SOCIEDADE BRASILEIRA DE DEFESA DA TRADICAO, FAMILIA E PROPRIEDADE

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Nome: SOCIEDADE BRASILEIRA DE DEFESA DA TRADIÇÃO, FAMILIA E PROPRIEDADE
Nome Completo: SOCIEDADE BRASILEIRA DE DEFESA DA TRADICAO, FAMILIA E PROPRIEDADE

Tipo: TEMATICO


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SOCIEDADE BRASILEIRA DE DEFESA DA TRADIÇÃO, FAMILIA E PROPRIEDADE

SOCIEDADE BRASILEIRA DE DEFESA DA TRADIÇÃO, FAMILIA E PROPRIEDADE

Associação civil de âmbito nacional fundada em 1960 por Plínio Correia de Oliveira, com o apoio dos bispos dom Antônio de Castro Mayer, de Campos (RJ), e dom Geraldo Proença Sigaud, de Diamantina (MG). A organização tem por objetivos “combater a vaga do socialismo e do comunismo e ressaltar, a partir da filosofia de são Tomás de Aquino e das encíclicas, os valores positivos da ordem natural, particularmente a tradição, a família e a propriedade”.

Ideologia e estruturação

A TFP inspirou-se no “integrismo”, ideologia católica cujo princípio básico é a militância ativa em defesa do catolicismo tradicional, em oposição ao catolicismo com engajamento social. Plínio Correia de Oliveira era um ex-integrante da Ação Católica Brasileira (ACB), da qual havia-se desligado em 1943, quando essa organização começara a se preocupar com questões sociais.

A TFP foi a primeira organização de resistência às novas estratégias de engajamento social da Igreja, defendidas, além da ACB, pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a principal corrente dentro da Igreja no início da década de 1960. A organização ignorou também por completo o Concílio Vaticano II, e seus membros mais importantes viriam a criticar as teses defendidas pelos papas João XXIII e Paulo VI.

A ação da TFP junto à opinião nacional é desenvolvida através de constantes campanhas públicas em defesa da família monogâmica e indissolúvel e da propriedade privada, bem como do ataque ao comunismo e ao socialismo, qualificados de “elementos perturbadores da ordem natural das coisas”.

Essas campanhas se realizam através da coleta de assinaturas em apoio às petições da organização, destinadas a sensibilizar as autoridades eclesiásticas, civis e militares para seus objetivos. Quando em campanha, os militantes da TFP — apenas homens — postam-se nas ruas mais movimentadas ou na frente das igrejas, envergando capas púrpuras sobre ternos escuros e empunhando estandartes com o emblema da organização. Fazendo uso abusivo de megafones, procuram convencer os passantes a assinar seus manifestos.

O recrutamento dos militantes obedece a etapas sucessivas. Os jovens têm sua personalidade minuciosamente estudada, com o objetivo de estabelecer suas opiniões políticas e religiosas. Julgados aptos a ingressar na sociedade, são submetidos a uma doutrinação sistemática, que visa a atraí-los. Quando o convite é aceito, passam a fazer parte do grupo “Pontchâteau”, que constitui um estágio primário. Seguem-se os grupos “Poitiers” e “Navas de Tolosa”. O tempo de permanência neste último é determinado pela dedicação demonstrada, a capacidade de percepção da doutrina da entidade, e, finalmente, a antigüidade. Os últimos estágios são chamados de “Consolatrix Aflictorum” e “Mater Martirium”.

Após essa preparação intensiva, os jovens podem habitar uma das casas pertencentes à sociedade, onde discutem diariamente sua doutrina e se preparam para as eventuais campanhas públicas. Assistem ainda a cursos “cívico-culturais” e participam obrigatoriamente de aulas de defesa pessoal, aprendendo judô e caratê.

As atividades culturais e cívicas da TFP são dirigidas por um conselho nacional, sediado em São Paulo e chefiado por Plínio Correia de Oliveira. Em 1974, além de Plínio Correia de Oliveira, responsável pela orientação e pelas campanhas da entidade, faziam parte do conselho nacional Adolfo Lindenberg, Alberto Luís Du Plessis, Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira, Caio Vidigal Xavier da Silveira, Eduardo de Barros Brotero, Fernando Furquim de Almeida, Giocondo Mário Vita, João Sampaio Neto, José Carlos Castilho de Andrade, José Fernando de Camargo, José Gonzaga de Arruda, Luís Nazareno de Assunção Filho, Paulo Barros de Ulhôa Cintra, Paulo Correia de Brito Filho e Plínio Vidigal Xavier da Silveira.

As atividades filantrópicas e os assuntos administrativos e financeiros da organização competem a uma diretoria administrativa e financeira nacional, também sediada em São Paulo. Seu superintendente até 1974 era o engenheiro Plínio Vidigal Xavier da Silveira.

Esses dois órgãos compõem o diretório nacional da TFP. Além disso, cada estado possui uma seção da organização, em que se reúnem as subseções municipais. As seções e subseções subordinam-se a diretórios secionais e subsecionais, exceto a seção de São Paulo, diretamente ligada aos órgãos nacionais.

Até 1970, a TFP possuía representações em 52 cidades brasileiras. Segundo suas próprias informações, o número de sócios passara de 40 em 1960 para 1.200 em 1969, e 1.500 em 1970. Grande parte dos associados são jovens de 16 a 30 anos.

A TFP mantém-se através das mensalidades dos sócios e de donativos. Além de ramificações na Argentina, no Uruguai, no Chile, na Colômbia e na Venezuela, a organização possui laços estreitos com os grupos católicos Permanência, no Rio de Janeiro, e Hora Presente, em São Paulo.

Atuação

Pouco depois de sua fundação, a TFP caracterizou-se como a mais radical organização católica de oposição ao governo João Goulart. Entre 1961 e 1963, a sociedade promoveu sua primeira campanha nacional contra “a reforma agrária socialista e confiscatória” proposta pelo presidente da República, considerada uma violência contra o direito natural à propriedade privada.

A atitude da comissão central da CNBB e de outros grupos católicos regionais, de apoio à reforma agrária e a outras mudanças estruturais sugeridas pelo governo, foi denunciada como um sinal de “comunismo” e condenada através do livro intitulado Reforma agrária: questão de consciência, escrito por dom Castro Mayer, dom Sigaud, Plínio Oliveira e Luís Mendonça de Freitas.

Em março de 1964, a TFP desfechou intensa campanha contra a Ação Católica de Belo Horizonte, que havia apoiado a Juventude Universitária Católica (JUC). Esse grupo, por sua vez, havia atacado a TFP por sua atitude na questão da reforma agrária.

Com a deposição de Goulart em 31 de março, afastou-se para a TFP o perigo das transformações sociais. A organização colocou-se de imediato do lado do governo militar, opondo-se aos setores progressistas da Igreja. Sua posição se fortaleceu com o afastamento da liderança progressista da CNBB.

Em junho de 1966, a TFP promoveu uma coleta de assinaturas em 142 cidades contra um projeto de lei enviado ao Congresso, prevendo a introdução do divórcio no país. Esse documento, chamado “Apelo às autoridades civis e eclesiásticas em favor da família brasileira”, teria recebido, segundo a organização, um milhão de assinaturas.

O apoio concedido pelos setores progressistas da Igreja às greves operárias e às manifestações estudantis de protesto contra o regime deflagradas a partir do início de 1968 foi duramente criticado pelas correntes católicas conservadoras, entre elas a TFP. O argumento apresentado era o perigo da comunização do clero.

Ainda em 1968, a publicação de um estudo realizado pelo padre belga Joseph Comblin — professor do Instituto Teológico de Recife, fundado por dom Hélder Câmara — foi considerada um ato “subversivo” por dom Castro Mayer. Nesse trabalho, Comblin demonstrava que cabia à Igreja participar do processo de mudanças sociais. Segundo dom Sigaud, o apoio concedido pelos bispos e o clero em geral a tal estudo era a “prova cabal e irrespondível” de que o comunismo havia penetrado nas fileiras da Igreja.

Em coroamento a essas atitudes, durante os meses de julho e agosto de 1968, o conselho nacional da TFP promoveu uma campanha nacional de denúncia da “comunização do clero no Brasil”.

Esse movimento teve mais uma vez a forma de um abaixo-assinado, que circulou em 158 cidades do país, recebendo um milhão e seiscentas mil assinaturas, inclusive de altas autoridades eclesiásticas, civis e militares. A idéia era apresentar o documento ao papa, em Medellín. Essa campanha foi considerada a mais séria de todas as empreendidas contra dom Hélder e seus adeptos.

Por outro lado, discordando das posições assumidas por bispos como dom Sigaud e dom Castro Mayer, a CNBB progressivamente se comprometia com uma nova missão social. Em conseqüência das inúmeras críticas surgidas dentro da Igreja contra as declarações e o comportamento da TFP, em outubro de 1968, a comissão central da CNBB nomeou uma comissão especial para investigar as atividades dessa organização. A conclusão a que se chegou foi que a TFP não representava a Igreja brasileira, constituindo-se num entrave a seu desenvolvimento.

A TFP, por seu lado, procurava aproximar-se do governo para fortalecer sua posição. Esse movimento é comprovado pelos elogios e condecorações recebidos por muitos de seus membros das autoridades militares nesse período.

Fora do âmbito da Igreja, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) procurava igualmente averiguar as atividades políticas e financeiras da TFP. No mês de setembro, entretanto, o ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva, refutou na Câmara dos Deputados as acusações à organização, declarando desconhecer qualquer ato passível de punição por ela cometido.

Em 1969, a TFP divulgou nacionalmente um número especial do mensário Catolicismo, editado pela diocese de Campos. A publicação tratava da “crise que abala a Igreja”, a qual seria sustentada por organismos que haviam florescido em seu interior após o Concílio Vaticano II, e que procuravam “infiltrar o comunismo” em seu seio.

Em junho desse mesmo ano, uma bomba explodiu na sede do conselho nacional da TFP, em São Paulo. Depois de reconstruir sua sede, os membros da organização instalaram um oratório de frente para a rua, onde foi exposta à “veneração popular” e às vigílias de oração uma imagem de Nossa Senhora da Conceição danificada durante o atentado.

Em setembro e outubro de 1970, a TFP realizou uma campanha nacional para a difusão de um manifesto de esclarecimento da opinião pública sobre o “perigo” que representava para toda a América Latina a vitória de Salvador Allende nas eleições para a presidência do Chile. Além desse documento, redigido por Plínio Correia de Oliveira, a organização divulgou o livro Frei, o Kerensky chileno, de Fábio Vidigal Xavier da Silveira, denunciando o perigo da implantação do comunismo no Chile. Segundo o autor, essa possibilidade se abrira graças ao trabalho preparatório da democracia cristã, da qual Eduardo Frei fora o líder máximo.

Em 1975, partindo do Rio Grande do Sul, desencadeou-se uma série de acusações contra o caráter “nazista” e “fanático” da TFP. A organização defendeu-se publicamente, contando com o apoio irrestrito de dom Castro Mayer e dom Orlando Chaves, arcebispo de Cuiabá.

Enquanto dom Castro Mayer mantinha-se defensor incondicional da TFP, dom Sigaud afastou-se da organização. Segundo sua própria versão, esse afastamento se deveu basicamente à negativa da TFP em aceitar a nova liturgia estabelecida pelo papa, a qual, entre outras coisas, introduzia no Brasil a missa rezada em português. Embora a TFP alegasse fidelidade à Igreja, vários outros bispos — entre os quais dom Clemente Isnard, bispo de Nova Friburgo e presidente da comissão nacional de liturgia da CNBB — condenaram a atitude da organização, proibindo aos fiéis ingressar em seus quadros.

Em 1977, dom Arnaldo Ribeiro, bispo auxiliar de Belo Horizonte, declarou ser a TFP “um movimento que se afirma leigo, civil. Mas que não age assim nas suas manifestações concretas, demonstrando ser um movimento de cunho religioso, por causa de sua devoção a Nossa Senhora e da valorização da Eucaristia”.

Ao longo das décadas de 1980 e 1990, a TFP permaneceu como uma das expressões mais duradouras e combativas da chamada vertente integrista do catolicismo, utilizando para a sua identidade símbolos dessa religião e participando da vida nacional por meio de críticas ao sistema e à Igreja em nome da leitura que faz do catolicismo.

O fim do regime militar e a convocação de uma Assembléia Constituinte no governo de transição do presidente José Sarney em 1987 foram motivo de grande preocupação por parte da TFP. Segundo a entidade, o projeto constitucional em gestação teria como conseqüência a “sovietização do país”, em função dos esforços para promover uma reforma agrária, urbana e empresarial, além do perigo de se abolir inteira e completamente a família brasileira, pois havia a ameaça de se estabelecer a “absurda” igualdade entre homens e mulheres, o “reconhecimento” da existência do homossexual no seio da sociedade e a “equiparação” ao casamento da união estável. Dessa forma, a TFP apoiou e divulgou através de matérias pagas nos principais periódicos os esforços desenvolvidos pelo “Centrão”, aglutinação de parlamentares de perfil conservador que representavam o maior bloco no Congresso durante a Constituinte.

Os ataques da TFP no período não se limitavam somente ao universo político strictu sensu. A organização conservadora católica mirava freqüentemente as iniciativas promovidas pela própria Igreja, como as comunidades eclesiais de base (CEBs) e a pastoral da terra, visto que, de acordo com a perspectiva da TFP, atentavam contra a propriedade privada.

Seria justamente por contar com o apoio de determinados núcleos da Igreja denominados de progressistas que o fundador da TFP iria conclamar seus seguidores a não votarem em Luís Inácio Lula da Silva durante a campanha presidencial de 1989. Em artigo pago no jornal Folha de S. Paulo, Plínio Correia de Oliveira identificava nas forças políticas que apoiavam Lula uma irrefutável evidência das intenções socializantes de um possível governo do Partido dos Trabalhadores (PT).

Com o surgimento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o acirramento da questão agrária no país na década de 1990, a TFP iria intensificar os seus ataques às propostas de reforma agrária. Para tanto, procurou estabelecer alianças com outras organizações conservadoras e contrárias à reforma agrária, como a nova União Democrática Ruralista (UDR) — recriada por ocasião dos conflitos no Pontal do Paranapanema (SP) — e o Movimento Direita Volver (MDV), integrado por antigos militantes do extinto Comando de Caça aos Comunistas (CCC).

Com o falecimento de Plínio Correia de Oliveira em 1995, a TFP perdeu o seu fundador e principal liderança, iniciando-se uma crise interna na organização. As disputas pelo controle da TFP foram noticiadas pela imprensa após a detenção do engenheiro agrônomo Fernando Larrain em regime de cárcere privado durante 45 dias em uma das sedes da organização em Itaquera, Zona Leste de São Paulo. A punição, chamada pela TFP de “camáldula de clausura restrita”, era decorrente do crescente movimento de oposição liderado pelo engenheiro e que culminou com uma ação impetrada na 3ª Vara Cível do Fórum Central de São Paulo em novembro de 1997, para exigir o direito dos sócios em votar nas assembléias. A ação foi apoiada por 80% dos 1.800 membros da TFP e questionava os estatutos da organização, que determinavam que somente os membros fundadores, nove no total, possuíam direito de voto nas assembléias gerais.

Nesta última década, o anticomunismo exacerbado da TFP, uma das suas principais características desde a sua fundação, revelou-se anacrônico em função do desmembramento da União Soviética e do fim da guerra fria, acarretando a perda de uma das principais bandeiras da organização. Entretanto, esse instrumento civil da manutenção de uma forma de pensar o mundo, que se apóia, por um lado, em elementos pertencentes à religião católica e, por outro, em elementos construídos pelo sistema, em sentido amplo, consegue sobreviver, uma vez que satisfaz representantes das diferentes camadas sociais: para uns, acenando com a perpetuação das suas condições de existência, com românticas alusões a um medievo idealizado; para outros, com a esperança de recuperação do mundo via o emprego da força física e das práticas belicosas, neutralizadas e legitimadas por uma mensagem religiosa.

Mônica Kornis/Thomas Ferdinand Heye

 

FONTES: ALVES, M. Igreja; ANTOINE, C. Church; BRUNNEAU, T. Catolicismo; DELLA CAVA, R. Igreja; Estado de S. Paulo (4/6/75); Folha de S. Paulo (29/11/89); IstoÉ (8 e 24/6/98); Jornal do Brasil (15/2/77 e 23/11/87); Manchete (7/6/75); SEIBLITZ, Z. Sociedade; SOC. BRAS. DEFESA DA TRADIÇÃO. Política; SOC. BRAS. DEFESA DA TRADIÇÃO. Que; Veja (20/5/70).

 

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