comunicação desde a comunidade local até espaços internacionalizados de discussão, financiamento, ação política e social — como se vê mais claramente por exemplo nas áreas dos direitos humanos ou do ambientalismo. Dentre os exemplos de projetos em que as ONGs se especializam contam-se iniciativas educacionais variadas (da alfabetização à capacitação profissional, passando pela educação ambiental, ou ainda a capacitação para atuar na área das políticas públicas); publicações (cartilhas, manuais, livros, periódicos), vídeos, programas de rádio, serviços sociais diversos (como atendimento na área da saúde a desde moradores de rua até portadores do vírus da AIDS, passando pelo atendimento a vítimas da violência ou pela criação de creches comunitárias). Vêem-se projetos alternativos de geração de renda ou de melhoria das condições materiais de vida (como cooperativas de produção, experiências de agricultura familiar ecológica, de reciclagem de lixo, de construção de casas populares). São atividades ora consideradas como experimentais e exemplares com relação a desenhos de políticas públicas, assim como promotoras de organização social e política, ou ainda de educação difusa (como campanhas diversas).

A fundação, em 1991, de uma associação, a Associação Brasileira de ONGs (Abong) — onde as entidades com poder de convocação foram as criadas na década de 1970, conforme trajetória aqui assinalada — formaliza e contribui para legitimar a existência dessas organizações, consagrando o nome pelo qual vinham-se autodenominando desde o fim da década anterior. Outros acontecimentos particularmente consagradores do nome ONG e das organizações por ele designadas foram — ambos realizados no Rio de Janeiro — um amplo encontro internacional promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em 1991, com as ONGs brasileiras, assim como um evento de maior peso, a United Nations Conference for Economic Development (UNCED), conhecida como Eco-92, onde ONGs de diversos países montaram uma conferência paralela e mereceram atenção privilegiada da mídia, materializando-se redes internacionalizadas de organizações que, com objetivos análogos, atuam no plano da sociedade civil. É quando se apregoa a idéia de uma “sociedade civil planetária”. No decorrer dos anos subseqüentes, as ONGs brasileiras vão participar ativamente de novas conferências promovidas pelas Nações Unidas, de temáticas diversas (como mulheres, comércio internacional, questões étnicas e raciais, ambientais etc.). Nos inícios do século XXI representam um papel certamente de peso na construção dos chamados Fóruns Sociais Mundiais, caracterizados pela crítica às formas que assume a globalização e pela diversidade, quantidade e caráter internacionalizado dos seus participantes, os quais se iniciam em Porto Alegre, no Brasil, em 2001.

Nos inícios dos anos 90 criou-se um novo campo para a atuação desse universo já consolidado de organizações compostas por determinado tipo de ativista social, de profissional da política. São os novos desenhos de políticas públicas dados pelos conselhos de co-gestão e os orçamentos participativos, os quais se espalharam pelo país. Pesquisas mostram que essas ONGs faziam parte ativa, enquanto “sociedade civil”, desses espaços.  Criadas no regime autoritário de costas para o Estado, souberam qualificar-se para a atuação com polítcas públicas a partir da democratização.

Nas determinações desse processo de identificação, autonomização e reconhecimento de protagonismo próprio pelas ONGs contam, portanto, vários fatores. Se até aqui foram ressaltadas dinâmicas internas ao país, como a democratização, a crescente institucionalização dos próprios movimentos sociais, o aparecimento de novos atores e sujeitos na cena pública, ou o surgimento de novas formas de gestão participativa das políticas públicas, há uma conjunção de fatores internacionais que têm papéis relevantes nos processos aqui descritos. Dentre esses, vale mencionar o interesse dos organismos multilaterais, como o Banco Mundial (BIRD) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), pelo fortalecimento das organizações da sociedade civil, num quadro internacionalizado de redefinição do papel do Estado e de desmonte de políticas sociais. Portanto, a questão dos papéis representados na cena pública contemporânea pelas ONGs deve ser avaliada considerando múltiplos espaços, determinantes e atores, com ideários e interesses diferenciados, que atravessam esse campo de ações privadas de sentido público. A partir sobretudo dos anos 90, surge no debate sobre essas organizações a idéia de que podem ser funcionais para a construção do chamado neoliberalismo, paralelamente ou contraditoriamente com conseqüências democratizantes e de combate às desigualdades para o que podem contribuir.

perspectivas

 

Caberá indagar, em finais da primeira década do século XXI, qual a consistência e quais as condições de reprodução desse conjunto de organizações voltadas a “projetos sociais”, as que primeiro se apropriaram do termo ONG, entraram com vigor em espaços públicos e criaram uma identidade simbolicamente valorizada. Ou ainda e de modo concomitante, caberá a pergunta sobre os destinos semânticos do termo ONG. Podem ser observadas tendências a um uso, pelo senso comum, mais neutro e indiscriminado da expressão como sinônimo de qualquer organização sem fins lucrativos voltada para a ação social, ou seja, para um universo que se conta em centenas de milhares de entidades, no Brasil.

É sintomático dessas transformações recentes o surgimento de novos termos, no fim da década de 1990, para designar fenômenos e questões ligadas ao chamado universo das organizações da sociedade civil. Terceiro setor — mais uma importação — é talvez o mais significativo. Diferencia-se, e mesmo se contrapõe, a ONG, na medida em que não privilegia a particularização organizacional mas, ao contrário, traz a idéia generalizante de um grande universo de entidades — um amplo setor, terceiro espaço por referência ao Estado e ao mercado —, minimizando diferenças de valores e posições políticas no espaço público. O termo tem conotações de valorização da colaboração e da positividade da interação, tendendo a diluir idéias de conflito, de politização, de confronto de forças na sociedade civil que sempre inspirou a ação das ONGs aqui mencionadas. O “terceiro setor” surge basicamente através de canais relacionados a fundações norte-americanas e da chamada responsabilidade social empresarial, referida a novos atores que entram no campo da ação social ligados ao mercado e pautados por sua lógica, nas práticas sociais desenvolvidas diretamente ou financiadas (as palavras-chave serão outras, como competência, agregação de valor, marketing social, talento individual, resultados materiais com indicadores mensuráveis etc., assim como será outra a história de construção de relações desses agentes com a sociedade brasileira).

A diversificação e multipliação de personagens no campo da ação social privada vai reconfigurar, portanto, identidades e posições assumidas pelas ONGs na sociedade brasileira. As transformações recentes no campo dos movimentos sociais – e a idéia de que haveria uma “crise” nesses movimentos - igualmente leva a questionamentos sobre a atuação das ONGs, a partir de sua história recente: estariam essas organizações substituindo os movimentos sociais e, portanto, colaborando com sua debilitação? Uma questão também colocada na agenda ao final da primeira década dos anos 2000 é a da evidente retração, por vários motivos, do financiamento internacional que em grande parte vem contribuindo para a sustentação material e política dessas entidades. Há, nesse sentido, uma busca (e uma relativa abertura) de recursos públicos para a atuação das ONGs, o que vai modificar suas relações com a sociedade e o Estado, suas formas de controle e de prestação de contas, sobretudo em um contexto no qual falta uma legislação e mecanismos institucionais adaptados e específicos para tal. A questão da legitimidade das ONGs tende a passar por esses processos, assim como levantam-se cada vez mais discussões – teóricas e políticas - sobre as formas específicas de representação política assumidas, de fato, por essas organizações que não se constroem pela delegação de seus membros. Essas discussões são tão mais relevantes, quanto é marcante a presença, em vários espaços públicos da sociedade brasileira, das formas organizacionais descritas.

 

 

Leilah Landim colaboração especial

 

FONTES: Cohen, Samy. « ONGs, altermondialistes et societé civil internationale », in Revue Française de Science Politique vol. 54, no. 3, Juin 2004. Paris, Presses de la Fondation Nationale de Sciences Politiques, 2004 ; Dauvin, Pascal e Siméant, Johanna. Le travail humanitaire: les acteus des ONGs, du siege au terrain. Paris: Presses de Sciences Po, 2002; Fernandes, Rubem C. e Piquet, Leandro. ONGs anos 90 : a opinião dos dirigentes brasileiros, Rio de Janeiro, ISER, 1992; Keck, M. & Sikkink, K - Activists Beyond Borders. Ithaca: Cornell University Press, 1998; Koslinsky, Mariane Campelo. Um estudo sobre ONGs e suas relações de `accountability`. Tese de Doutorado, Programa de Pó-Graduação em Sociologia e Antropologia, IFCS/UFRJ, 2007; Landim, Leilah. A invenção das ONGs: do serviço invisível à profissão sem nome. Tese de Doutorado, Museu Nacional/UFRJ, Rio de Janeiro, 1993; Smith, Brian H. - More than Altruism – the Politics of Private Foreign Aid, Princeton: Princeton University Press, 1990; Arantes, Paulo Eduardo – “Esquerda & Direita no espelho das ONGs”, em Inteligência, agosto-setembro-outubro de 1999. Rio de Janeiro: Insight, 1999..

 

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