TEMPO, O

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Nome: TEMPO, O
Nome Completo: TEMPO, O

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Jornal lançado em São Paulo em 30 de dezembro de 1930 como órgão de imprensa da Revolução de 1930, criado a partir da apropriação dos bens pertencentes ao Correio Paulistano e ao Partido Republicano Paulista (PRP). A edição do número um apontava como diretor do jornal Sud Menucci, e como administrador José d’Oliveira China. Em 9 de janeiro de 1931 o nome de Sud Menucci foi substituído pelo do “brilhante e intrépido jornalista revolucionário Rafael Correia de Oliveira”.

Como veículo de divulgação dos ideais da Legião Revolucionária, O Tempo apresentava a seguinte estrutura: na página nobre (a primeira) trazia artigos, entrevistas, editoriais de caráter político, exaltando o programa revolucionário e os ideais tenentistas e realçando todos os acontecimentos cívico-militares promovidos em 1930. A segunda página era reservada para reverenciar os “tenentes militares e civis” desaparecidos; na página três eram publicados assuntos relativos à administração pública, sobretudo o noticiário oficial sobre portarias e decisões das secretarias de Estado (uma espécie de diário oficial do governo João Alberto). A página quatro era reservada para assuntos culturais, a cinco para esportes, cabendo à última página assuntos nacionais e internacionais “não-doutrinários” e de interesse geral. Os números iniciais contavam com charges e ilustrações de Di Cavalcanti.

Uma das primeiras preocupações do jornal foi a de afirmar a adesão dos trabalhadores ao movimento de 1930: a classe trabalhadora estava, no seu entender, “integrada no espírito da revolução... as greves criminosamente exploradas, mal-entendidos entre patrões e empregados, explorações de descontentes, nada poderá divorciar a massa trabalhadora dos dirigentes de hoje” (1/1/1931). Mas o jornal também não deixava ausentes de suas páginas as figuras militares: uma frase do pronunciamento do coronel Mendonça Lima, chefe do estado-maior da 2ª Região Militar, foi transformada em frontispício da edição do dia 2 de janeiro de 1931: “Se o soldado sabe que é nas democracias legítimas o cidadão armado, precisa saber também que os melhores cidadãos como os melhores soldados, não são nunca retardatários.”

Rafael Correia de Oliveira, recém-empossado diretor do jornal, foi o responsável pela frase da edição do dia 10 de janeiro de 1931: “São Paulo, que foi o centro da reação mais forte, pelo poder da oligarquia organizada, é agora o porta-bandeira da revolução.” A vinculação de O Tempo à figura de Miguel Costa era explícita: notícia da primeira página da mesma edição afirmava que “Miguel Costa [está] decididamente ao lado de São Paulo”.

A partir de meados de janeiro os editoriais de O Tempo voltaram sua atenção contra o Partido Democrático (PD), elogiando, em contrapartida, a administração de João Alberto, “um administrador capaz, um homem público sincero e novo nos processos de dirigir o estado” (31/1/1931). O PD defendia a Constituinte; O Tempo dedicou vários editoriais ao assunto, todos com mais ou menos o seguinte teor: “A Constituinte... havemos de tê-la, um dia! Mas haveremos de tê-la quando as conquistas revolucionárias, que são as do povo e não as das facções bizantinas, estiverem absolutamente consolidadas, isto é, a salvo dos botes traiçoeiros dos aproveitadores de toda espécie” (1/2/1931). Neste mesmo mês o jornal respondeu à acusação do PD de que “toda a gente quer a Constituinte no Brasil, menos os comunistas de São Paulo, que constituem uma força”, com as seguintes palavras: “Há nessa afirmação uma perfídia idiota e uma revelação de ignorância perfeitamente democrática... o que há, portanto, na intriga do Diário Nacional, é a reedição da mesma tática que os democráticos se utilizavam para derrubar o coronel João Alberto e matar a revolução” (20/2/1931).

Em março O Tempo publicou o Manifesto da Legião Revolucionária de São Paulo à nação, atribuída a Plínio Salgado (5/3/1931). Uma semana depois noticiou com destaque o apoio de Oliveira Viana ao documento dos legionários, chefiado por Miguel Costa e João de Mendonça Lima. À época vários editoriais defenderam a censura à imprensa nos seguinte termos: “Liberdade de imprensa, sim. Mas, liberdade para a imprensa revolucionária identificada com os interesses e as aspirações do povo. Estabeleça-se, pois, a censura para a imprensa contra-revolucionária” (20/3/1931).

Dada sua estreita e muito explícita vinculação com o governo, O Tempo era constantemente levado a se defender de acusações segundo as quais o jornal estaria sendo financiado diretamente pelo próprio governo. Numa dessas respostas, Rafael Correia de Oliveira afirmou que O Tempo contava com os seguintes recursos: “Os oficiais excluídos da Força Pública de São Paulo, que, ao serem reintegrados, receberam um ano de vencimentos no total de 230 contos, subscreveram 67 contos e eu entrei com 15 contos” (23/3/1931).

O combate ao PD se fazia sem trégua: quando do rompimento daquele partido com João Alberto, O Tempo acusou os democráticos de “conservadores hipócritas” (8/4/1931), de “traidores de São Paulo” (9/4/1931), de “inimigos de São Paulo, esses agitadores sem finalidade” (10/4/1931).

Em meados do ano nota-se uma mudança na linha editorial de O Tempo: a partir do episódio de deportação de Otávio Brandão “pela polícia revolucionária do sr. Batista Luzardo”, o jornal passou a defender a liberdade de opinião e expressão, embora não perdesse “a oportunidade para um esclarecimento: o perigo comunista está sendo criado no Brasil por interesse político e para fins políticos. É uma manobra” (20/6/1931). A par de denúncias como esta, e como a do impedimento pela polícia de Maurício de Lacerda escrever para jornais (2/7/1931), O Tempo passou a defender maior urgência para a convocação da Constituinte: “Não estará mais tão longe a convocação da Constituinte” pois “fortalece o Governo Provisório, tanto na Federação como nos estados, dar ao povo um ambiente respirável e marcar a data da eleição” (11/9/1931).

Nessa edição também se anunciava uma mudança na gerência do jornal: Rafael Correia de Oliveira deixou a direção e foi substituído por Ribas Marinho. Não obstante, não se pode atribuir as mudanças da linha editorial a essas reformulações administrativas, e sim à evolução dos acontecimentos, e sobretudo à investida do governo em várias áreas, inclusive a da censura à imprensa. O número que circulou no dia 16 de setembro de 1931 publicava na íntegra as instruções — não assinadas e redigidas em papel sem timbre — que os diretores de jornais e agências telegráficas receberam cerceando a liberdade de imprensa. A partir de então, O Tempo noticiou com assiduidade a prisão de intelectuais e operários e os movimentos grevistas e, no final do mês, deu ampla cobertura ao I Congresso da Legião Revolucionária. A edição de 29 de setembro publicou as resoluções do congresso, dentre as quais se incluía a de que “quando for convocada a Constituinte, a Legião Revolucionária se transformará automaticamente em partido político com a denominação de Partido Popular”. No conflito entre Miguel Costa e o governo Vargas, O Tempo, jornal eminentemente miguelista, reafirmou que Miguel Costa permaneceria na chefia da Legião Revolucionária e no comando da Força Pública.

O Tempo foi substituído pelo Correio da Tarde e, em maio de 1932, este jornal foi empastelado pela multidão. Depreende-se, da leitura de Paulo Nogueira Filho e de Heliodoro Tenório e Odilon A. de Oliveira, que nos primeiros meses daquele ano tanto O Tempo como a Legião Revolucionária já não mais existiam em termos formais, tendo seu lugar sido ocupado pelos sucedâneos Correio da Tarde e o Partido Popular Paulista.

Jornal controvertido, O Tempo deu margem a inúmeras interpretações de sua linha editorial, sobretudo pelo fato de ela tratar de temas já por si controvertidos. Caso típico foi o do apoio ou não do jornal aos comunistas. Segundo Paulo Nogueira Filho, “O Tempo sustentou... a campanha comunista... Uma voz que simpatizava com o interventor João Alberto afirmava, no Rio, que a rapaziada de O Tempo, até na crônica militar, defendia idéias acentuadamente comunistas... No grupo dos escribas legionários tidos como vermelhos, era preciso distinguir os que, devidamente doutrinados, seguiam a orientação marxista-leninista ortodoxa, daqueles que conheciam o fenômeno bolchevista apenas pela rama. Os primeiros agiam em função das diretrizes de Moscou... Os segundos, bem mais numerosos, melhor se enquadravam na categoria de ‘palpiteiros’... Na verdade, dentre estes, o maior número jamais cogitou de bolchevizar o Brasil, mas intimidar a burguesia, principalmente a que se arregimentava sob a bandeira do Partido Democrático”.

Amélia Cohn/Sedi Hiranocolaboração especial

 

 

FONTES: NOGUEIRA FILHO, P. Ideais; TENÓRIO, H. São Paulo.

 

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